domingo, 26 de maio de 2013

CONTO - ENSAIO SOBRE A CULPA (REVISTO E AMPLIADO)


ENSAIO SOBRE A CULPA

Sim, sabia-se que, se continuássemos a expelir tanta fumaça tóxica, um dia o ar tornaria-se tão irrespirável que a vida na terra seria impossível: mas, escolheu-se continuar. E, agora, não há como reparar o mal feito.

Sim, sabia-se que, se extingüíssemos alguma espécie viva, animal ou vegetal, comprometeríamos irremediavelmente o delicado equilíbrio que há entre os seres que habitam este planeta, sendo um responsável pela vida e pela morte do outro, de forma que nem um, nem outro, se tornasse praga predatória para os demais: mas, escolheu-se extingüir. E, assim, continuamos a dar cabo de outros seres vivos, de maneira irrecuperável.

Sim, sabia-se que, se continuássemos produzindo lixo indeteriorável, um dia não teríamos mais onde depositá-lo sem comprometer nossa saúde. Mas, escolheu-se continuar. E, assim, produzimos lixo e mais lixo, e não sabemos mais o que fazer com ele. E ainda sentimos a necessidade de produzir mais.

Mas remediamos o mal com um tolerável e compreensível sentimento mal sentido de culpa. Pois, nos fim das contas, precisamos produzir; precisamos suprir nossas necessidades; precisamos viver!

...

Juliano olhava pela janela como se olhasse através de uma fenda aberta no tempo. Do sétimo andar, observa a praça em frente: as crianças brincando, homens e mulheres conversando - pais, mães e filhos compartilhando o mesmo espaço. Embalando-se no balanço está Julinho, seu filho. Um menino esguio, de sorriso fácil, gostado por todos, muito esperto: a vida jorra em forma de luz daqueles olhinhos pretos como a jabuticaba.

Acompanhar as brincadeiras do filho é uma das diversões preferidas de Juliano. Sente que a vida ganha significado a cada progresso que observa no menino: as soluções que arranja para enfrentar e vencer desafios, a vontade e a coragem para enfrentar e vencer desafios: sintomas da presença de uma inquestionável inteligência. Se alguém perguntasse a ele, agora, qual o sentido da vida, não exitaria em responder: o sentido da vida é gerar e amar um filho. E acompanhá-lo em seu crescimento. A vida sem um filho não é nada. É só um imenso vazio sem significado.

Às vezes, como agora, lembra de si mesmo, quando também era criança. Se não é uma memória perfeita, sente que, se ele não era assim como o seu guri é, era muito parecido.

Julinho voa seguro diante do olhar embevecido do pai, de um brinquedo para o outro: sabe que é amado e isso o faz sentir-se feliz. Para demonstrar a felicidade que sente dentro de si, faz como está fazendo neste exato momento: corre para o pai e abraça-o com força, beija-lhe o rosto e diz: “Eu te amo”.

Chega a ser emocionante ver os dois, pai e filho, com o rosto iluminado pelo amor mútuo.

Juliano tosse, enxuga algumas lágrimas que escorrem pelo rosto. O pigarro provocado pelo cigarro incomoda-o. Agora deu pra isso. Não lembra exatamente quando começou a fumar, mas pensa que não deveria nem ter começado. Agora, todas as manhãs, ao acordar, tosse de quase botar os bofes pra fora. Sente-se mais cansado, sem forças, com pouca resistência. Mas o cigarro faz-lhe companhia, o cigarro atenua a dor, o cigarro ajuda-o a pensar. E é exatamente isso o que Juliano mais precisa: pensar.

Pensar que sua vida poderia ser, agora, completamente diferente. Pensar nas possibilidades de uma outra vida. Se não tivesse feito as escolhas que fez. Se tivesse escolhido de maneira diferente. Se, ao invés disso, tivesse feito aquilo. Diferente de um texto que, quando se muda de idéia, ainda é possível voltar e reescrevê-lo, a vida não permite a reescrita: não há como desfazer o feito. E, pelo encadeamento que as coisas da vida têm, um elo está irremediavelmente preso ao outro. Não é possível romper com os elos do passado. E, também, depois que um elo do presente é fechado, não será mais possível tornar a abri-lo para prendê-lo a outro. Na vida, há, apenas, o arrependimento, não o conserto. E Juliano tem consciência disso. Sabe que a cada segundo vivido estamos fechando elos. E sabe que tudo é irremediável.
Isto o atormenta. Tanto que, depois de tossir mais algumas vezes, resolve fechar a janela e a fenda no tempo e descer para o pátio. Talvez isso faça-lhe bem.

