quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O POUCO QUE SEI DE TI - POESIA



O pouco que sei de ti
é o que sinto,
pois sequer te ouço.
A não ser a voz que escuto
quando vejo o revoar de pássaros
multicores que passam
fugidos do viveiro dos teus olhos,
toda a vez que levantas as pálpebras
e dois arco-íris estendem-se,
como por encanto,
sobre o jardim onde florescem
as solidões que planto.

O pouco que sei de ti
é o que sinto,
pois sequer te encosto.
A não ser os tropéis de potros selvagens
que pisoteiam os pêlos do meu corpo
toda vez que tua mão,
distraidamente, pousa em meu braço
e faz com que a magma que repousa
inquieta no meu peito
ecloda e espalhe-se por minhas veias,
misture-se ao meu sangue
e aqueça-me por inteiro.

O pouco que sei de ti,
é o que sinto.
O resto
.
.
.
                  é silêncio.

Pero Vás

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

POESIA - RELÍQUIA



A palavra que ia dizer-te
- que disse que estava presa
na garganta -
agora não poderás mais ouvir,
já que nem para escutar
o andaluz murmúrio do vento,
tua vida mais se levanta.


Terei de leva-la comigo,
para sempre,
no coração, como relíquia:
a palavra que aguardei para dizer-te:
quando estava mais feliz,
como quem canta
diante da iminência do encontro
que já nem no tempo mais se conta.


A palavra que guardei
e que respondia à tua pergunta:

o que sinto por ti


é Amor.

Pero Vás

terça-feira, 29 de outubro de 2013

POESIA - PÊNDULO


Tua vontade pendulante
                                     perdura
e confunde o teu desejo
em momentos de nunca estar.

Aprisionado em teu vai-e-vem,
                                o que futuras no sonho,
já é passado,
no momento que o tens.

O instante do estar,
                               é o mesmo do partir.
O instante do alcançar,
                               é o mesmo do perder.

Tua vontade pendulante
                              é teu traçado de solidão,
tua rota de não ser,
                              teu trilho.

E vais
              E vens
E vais
              E vens
E vais
              E vens

Até que o mecanismo da vida
em ti,

              Pare!

E deixe-te ao meio:

sem antes,
                           nem depois;
sem certezas,
                           nem talvez;
sem dia,
                           sem noite,
sem vontades,
                           sem ninguém.

Pero Vás

terça-feira, 3 de setembro de 2013

POESIA - GRÃOS









Grãos de luz na laje gres,
a sombra cobre a tarde gris,
grãos de lua sobre a tez
da branca onda que desfez
a trilha crua do teu ir.

Grãos de luz na laje gres,
grãos de ti na tarde atroz,
o braço erguido contra o sol
acena um grito de adeus:
um grão de lua cobre o céu.

Grãos de ti na laje gres,
a tarde gris parada e só,
um traço branco feito a giz
divide o dia do teu ir
entre o triste e o fui feliz.

Grãos de mim na tarde em ti...

Pero Vás

quinta-feira, 25 de julho de 2013

NO TEMPO EM QUE O AMOR NÃO PASSA - POESIA



Envolto em fumaça, tusso
ao caminhão que passa
sobre a calçada e mata
de morte matada a graça
de eu-criança brincando
com a lembrança
do meu pai que abraça
a minha mãe e dança
e fala de um tempo
onde o amor não passa 
e o vento soprando
esvoaça um sonho
que eu tinha ontem
- hoje eu tenho pressa
e medo desta casa onde
moro com as minhas coisas
e uma antiga carta
com um frase curta
nem texto ou poema
- quase uma nota -
e quase meio tonto
leio e danço e rio e acho graça:
“Vem dançar comigo,
eu te amo tanto,
o tempo não passa.”

