quinta-feira, 7 de março de 2013

À HORA EM QUE OS OLHOS FECHAM - POESIA



À HORA EM QUE OS OLHOS FECHAM

Agora é hora de partir,
de dar adeus às árvores e suas sombras,
aos pássaros que trinaram
em tantos amanheceres,
à grama estendida como um tapete
para os meus pés doloridos;
de dar adeus ao pôr-do-sol,
tantas vezes visto,
a partir da margem do rio
para além das ilhas
- tão tristes, tão sós, tão longes.

Agora é hora de partir,
de dar adeus às longas e ensolaradas esperas
de tantos verões intermináveis,
às manhãs solitárias,
às noites de vigília,
ao amor,
tão carinhosamente cultivado
até o último olhar,
até o último silêncio.
(Ai, quão profundamente amei!)

Partir:
como as nuvens depois da chuva,
como as folhas depois do vento,
como as sombras depois do dia,
como as flores depois da colheita.

Agora é hora de cruzar a ponte,
pela primeira e pela última vez,
e sentir a umidade
envolvendo a alma,
e o suave vento
que vem de leve
e desfaz a flor da vida
que a esperança de ti
fez nascer em meus olhos.

Agora é a hora de fechar os olhos
e deixar-me transportar até a outra margem.

Como será lá?
Existirão as árvores,
as sombras, os pássaros,
a grama?
Que caminhos haverá por lá?
Como será o amanhecer,
a chuva, o pôr do sol?
Quem será a gente que vive lá?
Haverá alguém
esperando por mim?

Pero Vás

4 comentários:

  1. Nunca estamos sós..Jamais abandonados..O pior abandono é o Abandono de si mesmo..SIM, este é forte demais para ser "suportado"..estamos sempre como as estações...indo e vindo..entre sol e nuvens, entre ventos, tempestades, e dias calmos e ensolarados..também..
    Muito profundo seu poema e diferentes "janelas" que são aqui acessadas..Lindo é poder bailar nisto..Parabéns..
    Liana Utinguassu

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    1. Obrigado, Liana, pela leitura e pelas palavras.

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  2. Excelente reflexão. Tempos atrás eu estava no últero materno e, se eu já podia pensar, perguntava: -Quando chegar a hora de partir será que gostarei do que vou encontrar por lá? E um dia eu parti, desliguei-me daquele mundo em que eu vivia em total dependência materna e cheguei até aqui, ainda limitado, porém num mundo muito mais espaçoso. Quando terminar esse processo de gestação pelo qual estou passando, nascerei para um mundo ainda maior, talvez até ilimitado, pois agora já estou bem mais preparado (espero). Deverá ser um mundo encantado, bem mais iluminado que este aqui. Espero encontrar por lá a felicidade.

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    1. Bah, meu poema sendo comentado pelo Gilson Faustino Maia, poeta a quem admiro sobremaneira! Isso é fermento para o Ego.

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