sexta-feira, 15 de março de 2013

CONSIDERAÇÕES DO PÔNCIO PEREIRA


Mesa de bar.

CENA 1

PRIMEIRA CONSIDERAÇÃO

"As pessoas pertencentes a alguns segmentos sociais, especialmente aquelas da dita 'classe média', e todas as que atuam na mídia, ou que com ela tenham alguma relação, abandonaram o desejo pelo 'status quo' e estão todas ocupadas em tornarem-se 'consumíveis'. A noção de 'objeto de consumo' entranhou-se de tal forma na psiquê dessas pessoas, que foi absorvida  e resignificada, de tal forma que, o que antes era qualidade apenas das coisas, passou a ser, também, dos seres.
Tudo o que se adquire, sejam objetos para uso pessoal, ou informação, ou conhecimento, não serve senão para tornar aquele que adquire essas coisas, mais 'consumível'. A noção de 'aceitação' foi substituída pela de 'consumível'. Até a aparência não tem outra razão que a de tornar mais 'atraente' o indivíduo para ser consumido por um número cada vez maior de pessoas.
Certo dia, enquanto ouvia um programa de rádio, um dos apresentadores, para rebater uma crítica recebida de um ouvinte, pelo twitter, argumentou sobre o atrevimento daquele, pois teria 'apenas 12 seguidores' e ainda achava-se no direito de dizer o que quer que fôsse para ele que tinha 'mais de 4.000'! Que absurdo!
Então é assim: o objetivo almejado por algumas pessoas deixou de ser o glamour, o 'status quo', para tornar-se o desejo de ser 'consumível' pelo maior número de pessoas possível. Quanto mais uma pessoa torna-se 'consumível', mais socialmente sente-se destacada."

Em mesa de bar, assunto é o que não falta. Enquanto tiver cerveja, tem assunto. Acabou a cerveja, acabou o assunto. Pois, bem.
Ontem, encontrei alguns amigos e fomos tomar umas geladas para sacudir a poeira de mais um dia passado vivo. Todo mundo acomodado, sorrisos, tapinhas nas costas, conferida básica no entorno, "garçom, traz duas e quatro copos", "aeeeeeeeee", "à vida!", "Aaaaaaaah", começou o assunto.
Exceção feita a mim, os outros, ali, eram fotógrafos. Fotógrafos profissionais, que vivem da arte e do ofício da fotografia. Então, o assunto que rolava era, obviamente, fotografia.
Muitas lentes, muitos focos, muitas luzes, muitas sombras, muitos flashes estouravam naquela mesa. Histórias de viajens, passagens engraçadas, dificuldades extremas, mal-entendidos, quase mortes, e por aí vai.
Conforme a cerveja ia sendo consumida, os assuntos iam variando. Isso é normal em mesa de bar: a gente começa de um acontecimento comezinho que se passou conosco naquele dia e termina na cura do câncer, na derrubada do governo, na colonização da sexta lua de saturno e sabe lá Deus o que mais. Ao infinito e além! Mesa de bar.
Entretanto, do início da conversa ao delírio completo, vai-se passando por uma série de etapas bem definidas. Pois, bem.
Estávamos entre a cura do câncer e a derrubada do governo, quando fui convidado para posar pelado. "Topa?". Silêncio na mesa. "Como assim?". "Topa ou não topa? É pegar ou largar! Tá dentro?". "Tá, eu topo. Mas, qual é a jogada?", "Então, é um ensaio para uma exposição fotográfica, onde a instalação tem a ver com a crítica ao consumismo.", "Hã? Mas eu não tenho nem corpo 'atraente' ao consumo.", "Mas essa é a jogada. Não tô procurando modelo.", "Ah, tá. Crítica ao consumismo. Sei. Tá bom.", "É, isso aí, crítica ao consumismo. Mas não te preocupa, vai ser tudo em estúdio, privacidade total, teu rosto não vai aparecer, vai ficar legal. Então, tá. Tudo combinado. Me dá teu número de telefone que assim que estiver tudo pronto te ligo.", "Hã?".
O inusitado convite levou-me a algumas considerações (as citadas acima), que logo tornaram-se o assunto da mesa. A discussão foi longa!
Quando já estávamos em algum lugar entre a quarta e a quinta lua de saturno, alguém lembrou que ainda não havíamos derrubado o governo. E o assunto morreu por aí.