Sem pensar nem penso

no tempo que o tempo
levou para longe
por cima da casa
que agora se abre
como um par de asas
por cima da tarde
e leva o peso da lembrança
que não pesa nada
É como eu-criança
sobre a calçada, onde te esperava
tonto de alegria
de cara suja e coração na boca
e na mão a carta
que escrevi há tempos
- quase uma nota -
onde eu dizia
quase meio tanso
quase até sem graça:
“Vem dançar comigo,
eu te amo tanto
desde aquele tempo
quando o amor não passa.”


Autista Baptista

sexta-feira, 5 de julho de 2013

PRECE DA LUA VAGA - POESIA



Quando andas
sobre as ondas,
espiam-te os peixes
sob as águas
e nadam à tua sombra:
                                       vês como te olham?

Quando vestes
tuas contas
e cantas
como as sereias
e deitas sobre a areia
teus olhos vagos:
                                      vês como te encantam?

Enquanto passas,
vês aquele menino,
sentado à beira d'água,
com um gravetinho, escrevendo
pensamentos de criança
na tua luz, nas estrelas,
nos peixes, nas vagas?

Ele ainda não sabe,
mas bem se vê que é poeta.

                                    Então não faça o menino chorar!


Pero Vás

quinta-feira, 4 de julho de 2013

DESINFARTO - POESIA


Desinfartei!
Disse-te não pela primeira vez.
E pela última palavra
que insististe em não dizer.
Bebo ébrio meu hemisfério
- o esquerdo -
- aquele que não sabes -
e aos tropeços chego à outra margem
- a direita -
mas com tudo dito:
de mim para ti.
Tudo escrito e cabido numa linha.
Tudo!
Do início ao fim.
Viste como era pouco?
Eu te disse tantas e tantas vezes
que era muito muito pouco
o que eu tinha
para te pedir.

Desinfartei!
Implodi as pinguelas de safena
que ligavam o teu principício ao meu.
Olhei teu chá e tuas luvas
sobre a mesa
- nem toquei -
só olhei a cena irretocável
e asséptica que me lembra
e suja a memória:
- aquelas luvas que usavas
quando precisavas tocar em mim -
- as luvas que arranhavam
o meu coração! -
Nem percebias a dor que me dava
o chá vagarosamente bebido
como amor sem açúcar!
- Teu ritual de solidão...

Desinfartei!
Saio de ti de mãos caladas
e vazias,
tal qual tua boca e as palavras
- poucas - que dizias.

Veste tua luva, toma teu chá:
te quero bem.
.
.
.
Coração forro!
Amor canino!

- Agora vai!

Pero Vás

sexta-feira, 28 de junho de 2013

MANIFESTOS SÃO...



