segunda-feira, 27 de julho de 2015

LÁGRIMAS AO VENTO (Música de 5INCO)

5inco - 60ª Feira do Livro de Porto Alegre - Tenda de Pasárgada - 03/11/2014


LÁGRIMAS AO VENTO
(Letra e música de 5inco)

Deixo as lágrimas secando
ao sabor do vento.
Para que se soltem, voem
ao seu movimento.

E percam-se nos dias,
no esquecimento:
as horas vazias, cheias
de vazios momentos.

Deixo a alma ao sol,
estendida ao relento.
Para que ressequem seus
inúteis lamentos.

E percam-se nos dias,
no esquecimento:
as palavras ditas - a sós,
em pensamento.

Deixo a porta aberta aos sonhos
que se vão com o tempo.
Contemplo o vazio que aumenta
mais e mais, por dentro.

E sem outro carinho
que não o silêncio,
embalo o amor, sozinho,
feito em frio, em falta, em vento.

*5inco é o pseudônimo usado pelo compositor João Antônio Pereira


sábado, 25 de julho de 2015

PERDEU? DÁ O PLAY, BOY!

ÔSheuJoão (um Osho duro de roer)
Hoje, não sei por que, me deu de pensar na perda. Não na perda em si, mas em como vivenciamos as perdas que temos ao longo da vida (e são tantas! E inevitáveis.).
Há momentos em que nos agarramos à perda, não deixamos mais que ela se vá. Ficamos tão envolvidos com ela, que não conseguimos pensar em outra coisa. E, assim, perdemos e re-perdemos cotidianamente. Não conseguimos vislumbrar a vida sem o que foi perdido. A todo o momento lembramos: onde estará? lembrará de mim? estará pensando em mim? o que estará fazendo? o que estará sentindo? será que está bem? não precisará de mim?
E vamos em frente, revivendo e tresvivendo o que perdemos, sem permitir que realmente vá embora, que cumpra o seu destino, que busque a sua jornada.
Não pensamos no que ficou da perda, no que restou, na porção viva da perda. Pensamos apenas no que morreu. E vivemos como quem morre um pouco a cada dia. Todos os dias. Pois não queremos esquecer o que foi perdido. Temos medo de perder, com o esquecimento, parte de nós mesmos. Por isso, trazemos para diante de nós a perda para que a possamos perder novamente, para que a possamos sentir, novamente - e novamente perdê-la.
No fim das contas, tiramo-nos as chances de reinventar a vida, a caminhada, de vivenciar o que restou. A vida é ampla demais para ficar contida no passado. Retirar de si, ou do outro, a chance de futuro, é uma grande maldade.
Perder não pode significar escravizar-se ao que se foi, ao que significou. Perder não pode ser um sacerdócio, um culto ao ido, uma promessa de fidelidade eterna ao que foi perdido - Ó, daqui para a frente, nunca mais abandonar-te-ei!
Não falo em não sentir, falo em não deixar-se ir junto com o que se foi. Ou deixar-se permanecer junto com o que se deixou. Ou levar para sempre, como presença onipresente, o que foi ou o que ficou.
Perder deve significar incorporar o que restou. Pois, como alguém já disse: "De tudo fica um pouco" (...). E, se fica, é porque, realmente, teve-se algo para perder.
Do contrário, nada foi perdido.

E há momentos, também, que NÓS não permitimos que nos percam. E ficamos a todo momento lembrando a quem nos perdeu: estou aqui, oi, tudo bem? vais vir? quando vens me rever? estou com saudade, vamos nos encontrar? posso ir aí? etc etc etc

Mas esta reflexão fica para uma outra conversa.

ÔSheuJoão

UM CONTO para o Dia do Escritor

Imagem retirada da Revista Espaço Aberto, nº 170 - USP
AS PROPRIEDADES FÍSICAS DA ALMA