CENA 2

SEGUNDA CONSIDERAÇÃO

"O micro-conto de Eduardo Galeano, onde ele conta a história de um pai que leva o filho para conhecer o mar e, quando estão diante do mar, vendo a imensidão do mar, a beleza, o esplendor, o menino segura na mão do pai e, mal contendo a emoção, diz: 'Pai, me ajuda a olhar?', oferece uma maravilhosa oportunidade para a transcendência. Por exemplo: sou um curioso acerca da cultura palestina. Por mais que eu leia sobre, que pesquise, que me informe, jamais terei o alcance da riqueza dessa cultura. Então, fico imaginando se, como na história de Galeano, acontecesse de eu conhecer alguém oriundo desse povo. Eu pediria a essa pessoa que me levasse para 'conhecer o mar'. E, diante da 'imensidão do mar', eu pediria a esse 'pai': 'Me ajuda a olhar?'.
Este é apenas um exemplo de transcendência possível a partir do texto do escritor, mas creio que podemos estender essa possibilidade a inúmeras situações.
Na base dessa transcendência está a humildade daquele que pede e a valorização do outro que concede, visto como insubstituível veículo transmissor do conhecimento. O ser humano é o melhor 'pai' que um outro ser humano pode ter. Por isso, valorizar as diferenças é tão importante, e desprezar um semelhante apoiado nas 'aparentes' diferenças (de qualquer ordem), é uma estupenda burrice."

Mesa de bar. Chega um velho amigo, de origem judaica, e ficamos muito felizes em nos vermos. Cultivamos entre nós uma salutar divergência: sou pró-palestina e anti-israelense ferrenho, no que diz respeito à ocupação dos territórios palestinos. Usamos essa antítese para nos aproximarmos, para gostarmos um do outro. No entanto, o assunto posto sobre a mesa é o Pentateuco, os cinco livros sagrados que compõem a Tora, a saber: Gênesis, Êxodo, Números, Levítico e Deuteronômio (conforme a organização dada a esses livros pelos gregos).
Digo que os estou lendo, novamente, por uma necessidade suscitada por um outro livro, de autoria de um amigo, intitulado Crítica à Teologia Moderna. Desta vez, porém, estou fazendo uma leitura ao desabrigo de exegeses. Minha preocupação é fazer uma leitura do texto pelo próprio texto, comparando-o a si mesmo, sem atentar para transcendências. Apenas anotando suas inconsistências e curiosidades aparentemente inexplicáveis, enquanto texto estruturado, com início, meio e fim.
É quando cito a passagem da criação do homem, onde se lê que Deus criou o homem 'à sua imagem e semelhança, e criou-OS MACHO E FÊMEA, e chamou-OS ADÃO.'. Meu amigo é um conhecedor dos escritos do Mar Vermelho e me conta que, realmente, na história da criação, conforme o texto original, o homem criado por Deus é sempre designado no plural.
Fiquei fascinado e entusiasmado com isso. Daí para o delírio foi um passo. Quase tive que ser contido com o uso de medicamentos e drogas pesadas. Mas, na minha viajem, veio a consideração que citei acima. Imaginei-me pedindo a sua ajuda, como a um 'pai', para que me mostrasse o esplendor de sua cultura e então, humildemente, colocando-me diante de tanta beleza, eu pediria: 'Pai, me ajuda a olhar?'
Então choveu. E o assunto morreu por aí.

Mesa de bar.

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