Mais uma manifestação, mais uma confusão. Desta vez, ficou mais ou menos claro o que vem sendo denunciado há tempo pelos que querem manifestar o seu descontentamento com o estado atual do Brasil, sem destruí-lo: há muitos que comparecem às manifestações não para protestar, mas para qualquer outra coisa que não tem nada a ver com mudanças necessárias para melhorar o país. Pode ser para "melhorar" a própria vida (ou para piorar a vida alheia). Além disso: nada.
As perguntas que permanecem são: quem são? De onde vêm? Por que vêm? Para onde voltam?
As respostas (muito mais palpites, do que afirmações comprovadas) podem ser muitas.
Podemos falar em pessoas contratadas por partidos políticos interessados em criar um clima de desestabilização com vistas às eleições de 2014.
Podemos falar em pessoas contratadas por empresas interessadas em vingarem-se por estarem sendo deixadas à margem (ou por terem sido alijadas, em benefício de outras) da distribuição do dinheiro público, conforme o ramo de atuação.
Podemos falar em movimentos sociais organizados, como os neonazistas.
Podemos falar em movimentos sociais semi-organizados, como os "bondes", onde jovens de comunidades que sofrem exclusão social, reúnem-se para enfrentar "a burguesia" agredindo-a, da mesma forma como sentem-se agredidos (sobre isto, relato, mais adiante, um acontecimento pessoal, que me leva a tal conclusão).
Podemos falar em grupos de criminosos sem qualquer organização que reúnem-se para cometerem pequenos delitos contra pessoas, já que, se o fizessem sozinhos, talvez não tivessem sucesso (ou coragem).
Podemos falar em grupos de criminosos semi-organizados, mas ambiciosos, que desejam aproveitar-se da confusão para cometer assaltos mais ousados a estabelecimentos comerciais.
Podemos falar em pessoas de índole violenta que apoiam qualquer ação que envolva destruição seja lá do que for, desde que alguém saia prejudicado e/ou ferido.
Podemos falar muita coisa, imaginar muita coisa, "hipopotiquizar" muita coisa, mas, afirmar, sem medo de errar, ainda não.
Entretanto, não podemos esquecer que, sejam quem forem esses (de quem falamos), são produtos de nossa própria desorganização social. Da desorganização que nos levou a fazer com que seres humanos ficassem "justificadamente" do lado de fora da festa. Que seres humanos recebessem atendimento precário para suas necessidades de alimentação, saúde, educação, saneamento básico, lazer, trabalho, habitação. Não são feras criadas espontaneamente, como sub-produto de governanças irresponsáveis e aproveitadoras, apenas; mas, também, por nossa indiferença, por nosso egoísmo, por nossas demasiadas concessões a governantes despreparados, deixando tudo em suas mãos, lavando as nossas das responsabilidades a que todos somos cometidos, como cidadãos. Se vivemos em "sociedade", precisamos comportarmo-nos como uma "sociedade". Todos devem ser beneficiários do progresso geral - e não somente alguns (não importando se esse "alguns" representa a maioria, a minoria ou a média da população) - e todos devem ser comprometidos com a manutenção e o aperfeiçoamento desse progresso.
Com relação ao sentimento de revolta diante da exclusão, passei, certa vez, por uma situação que me fez entender muito claramente sua existência e sua base. Na época, morava no bairro Espírito Santo e usava a linha Juca Batista para vir ao centro e para voltar para casa. Certa ocasião, diante do fato de todos os ônibus que passavam estarem lotados, optei por pegar um da linha Restinga-Tristeza. Quando entrei no coletivo, na frente do prédio do IPE, na Borges de Medeiros, estava praticamente vazio. Era um ônibus articulado e sentei-me no último banco, no fundo, próximo da porta de saída. Começou a lotar quando passamos pelo Praia de Belas, depois pelo Barra e, finalmente, pelo BIG. Os passageiros eram, em sua maioria, trabalhadores e estudantes. Porém, era notório como todos (ou quase todos) se conheciam, pela maneira como se cumprimentavam e conversavam.
Estando o ônibus lotado, alguns passageiros começaram a gritar para o motorista: "Agora não sobe nem desce mais ninguém! Toca direto pra Tinga, motora!". Os únicos "estranhos" éramos eu e outro senhor, sentado mais a frente de onde eu estava.
Ao longo do trajeto, toda a vez que passava algum ônibus de uma linha que não fosse para a Restinga, muitos passageiros botavam a cara na janela e gritavam para os passageiros dos outros ônibus, chamando-os de "burgueses" e outros adjetivos menos citáveis. Em especial quando fosse um ônibus da linha Juca Batista (a que eu costumava pegar). Confesso que fiquei bastante surpreso, pois, conhecedor de algumas pessoas que viajavam costumeiramente comigo, sabia que de "burgueses" não tínhamos nada. Mas, para aquelas pessoas, para o imaginário delas, éramos "burgueses", sim.
Quando o senhor que, como eu, não ia até a Restinga, resolveu descer, foi impedido pelas pessoas que estavam próximas ao lugar onde estava sentado e só foi "liberado" quatro paradas depois daquela que intencionava descer. Pensei no que aconteceria quando chegasse a minha vez. Por sorte, percebi uma moça passando mal por causa da lotação e ofereci o lugar a ela. Quando chegou próximo da minha parada, dei o sinal e uma parte da galera chiou, mas, os que estavam perto de mim e viram a cena, disseram para os que impediam a saída, postados na frente da porta de desembarque, para que me deixassem sair "numa boa", pois tinha sido gentil com a moça, isto é, com uma pessoa pertencente à "comunidade" deles.
Por isso, considero justificado pensarmos que não há apenas interesses escusos comandando as confusões que já se tornaram rotineiras a cada manifestação. Também é necessário considerarmos que há a participação de uma parte da sociedade que temos (nós, sociedade), inadvertida ou propositadamente, excluído da oportunidade de terem uma vida digna e com as mesmas chances de benesses concedidas àqueles que pertencem às classes média e alta. Nas benesses a que me refiro, incluo também o lazer, pois, algumas vezes, noto que algumas pessoas incomodam-se com a presença de outras que não têm os "bons modos" esperados para os freqüentadores de determinado local. E isso é percebido. Isso é deglutido. O gosto amargo do desprezo vai temperando a revolta. Um belo dia, dá nisso que estamos vendo (isto é hipótese! HIPOPOTIQUISMO!).
Pensemos, amigos, pensemos. Não são apenas "eles" (os governantes) que precisam mudar. Pode ser nós, também.
E tenho pensado!

