quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

É PRECISO SABER VIVER

 VIDA NOVA VIDA


Tão logo te foste, pus-me a andar pela casa a busca de coisas esquecidas. Deixaste as torneiras abertas, a água jorrando; as luzes todas acesas; a porta da geladeira entreaberta; uma chaleira com água no fogo; a cadeira onde costumavas sentar afastada da mesa; o som ligado, rodando o CD que tanto gostavas, no modo "Loop"; a porta da rua deschaveada. Mas, não sei por que, aquilo não me incomodava. O que me incomodava, mesmo - e era só um pouco - era a espera, pois sabia que voltavas, entendia teus sinais, teu jeito, tuas manias.
E voltaste, mesmo. Entraste sem bater, conferiste a geladeira, aproveitaste a água quente, sentaste no teu lugar preferido. E ficamos por horas e horas conversando coisas bobas e lembrando da vida. E isso repetiu-se por vezes e vezes. E eu até que achava bom.
Um dia, aquilo começou a me incomodar. Fechei as torneiras; fechei a porta da geladeira; apaguei as luzes, deixando acesa só a que eu precisava; reposicionei as cadeiras - e foi me dando uma vontade de trocar tudo de lugar!; troquei o CD por um que eu gostava; apaguei o fogo e guardei a chaleira; chaveei a porta; não te esperei.
Quando voltaste, estranhaste a porta fechada. Mas tinhas as chaves. E entraste. Abriste a geladeira, as torneiras, botaste água na chaleira e a chaleira no fogo, não reconheceste a sala, te incomodaste com a música que tocava. Chamaste-me a atenção. E eu não entendi teu gesto, não te reconheci, parecias uma estranha - mas, ainda assim, sentia que gostava muito de ti, e não te retruquei. Porém, assim que saíste, desfiz tudo o que tinhas feito na minha casa: mudei os móveis de lugar; joguei fora algumas coisas; saí e comprei outras, que há tempos eu gostava; botei para tocar uma música nova; senti-me feliz.
Da próxima vez que voltares, vou te explicar que gosto muito, muito, mas muito, mesmo, de ti - mas vou te pedir, educadamente, que me entregues as chaves.

João A. Pereira

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

CORRENDO


"Edifício São Vito - by Lucas" por Lukaaz - Obra do próprio. Licenciado sob CC BY 3.0, via Wikimedia Commons

Tem janela que dá pra lugar nenhum. Como tem olhares que não levam pra dentro. Tem porta para não deixar sair. Tem porta para não deixar entrar. Como tem vontades de estar ou não estar. Tem teto que abriga. Tem teto que separa. Pára de pensar! Não liga: toma teu café. Olha, tão te chamando. Vai. Tem tempo de passar. Tem tempo de viver. Não lembra de lembrar para esquecer. Tem coisa que não muda. Deixa o café. Não sente. Vai.

João A. Pereira

domingo, 13 de dezembro de 2015

CHÁ DE AMANHÃ COM ONTEM

 
Chá de flor de ibisco. Imagem copiada do site receitasedietas.com

CHÁ DE AMANHÃ COM ONTEM

Fones de ouvido para ouvir o chá. Silêncio de campo no verão. Nem te conto das batidas do meu coração sobressaltado: linha reta estendida à sombra de um olho-mágico de desencanto. Frustração de açúcar cristal substituído por adoçante: a vida sempre pede por algo que a adoce. Não lembro se te falei do pôr-do-sol de ontem: passeava despercebido entre os grãos de areia da praia e jogava meus olhos contra as ondas. Mas tão forte, tão forte, que quase virei estátua - olhos de sal: culpados por não ouvir as vozes e voltarem-se, de repente - só por querer te olhar, te olhar, te olhar - verde mar! Tive sorte, dizem-me os acompanhantes: chá verde evita infecções - e morte. Mas, e o som - nítido - da tua voz sussurrando coisas ao interfone? (Ah! Que infame!) - como um mar de saudade que deixou o som da sua passagem na concha destas orelhas fechadas. Porém, se ainda nem chegaste, porque me molhas, tempestade?


João A. Pereira

SÚBITO, isto é: de repente, num rompante, inesperado, depois de...

Foto copiada de Paraná Online Tribuna/Esportes - Notícia veiculada em 17/03/2012
 
SÚBITO

O corpo impreciso, o desejo inacabado, a boca num rótulo de mostarda extraforte. Quase meia-noite e as estrelas fogem: para onde vai a luz depois do sol? Viste os olhos com que te olhei naquele amanhecer? Talvez precisasse amadurecer, desverdear mais um pouco, voltar ao liquidificador, amolecer os dentes, criar vento. Talvez precisasse de tanta coisa que não tinha e das quais não sentia falta. Mas quando vejo a calçada passando sob meus pés, cada vez mais rápido, me assusto: corro de ou corro para: a vontade inexata não mexe um músculo.

João A. Pereira

MADRUGADA ÀS GANHA!...



Fonte desconhecida. Autor desconhecido.
Copiada do site http://www.teclasap.com.br/madrugada/

 PAISAGEM DOMÉSTICA

Um par de mágoas caídas, as asas cuidadosamente dobradas, uma frustração mal dormida sob uma pilha de esquecimentos. Um travesseiro azul celeste convidativo se espreguiça ao sol: rom-rondando sonhos. A janela aberta por onde entra a brisa e escapa o pensamento. Intercomunicador quebrado, combustível zerado, leme partido: perdido no espaço de trinta metros quadrados: “Num sei doncotô; num sei proncovô”. O apartamento sobe vertiginoso: primeiro sol, segundo sol, terceiro sol - um buraco negro. É agora, meu amor - nesta dobra!

João A. Pereira

sábado, 12 de dezembro de 2015

ENTRE


Eu não sabia se ria ou pulava. Teu olhar concentrado era todo desatenção. "No escuro, os pensamentos ficam mais claros e os olhos falam mais alto.", pensei. Mas você ficava ali, na minha frente, com aquele olhar de amostra grátis. Quando eu rir, me empurra.

João A. Pereira

PENSAMUITOS 12

Um prisioneiro de guerra iraquiano conforta seu filho de 4 anos de idade em um centro de reagrupamento de prisioneiros de guerra , no Iraque,  31 de março de 2003. Fonte: https://historiadoframe.wordpress.com/2009/12/20/guerra-iraque/


A indiferença do sol  ao que nos acontece é divinamente clara.

(João A. Pereira)
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