quinta-feira, 25 de julho de 2013

NO TEMPO EM QUE O AMOR NÃO PASSA - POESIA



Envolto em fumaça, tusso
ao caminhão que passa
sobre a calçada e mata
de morte matada a graça
de eu-criança brincando
com a lembrança
do meu pai que abraça
a minha mãe e dança
e fala de um tempo
onde o amor não passa 
e o vento soprando
esvoaça um sonho
que eu tinha ontem
- hoje eu tenho pressa
e medo desta casa onde
moro com as minhas coisas
e uma antiga carta
com um frase curta
nem texto ou poema
- quase uma nota -
e quase meio tonto
leio e danço e rio e acho graça:
“Vem dançar comigo,
eu te amo tanto,
o tempo não passa.”

Sem pensar nem penso

no tempo que o tempo
levou para longe
por cima da casa
que agora se abre
como um par de asas
por cima da tarde
e leva o peso da lembrança
que não pesa nada
É como eu-criança
sobre a calçada, onde te esperava
tonto de alegria
de cara suja e coração na boca
e na mão a carta
que escrevi há tempos
- quase uma nota -
onde eu dizia
quase meio tanso
quase até sem graça:
“Vem dançar comigo,
eu te amo tanto
desde aquele tempo
quando o amor não passa.”


Autista Baptista

sexta-feira, 5 de julho de 2013

PRECE DA LUA VAGA - POESIA



Quando andas
sobre as ondas,
espiam-te os peixes
sob as águas
e nadam à tua sombra:
                                       vês como te olham?

Quando vestes
tuas contas
e cantas
como as sereias
e deitas sobre a areia
teus olhos vagos:
                                      vês como te encantam?

Enquanto passas,
vês aquele menino,
sentado à beira d'água,
com um gravetinho, escrevendo
pensamentos de criança
na tua luz, nas estrelas,
nos peixes, nas vagas?

Ele ainda não sabe,
mas bem se vê que é poeta.

                                    Então não faça o menino chorar!


Pero Vás

quinta-feira, 4 de julho de 2013

DESINFARTO - POESIA


Desinfartei!
Disse-te não pela primeira vez.
E pela última palavra
que insististe em não dizer.
Bebo ébrio meu hemisfério
- o esquerdo -
- aquele que não sabes -
e aos tropeços chego à outra margem
- a direita -
mas com tudo dito:
de mim para ti.
Tudo escrito e cabido numa linha.
Tudo!
Do início ao fim.
Viste como era pouco?
Eu te disse tantas e tantas vezes
que era muito muito pouco
o que eu tinha
para te pedir.

Desinfartei!
Implodi as pinguelas de safena
que ligavam o teu principício ao meu.
Olhei teu chá e tuas luvas
sobre a mesa
- nem toquei -
só olhei a cena irretocável
e asséptica que me lembra
e suja a memória:
- aquelas luvas que usavas
quando precisavas tocar em mim -
- as luvas que arranhavam
o meu coração! -
Nem percebias a dor que me dava
o chá vagarosamente bebido
como amor sem açúcar!
- Teu ritual de solidão...

Desinfartei!
Saio de ti de mãos caladas
e vazias,
tal qual tua boca e as palavras
- poucas - que dizias.

Veste tua luva, toma teu chá:
te quero bem.
.
.
.
Coração forro!
Amor canino!

- Agora vai!

Pero Vás
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