P.S: Gostaria de deixar minha contribuição para os passos seguintes às manifestações.
Será que não seria oportuno que a OAB, por intermédio de suas diversas seccionais, convidasse os movimentos reivindicatórios para que se analisasse o que estão propondo e avaliar o que, de tudo o que se exige (direito não se pede, se exige!), já está contemplado em lei e a lei não é cumprida; o que está parcialmente contemplado e precisa ser agregado à legislação; o que está contemplado, mas é contrário ao que se quer, e precisa ser alterado ou extinto; e o que não está contemplado e precisa ser criada legislação que garanta tais requerimentos?
Algumas vezes deparamo-nos com iniciativas bem intencionadas de propostas de leis que, no entanto, pecam pela precariedade no fundamento jurídico, pela maneira como são formuladas, e pela estrutura desarrumada que termina por torná-las mais confusas do que esclarecedoras. Prenúncio de muitas encrencas mais adiante, pois uma lei frágil é facilmente burlável.
E tenho sugerido!

sexta-feira, 7 de junho de 2013

TRABALHO DE CIÊNCIAS

Duplicação da Av. Tronco (Porto Alegre) implicará no corte de 1.500 árvores
Os Micro-contos.

Os Micro-contos são animais de pequeno porte e forma indefinida. Ainda não foi possível datar, com precisão, o seu aparecimento na terra, porém, supõe-se que não tenham mais do que 200 ou 300 anos.

Espécie bastante arredia, são raramente encontrados e sua população é estimada, atualmente, em não mais do que uns 1.000 exemplares.
Exemplo de Micro-conto:

Tango porto-alegrense:
O Barão coçava as árvores e passava asfalto na careca da cidade.


Fonte de consulta: meu "célebro". (Outro exemplo de micro-conto: Meu célebro celebra a celebridade dos fatos!)

Dicionário de joãoantoniês:

Célebro: mente (às vezes só oculta).
Celebridade: rapidez, velocidade, transitoriedade, fugacidade.
Fugacidade: fugir da ou para a cidade

sábado, 1 de junho de 2013

Diante do encantamento da flor imutável


Viver o presente, o Agora, o instante. Para alguns, natural arte; para outros, terrível esforço inalcançável. Sábios do oriente apregoam ser este o caminho para a suprema felicidade, única possibilidade para o encontro interior, para a Paz. Filósofos do ocidente esforçam-se em tratados intermináveis para provar ser esta a única maneira de o ser humano sentir-se inteiro, perceber-se "Todo".