Apanha a garrafa térmica e a cuia com erva, já preparadas, colocadas sobre a mesa da sala, e sai. A manhã é agradável: nem quente, nem fria: uma típica manhã de outono: “O outono é a melhor estação do ano em Porto Alegre”, pensa.

Abre a porta e sai.

...

Lembrar: é o que Teresa mais faz: lembrar. O olhar parado no horizonte, longe, perdido em algum ponto da lagoa que flui mansamente pelos fundos do terreno da casa onde mora com a mãe, em Arambaré. Tudo é lembrança, tudo é vida que passou, tudo é vida que não se renova, que não volta. Tudo é irrepetível.

Vê-se braba! Braba, não: furiosa! Ou, até, muito mais do que isso. Caminha a passos rápidos pela calçada. Sente que toda a vida vivida até aqui perdeu o significado. Sente-se enganada, humilhada, mutilada. Pergunta-se repetidas vezes: “Por quê? Por quê? Por que fazer isso comigo? Por quê?”.

Por dentro é como se todos os sonhos, todas as certezas, todas as esperanças, de repente, desaparecessem. Sente-se vazia, a vida sem sentido.

Vê-se entrando em casa, batendo a porta com estrondo. Ao chegar na sala, atirar a bolsa sobre o sofá e dirigir-se, decidida, ao quarto que compartilha com o marido.

Vê-o dormindo com o filho deitado ao lado, no lugar que seria o dela. Resolve voltar à sala. Abre a bolsa e retira um envelope. É um envelope cor-de-rosa, perfumado, com uma boca entreaberta, pintada com batom vermelho, carimbada na face da frente.
Sente vontade de rasgar aquele envelope, de jogá-lo fora, mas a raiva, a destruição provocada pelo bilhete que está dentro daquele envelope, impede-a de fazer o que gostaria. Teresa chora, soluça. Quer gritar: gritar com toda a força para ver se a dor que está sentindo sai toda, junto com o grito.

Vê o marido e o filho aparecerem à entrada da sala: estão atônitos. Olham para ela entre assustados e surpresos. O menino corre em sua direção e a abraça: “O que foi, mãe?”. Juliano, ao ver o envelope que ela segura na mão, compreende imediatamente. Escora-se na parede do corredor e passa a mão sobre o rosto. Tenta pensar no que vai dizer: as palavras fogem-lhe ao raciocínio. Tenta falar algo com o olhar, algo como: desculpe, por favor, me desculpe. Mas os olhos de Teresa estão cegos. Cegos pelas lágrimas, pelo corte, pela mutilação.

A vontade íntima que sente é de provocar no marido a mesma dor que está sentindo. De fazê-lo sofrer tanto quanto está sofrendo. Entende que essa seria a única maneira de mostrar a ele o quanto está ferida. Mas fazê-lo sofrer como? O que poderia machucá-lo tanto? Súbito, seu olhar se modifica, escurece. Um sorriso (ou seria um esgar?) aparece-lhe no rosto - parece transfigurada: ela sabe.

Agora, olhando para o infinito da lagoa, Teresa lembra. Lembra do desabafo, lembra do impulso, lembra dos gritos, lembra do silêncio: o silêncio do durante, o silêncio da raiva, o silêncio do grito.

Lembra de tudo enquanto segura a caneca com café recém passado que a mãe veio alcançar-lhe. Observa os pássaros que passam em bandos sobre a lagoa, quase tocando o espelho d’água. “O que é o amor?”, pergunta-se. E ela mesma responde: “O amor é culpa.”.

Porém, daqui para a frente, este lembrar eterno é a única possibilidade de amor que lhe resta.

...

Julinho não entende. Tem apenas nove anos e o alcance do seu entendimento ainda é muito limitado para desvendar as sutilezas do pensar e do sentir humanos. Tudo o que entende sobre o mundo é: isto é bom, aquilo é ruim; ou: isto é errado, aquilo é certo. Seu cérebro ainda não está preparado para abstrações mais complexas.

Enquanto cai, jogado da sacada do apartamento, pela mãe, pensa que, talvez, tenha feito alguma coisa errada. Por isso é que está sendo castigado. Quando a queda terminar, quando chegar ao chão, irá até a mãe e pedirá desculpa. Como o pai ensinou-lhe a fazer, sempre que fazia algo que não devia. Irá abraçá-la e dizer: “Desculpa, mãe”, e vai ficar tudo bem.

João Antônio Pereira
Outono/2013

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