sábado, 25 de julho de 2015

UM CONTO para o Dia do Escritor

Imagem retirada da Revista Espaço Aberto, nº 170 - USP
AS PROPRIEDADES FÍSICAS DA ALMA

Encontro às 13h35. Despedida às 17h58. Conversamos todo o sol da tarde. Depois, demo-nos tchau com as mãos nos bolsos. Entrar em casa foi como encontrar um oásis onde miragens multiplicavam-se: sobre o sofá, como que largados ao acaso, um raio de sol, uma onda, uma estrada, um avião, uma igreja. Sobre a mesa, uma porção de esperança misturada com sorrisos desencontrados. Desabada numa cadeira, a vida: arfante! - “Como consegui chegar até aqui?”. E, nas paredes, o silêncio fazia sombras esquisitas e de formas pouco definidas, mas que eu sabia bem interpretar.
Amigos às 23h03, risadas até a 0h11, sono a 1h07, trabalho às 9h em ponto. A rotina, às vezes, salva dos sobressaltos: uma bóia para não mergulhar no espaço vazio de dentro.
Ônibus às 7h38, ponto às 9h em ponto. Descontados os telefonemas de pessoas com nervos a flor da pele, o dia pode ser percorrido com tranqüilidade. Um engarrafamento aqui, outro ali, provocados por insights que fazem doer as mãos e as mágoas. Fora isso, dia comum. Viver é fluir. Ir com a correnteza. Pobres das pedras, porque não se movem: assistem a tudo, são atingidas pelos respingos da água agitada, mas não se envolvem. Ficam ali – para sempre – à margem. Eu não, eu fluo: nado a favor e contra – tenho febres de esquecimento: nunca mais voltarei a ser.
Reunião às 9h32, visita às 11h04, almoço à 12h17. Mastigação difícil: engulo cada grão de arroz como quem engole uma frase. Recuso a salada de estrelas, luas, rios, passeios, alface, cebola e tomate. Antes, eu contava as horas pelas demoras; agora, conto-as pelos segundos. O café chega quente como um olhar desviado para o prato onde a comida servida ainda espera por um garfo salvador: “Você tem fome de quê?”. Chega a dar aflição a fumaça do cigarro subindo, desenhando plátanos e andorinhas no céu, e provocando um gosto amargo nos olhos. A luz do sol cai com uma força incomum sobre a calçada. O calor espalha-se com vigor pelo corpo. E eu vou sentindo um frio que me aquece.
Caminhar nove minutos, por três sóis e tres sombras, ponto às 13h30 em ponto. O eterno retorno dos muito ocupados. Tempo é dinheiro. E eu tenho muito pouco dos dois.
Telefonar ás 14h03, visitar às 14h38, banco às 15h44, cartório às 16h37. Não sei qual o melhor retrato da vida: se esta pilha de papel na pasta, ou aquela outra pilha de papel fotográfico na gaveta do roupeiro. Quase sempre esqueço as duas, entre uma e outra risada, à mesa, na memória; entre um e outro brinde por não sei o que, ou quem: tenho calafrios de esquecimento. E medo de perder para sempre o que não tenho. Acho que meu apego a alguns dias perdidos no tempo deve-se ao outono. Nunca fui muito bom com a leitura das estações. Hoje, porém, leio as ranhuras das folhas que caem das árvores como se tivesse sido um vegetal minha vida toda, como se meus olhos fossem verdes e eu tivesse duzentos anos.
Ponto às 18h em ponto, ônibus às 18h23, casa às 19h39. Encontro as miragens fora de controle: falam alto, bebem, cantam, dançam, choram, gritam, riem – tenho alucinações com abraços. Deito sobre a grama, na sala. Perto de mim, um canteiro de amores-perfeitos balança suavemente, bafejado por uma brisa morna que acalma e faz dormir. Noite-rede imbalança, imbalança, imbalançá. Tenho tremores de saudade. Quem sair primeiro, apaga a luz.

João Antônio Pereira


Porto Alegre, 21 de junho de 2015.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Prezado visitante, seja bem-vindo. Os comentários aqui postados não são moderados, por isso, conto com a sua moderação.

Plugin Artigos Relacionados para WordPress, Blogger, ...