Eu, de minha parte, não consigo entender-me sem uma causa. O Antes não desgruda, o Antes define o meu Agora, mesmo que neste meu Agora eu sequer esteja sentindo ou refletindo sobre o Antes. Porém, a consciência da sua ocorrência sempre me acompanha: todos os meus tempos estão em mim: Agora!

Entretanto, à margem do significado transcendente de "viver o Agora", há outras formas de experimentarmos tal vivência que, no mais das vezes, nem nos damos conta do quanto estamos imersos num "viver o Agora". E isso não quer dizer que tal experiência possa ser entendida, unicamente, como prazerosa: também pode ser uma terrível descoberta, um frustrante "dar-se conta".

Foi enquanto pensava sobre essas possibilidades inconscientes, que deparei-me com um conto, num livro da Marina Colasanti que estou lendo (Na água o tempo nada. in Contos de Amor Rasgados. p.191).

Do conto, extraio um trecho que ilustra o que quero dizer:

"(...) Mas chegou o momento em que (...), num súbito rasgar-se do seu conhecimento mais denso, compreendeu afinal. Nenhum futuro lhe estava destinado. Só o presente. E afundando em terror soube que o tempo por vir nunca viria, perdido que estava desde aquela primeira tarde quando, sem saber, o trocara pelo futuro alheio."

Pois, é. E Agora?

domingo, 26 de maio de 2013

CONTO - ENSAIO SOBRE A CULPA (REVISTO E AMPLIADO)


ENSAIO SOBRE A CULPA

Sim, sabia-se que, se continuássemos a expelir tanta fumaça tóxica, um dia o ar tornaria-se tão irrespirável que a vida na terra seria impossível: mas, escolheu-se continuar. E, agora, não há como reparar o mal feito.

Sim, sabia-se que, se extingüíssemos alguma espécie viva, animal ou vegetal, comprometeríamos irremediavelmente o delicado equilíbrio que há entre os seres que habitam este planeta, sendo um responsável pela vida e pela morte do outro, de forma que nem um, nem outro, se tornasse praga predatória para os demais: mas, escolheu-se extingüir. E, assim, continuamos a dar cabo de outros seres vivos, de maneira irrecuperável.

Sim, sabia-se que, se continuássemos produzindo lixo indeteriorável, um dia não teríamos mais onde depositá-lo sem comprometer nossa saúde. Mas, escolheu-se continuar. E, assim, produzimos lixo e mais lixo, e não sabemos mais o que fazer com ele. E ainda sentimos a necessidade de produzir mais.

Mas remediamos o mal com um tolerável e compreensível sentimento mal sentido de culpa. Pois, nos fim das contas, precisamos produzir; precisamos suprir nossas necessidades; precisamos viver!

...

Juliano olhava pela janela como se olhasse através de uma fenda aberta no tempo. Do sétimo andar, observa a praça em frente: as crianças brincando, homens e mulheres conversando - pais, mães e filhos compartilhando o mesmo espaço. Embalando-se no balanço está Julinho, seu filho. Um menino esguio, de sorriso fácil, gostado por todos, muito esperto: a vida jorra em forma de luz daqueles olhinhos pretos como a jabuticaba.

Acompanhar as brincadeiras do filho é uma das diversões preferidas de Juliano. Sente que a vida ganha significado a cada progresso que observa no menino: as soluções que arranja para enfrentar e vencer desafios, a vontade e a coragem para enfrentar e vencer desafios: sintomas da presença de uma inquestionável inteligência. Se alguém perguntasse a ele, agora, qual o sentido da vida, não exitaria em responder: o sentido da vida é gerar e amar um filho. E acompanhá-lo em seu crescimento. A vida sem um filho não é nada. É só um imenso vazio sem significado.

Às vezes, como agora, lembra de si mesmo, quando também era criança. Se não é uma memória perfeita, sente que, se ele não era assim como o seu guri é, era muito parecido.

