quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

AMANTES SEPARADOS



Renata Pallottini*
(Texto publicado originalmente na revista Caros Amigos, ano 1, número 9, pg 8, dezembro de 1997)

Tenho pena demais de amantes separados: talvez não haja maior desconsolo que o de gente que se ama e não pode tocar-se, pessoas feitas para estarem juntas, no convívio comum de que desfrutam todos, inclusive os que querem separar-se... Pessoas divididas pelos mares, pelas montanhas, quem sabe por destinos, a quem podem culpar de sua sorte? Os destinos se mudam, que os destinos foram feitos de fé pra ser mudados...
Claro que existem dores bem maiores, sofrimentos de menos esperanças. A morte, por exemplo, é de uma vez e essa vez é pra sempre e sempre é muito tempo. Também a dor da vida indefinida, da vida opaca sem seus sobressaltos (sustos são necessários para a vida), também a vida rasa me comove.
Mas ter de amar de longe, imaginando, redesenhar o rosto desejado, esculpir numa noite um corpo ausente é praga de algum deus desatinado. Essa conta não pode ser devida, de modo algum se pode ser cobrado dessa parcela de desgarramento.
Amantes separados se alimentam das palavras trocadas a distância; quando comem dos mesmos alimentos que nós, mortais comuns, comemos, se ressentem: "Será que o meu amor está comendo? Terá de que comer? E terá fome?"
O amante separado é obsessivo; fala sempre no amor, repete gestos, canta pra lua, da água a passarinho, come das frutas verdes sem notar, é bobo às vezes porém não se importa.
Amantes separados, por etapas, são ciumentos, ardentes, possessivos, calmos, cheios de força e de confiança; sabem que o tempo rompe as últimas costuras da alma. No entretanto jogam todas as fichas - fossem de ouro! - na circunstância desse amor palpável.
São incomodativos os amantes! Não falam mais que  nisso, são ridículos (disse o poeta), são até maníacos, doentes de neurose e mal de siso - não fosse o amor a única saúde. Ademais, dão constância dessa força aos que já se esqueceram; aos que outrora atravessavam noites conversando pela vã descoberta de um liame, de um reconhecimento, coincidente, daquilo que nos une e identifica.
Eles pedem, amantes separados: pedem compreensão, ternura, tempo. Pedem que se tolere sua febre: mas a febre acrescenta a inflamação que há séculos progride nos espaços e os torna cada dia mais ardentes. A febre aumenta a sede e o desespero, febre pede água doce; e a água doce de todos os amantes é amar-se.
Mas também dão: uma alegria estulta, afastada de toda a realidade, que resulta de cartas, de mensagens, de sonhos, telefones, miragens.
Amantes separados se adivinham; é certa a transmissão de pensamentos. Para eles se inventou o toque de tambores, recados com fumaça e os pombos-correios, e afinal as mensagens nas garrafas. Amantes clandestinos separados (doce variação do primeiro gênero), esses, então, sabem dizer-se coisas raras, nos perfumes que embebem os casacos dos amigos comuns que os visitaram.
Mas os amantes são bem delicados; jamais molestariam com seus segredos os solitários, viúvos, desprezados, avulsos, clérigos, celibatários, os enganados de qualquer espécie e os que, por convicção, são refratários aos enigmas do amor. O seu respeito atinge as velhas funcionárias, as moças tristes e os resignados.
Nenhum amante, estando separado e se merece o nome, é capaz de aceitar mover-se ao sexo no facilitário. Nem promíscuo será, nem vulgar no seu trato ao corpo designado. Seletivo, prefere as fotos amassadas, as fitas do Bomfim nas antenas dos carros, sapatos conservados por acaso, guardanapos do último suflê, tão caro... Enfim, esses fetiches inocentes farão de suas noites a indecência violenta que tem todo amor que se preza.
É grato conversar com um dos amantes; ele vai devolver-te a fé perdida numa felicidade absurda e improvável, que defende com pobres argumentos. Suas palavras não pretendem nada, ele está convencido e jogaria a vida nessa hipótese límpida e dourada que para ti não vale o negror das palavras. O amante não precisa do teu crédito pois que ele não duvida; tu não crês, o amante te irrita, te provoca a reveres o amor daquele tempo em que tapavas com teu guarda-chuva a menina feiosa que te amava, e que um dia beijaste, mocidade.
Os amantes que hoje estão distantes, qualquer dia, qualquer, hão de juntar-se. Por que não? Se o amor é força braba por que os conservaria Afrodite afastados?
Hão de juntar-se rebelando os mares, afastando dos céus as nuvens, nas viagens, mudando a seu prazer fusos horários, desviando aviões, até que finalmente - amantes no seu gáudio - hão de estar juntos.
Para sorrir sem fim um ao outro felizes...
Para o final sossego dos amigos...

*Nascida em São Paulo, em 20 de janeiro de 1931, cursou Direito, Filosofia e Dramaturgia. Escreveu e produziu trabalhos para teatro e televisão, entre os quais Vila Sésamo, Malu Mulher e Joana. Publicou livros de poesia, prosa, teatro e ensaios. Foi professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e da Escola de Arte Dramática (EAD) da Universidade de São Paulo, além de ministrar cursos de dramaturgia no Brasil e no exterior. Desde 1988 faz parte do corpo docente da Escuela Internacional de Cine y Television de San Antonio de los Baños, em Cuba. Coordenou e participou da Anthologie de la poésie brésilienne, publicada em Paris, em 1998, e que reuniu quatro séculos de literatura brasileira. No mesmo ano, integrou o júri do Prêmio "Casa de las Américas", em Cuba. Vive em São Paulo e às vezes em Atibaia.



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