sexta-feira, 28 de junho de 2013

MANIFESTOS SÃO...



Mais uma manifestação, mais uma confusão. Desta vez, ficou mais ou menos claro o que vem sendo denunciado há tempo pelos que querem manifestar o seu descontentamento com o estado atual do Brasil, sem destruí-lo: há muitos que comparecem às manifestações não para protestar, mas para qualquer outra coisa que não tem nada a ver com mudanças necessárias para melhorar o país. Pode ser para "melhorar" a própria vida (ou para piorar a vida alheia). Além disso: nada.
As perguntas que permanecem são: quem são? De onde vêm? Por que vêm? Para onde voltam?
As respostas (muito mais palpites, do que afirmações comprovadas) podem ser muitas.
Podemos falar em pessoas contratadas por partidos políticos interessados em criar um clima de desestabilização com vistas às eleições de 2014.
Podemos falar em pessoas contratadas por empresas interessadas em vingarem-se por estarem sendo deixadas à margem (ou por terem sido alijadas, em benefício de outras) da distribuição do dinheiro público, conforme o ramo de atuação.
Podemos falar em movimentos sociais organizados, como os neonazistas.
Podemos falar em movimentos sociais semi-organizados, como os "bondes", onde jovens de comunidades que sofrem exclusão social, reúnem-se para enfrentar "a burguesia" agredindo-a, da mesma forma como sentem-se agredidos (sobre isto, relato, mais adiante, um acontecimento pessoal, que me leva a tal conclusão).
Podemos falar em grupos de criminosos sem qualquer organização que reúnem-se para cometerem pequenos delitos contra pessoas, já que, se o fizessem sozinhos, talvez não tivessem sucesso (ou coragem).
Podemos falar em grupos de criminosos semi-organizados, mas ambiciosos, que desejam aproveitar-se da confusão para cometer assaltos mais ousados a estabelecimentos comerciais.
Podemos falar em pessoas de índole violenta que apoiam qualquer ação que envolva destruição seja lá do que for, desde que alguém saia prejudicado e/ou ferido.
Podemos falar muita coisa, imaginar muita coisa, "hipopotiquizar" muita coisa, mas, afirmar, sem medo de errar, ainda não.
Entretanto, não podemos esquecer que, sejam quem forem esses (de quem falamos), são produtos de nossa própria desorganização social. Da desorganização que nos levou a fazer com que seres humanos ficassem "justificadamente" do lado de fora da festa. Que seres humanos recebessem atendimento precário para suas necessidades de alimentação, saúde, educação, saneamento básico, lazer, trabalho, habitação. Não são feras criadas espontaneamente, como sub-produto de governanças irresponsáveis e aproveitadoras, apenas; mas, também, por nossa indiferença, por nosso egoísmo, por nossas demasiadas concessões a governantes despreparados, deixando tudo em suas mãos, lavando as nossas das responsabilidades a que todos somos cometidos, como cidadãos. Se vivemos em "sociedade", precisamos comportarmo-nos como uma "sociedade". Todos devem ser beneficiários do progresso geral - e não somente alguns (não importando se esse "alguns" representa a maioria, a minoria ou a média da população) - e todos devem ser comprometidos com a manutenção e o aperfeiçoamento desse progresso.
Com relação ao sentimento de revolta diante da exclusão, passei, certa vez, por uma situação que me fez entender muito claramente sua existência e sua base. Na época, morava no bairro Espírito Santo e usava a linha Juca Batista para vir ao centro e para voltar para casa. Certa ocasião, diante do fato de todos os ônibus que passavam estarem lotados, optei por pegar um da linha Restinga-Tristeza. Quando entrei no coletivo, na frente do prédio do IPE, na Borges de Medeiros, estava praticamente vazio. Era um ônibus articulado e sentei-me no último banco, no fundo, próximo da porta de saída. Começou a lotar quando passamos pelo Praia de Belas, depois pelo Barra e, finalmente, pelo BIG. Os passageiros eram, em sua maioria, trabalhadores e estudantes. Porém, era notório como todos (ou quase todos) se conheciam, pela maneira como se cumprimentavam e conversavam.
Estando o ônibus lotado, alguns passageiros começaram a gritar para o motorista: "Agora não sobe nem desce mais ninguém! Toca direto pra Tinga, motora!". Os únicos "estranhos" éramos eu e outro senhor, sentado mais a frente de onde eu estava.
Ao longo do trajeto, toda a vez que passava algum ônibus de uma linha que não fosse para a Restinga, muitos passageiros botavam a cara na janela e gritavam para os passageiros dos outros ônibus, chamando-os de "burgueses" e outros adjetivos menos citáveis. Em especial quando fosse um ônibus da linha Juca Batista (a que eu costumava pegar). Confesso que fiquei bastante surpreso, pois, conhecedor de algumas pessoas que viajavam costumeiramente comigo, sabia que de "burgueses" não tínhamos nada. Mas, para aquelas pessoas, para o imaginário delas, éramos "burgueses", sim.
Quando o senhor que, como eu, não ia até a Restinga, resolveu descer, foi impedido pelas pessoas que estavam próximas ao lugar onde estava sentado e só foi "liberado" quatro paradas depois daquela que intencionava descer. Pensei no que aconteceria quando chegasse a minha vez. Por sorte, percebi uma moça passando mal por causa da lotação e ofereci o lugar a ela. Quando chegou próximo da minha parada, dei o sinal e uma parte da galera chiou, mas, os que estavam perto de mim e viram a cena, disseram para os que impediam a saída, postados na frente da porta de desembarque, para que me deixassem sair "numa boa", pois tinha sido gentil com a moça, isto é, com uma pessoa pertencente à "comunidade" deles.
Por isso, considero justificado pensarmos que não há apenas interesses escusos comandando as confusões que já se tornaram rotineiras a cada manifestação. Também é necessário considerarmos que há a participação de uma parte da sociedade que temos (nós, sociedade), inadvertida ou propositadamente, excluído da oportunidade de terem uma vida digna e com as mesmas chances de benesses concedidas àqueles que pertencem às classes média e alta. Nas benesses a que me refiro, incluo também o lazer, pois, algumas vezes, noto que algumas pessoas incomodam-se com a presença de outras que não têm os "bons modos" esperados para os freqüentadores de determinado local. E isso é percebido. Isso é deglutido. O gosto amargo do desprezo vai temperando a revolta. Um belo dia, dá nisso que estamos vendo (isto é hipótese! HIPOPOTIQUISMO!).
Pensemos, amigos, pensemos. Não são apenas "eles" (os governantes) que precisam mudar. Pode ser nós, também.
E tenho pensado!

P.S: Gostaria de deixar minha contribuição para os passos seguintes às manifestações.
Será que não seria oportuno que a OAB, por intermédio de suas diversas seccionais, convidasse os movimentos reivindicatórios para que se analisasse o que estão propondo e avaliar o que, de tudo o que se exige (direito não se pede, se exige!), já está contemplado em lei e a lei não é cumprida; o que está parcialmente contemplado e precisa ser agregado à legislação; o que está contemplado, mas é contrário ao que se quer, e precisa ser alterado ou extinto; e o que não está contemplado e precisa ser criada legislação que garanta tais requerimentos?
Algumas vezes deparamo-nos com iniciativas bem intencionadas de propostas de leis que, no entanto, pecam pela precariedade no fundamento jurídico, pela maneira como são formuladas, e pela estrutura desarrumada que termina por torná-las mais confusas do que esclarecedoras. Prenúncio de muitas encrencas mais adiante, pois uma lei frágil é facilmente burlável.
E tenho sugerido!

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