Encontro às 13h35. Despedida às 17h58. Conversamos todo o sol da tarde. Depois, demo-nos tchau com as mãos nos bolsos. Entrar em casa foi como encontrar um oásis onde miragens multiplicavam-se: sobre o sofá, como que largados ao acaso, um raio de sol, uma onda, uma estrada, um avião, uma igreja. Sobre a mesa, uma porção de esperança misturada com sorrisos desencontrados. Desabada numa cadeira, a vida: arfante! - “Como consegui chegar até aqui?”. E, nas paredes, o silêncio fazia sombras esquisitas e de formas pouco definidas, mas que eu sabia bem interpretar.
Amigos às 23h03, risadas até a 0h11, sono a 1h07, trabalho às 9h em ponto. A rotina, às vezes, salva dos sobressaltos: uma bóia para não mergulhar no espaço vazio de dentro.
Ônibus às 7h38, ponto às 9h em ponto. Descontados os telefonemas de pessoas com nervos a flor da pele, o dia pode ser percorrido com tranqüilidade. Um engarrafamento aqui, outro ali, provocados por insights que fazem doer as mãos e as mágoas. Fora isso, dia comum. Viver é fluir. Ir com a correnteza. Pobres das pedras, porque não se movem: assistem a tudo, são atingidas pelos respingos da água agitada, mas não se envolvem. Ficam ali – para sempre – à margem. Eu não, eu fluo: nado a favor e contra – tenho febres de esquecimento: nunca mais voltarei a ser.
Reunião às 9h32, visita às 11h04, almoço à 12h17. Mastigação difícil: engulo cada grão de arroz como quem engole uma frase. Recuso a salada de estrelas, luas, rios, passeios, alface, cebola e tomate. Antes, eu contava as horas pelas demoras; agora, conto-as pelos segundos. O café chega quente como um olhar desviado para o prato onde a comida servida ainda espera por um garfo salvador: “Você tem fome de quê?”. Chega a dar aflição a fumaça do cigarro subindo, desenhando plátanos e andorinhas no céu, e provocando um gosto amargo nos olhos. A luz do sol cai com uma força incomum sobre a calçada. O calor espalha-se com vigor pelo corpo. E eu vou sentindo um frio que me aquece.
Caminhar nove minutos, por três sóis e tres sombras, ponto às 13h30 em ponto. O eterno retorno dos muito ocupados. Tempo é dinheiro. E eu tenho muito pouco dos dois.
Telefonar ás 14h03, visitar às 14h38, banco às 15h44, cartório às 16h37. Não sei qual o melhor retrato da vida: se esta pilha de papel na pasta, ou aquela outra pilha de papel fotográfico na gaveta do roupeiro. Quase sempre esqueço as duas, entre uma e outra risada, à mesa, na memória; entre um e outro brinde por não sei o que, ou quem: tenho calafrios de esquecimento. E medo de perder para sempre o que não tenho. Acho que meu apego a alguns dias perdidos no tempo deve-se ao outono. Nunca fui muito bom com a leitura das estações. Hoje, porém, leio as ranhuras das folhas que caem das árvores como se tivesse sido um vegetal minha vida toda, como se meus olhos fossem verdes e eu tivesse duzentos anos.
Ponto às 18h em ponto, ônibus às 18h23, casa às 19h39. Encontro as miragens fora de controle: falam alto, bebem, cantam, dançam, choram, gritam, riem – tenho alucinações com abraços. Deito sobre a grama, na sala. Perto de mim, um canteiro de amores-perfeitos balança suavemente, bafejado por uma brisa morna que acalma e faz dormir. Noite-rede imbalança, imbalança, imbalançá. Tenho tremores de saudade. Quem sair primeiro, apaga a luz.

João Antônio Pereira


Porto Alegre, 21 de junho de 2015.

ERA ASSIM - Um poema que escrevi em 1980!

ERA ASSIM

Um vento passa ventando uma ventania minuana.
- Não, não é o Minuano. Agora temos o Húngaro!
E o vento passa uivvvvvvvvvvannndo pelas ruas.
Porto Alegre treme.

Encarangados, os escritorianos pisoteiam calçadas e semelhantes.
Táxis,
Ônibus,
Lotações,
Carros...

Multiplicam-se sons tlec-tlec-tlequianos de dentes batendo.
- E os mendigos?
- Quens?
- Os mendigos!
- Ah, que se danem!

Cambalísticamente o sol penetra na muralha de fumaça
fortemente guardada por fábricas de todos os tipos e nações.

Madrigal,
              Mediterrâneo,
                         Gruta Azul,
                                    Star Club,
                                               Cabaret
Noites portenhas!

Gemidos...
              Beijos...
                         Mais! Mais!...
                                    Oh, God!...
                                               YES! YES! YES!...
- Quanto é?
- Quinze mil Cruzeiros a hora, fora o quarto.
- Quinze mil?! Bah, mas assim eu vou à falência!

Domingo:
O coreto na praça – não há mais.
Passeio no centro, à noite – não dá mais.

Segunda-Terça-Quarta-Quinta-Sexta-Sábado: Velozcidade!

Os olhos girangirando no círculo vicioso.
Oh, calor portoalegrinal!
Madamas balofofas balofocam balofocas balofas.

O motorista,
a copeira,
a cozinheira,
a camareira,
o mordomo
e o assassino
tomam café em silêncio.

Processos prolixos são flagrados espancando um dicionário:
- É a Lei!

Guaíba:
Proibido tomar banho.
                            Água poluída.
                                               Saída de Esgoto.
                                                          Cadáver a 500 metros.

Volta do Mercado:
              Olha a maçã! 50 cruzeirinhos!
              Olha a pera! 70 cruzeirinhos!
              Olha a uva! 40 cruzeirinhos!
              Olha a couve!
              Olha a laranja!
              Olha a alface!

E a gente, ali, olhando...

              Olha a Polícia!
A gente faz de conta que não viu nada.

E sai, de fininho, assoviando.

Autista Baptista
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