Julinho voa seguro diante do olhar embevecido do pai, de um brinquedo para o outro: sabe que é amado e isso o faz sentir-se feliz. Para demonstrar a felicidade que sente dentro de si, faz como está fazendo neste exato momento: corre para o pai e abraça-o com força, beija-lhe o rosto e diz: “Eu te amo”.

Chega a ser emocionante ver os dois, pai e filho, com o rosto iluminado pelo amor mútuo.

Juliano tosse, enxuga algumas lágrimas que escorrem pelo rosto. O pigarro provocado pelo cigarro incomoda-o. Agora deu pra isso. Não lembra exatamente quando começou a fumar, mas pensa que não deveria nem ter começado. Agora, todas as manhãs, ao acordar, tosse de quase botar os bofes pra fora. Sente-se mais cansado, sem forças, com pouca resistência. Mas o cigarro faz-lhe companhia, o cigarro atenua a dor, o cigarro ajuda-o a pensar. E é exatamente isso o que Juliano mais precisa: pensar.

Pensar que sua vida poderia ser, agora, completamente diferente. Pensar nas possibilidades de uma outra vida. Se não tivesse feito as escolhas que fez. Se tivesse escolhido de maneira diferente. Se, ao invés disso, tivesse feito aquilo. Diferente de um texto que, quando se muda de idéia, ainda é possível voltar e reescrevê-lo, a vida não permite a reescrita: não há como desfazer o feito. E, pelo encadeamento que as coisas da vida têm, um elo está irremediavelmente preso ao outro. Não é possível romper com os elos do passado. E, também, depois que um elo do presente é fechado, não será mais possível tornar a abri-lo para prendê-lo a outro. Na vida, há, apenas, o arrependimento, não o conserto. E Juliano tem consciência disso. Sabe que a cada segundo vivido estamos fechando elos. E sabe que tudo é irremediável.
Isto o atormenta. Tanto que, depois de tossir mais algumas vezes, resolve fechar a janela e a fenda no tempo e descer para o pátio. Talvez isso faça-lhe bem.

Apanha a garrafa térmica e a cuia com erva, já preparadas, colocadas sobre a mesa da sala, e sai. A manhã é agradável: nem quente, nem fria: uma típica manhã de outono: “O outono é a melhor estação do ano em Porto Alegre”, pensa.

Abre a porta e sai.

...

Lembrar: é o que Teresa mais faz: lembrar. O olhar parado no horizonte, longe, perdido em algum ponto da lagoa que flui mansamente pelos fundos do terreno da casa onde mora com a mãe, em Arambaré. Tudo é lembrança, tudo é vida que passou, tudo é vida que não se renova, que não volta. Tudo é irrepetível.

Vê-se braba! Braba, não: furiosa! Ou, até, muito mais do que isso. Caminha a passos rápidos pela calçada. Sente que toda a vida vivida até aqui perdeu o significado. Sente-se enganada, humilhada, mutilada. Pergunta-se repetidas vezes: “Por quê? Por quê? Por que fazer isso comigo? Por quê?”.

Por dentro é como se todos os sonhos, todas as certezas, todas as esperanças, de repente, desaparecessem. Sente-se vazia, a vida sem sentido.

Vê-se entrando em casa, batendo a porta com estrondo. Ao chegar na sala, atirar a bolsa sobre o sofá e dirigir-se, decidida, ao quarto que compartilha com o marido.

Vê-o dormindo com o filho deitado ao lado, no lugar que seria o dela. Resolve voltar à sala. Abre a bolsa e retira um envelope. É um envelope cor-de-rosa, perfumado, com uma boca entreaberta, pintada com batom vermelho, carimbada na face da frente.
Sente vontade de rasgar aquele envelope, de jogá-lo fora, mas a raiva, a destruição provocada pelo bilhete que está dentro daquele envelope, impede-a de fazer o que gostaria. Teresa chora, soluça. Quer gritar: gritar com toda a força para ver se a dor que está sentindo sai toda, junto com o grito.

Vê o marido e o filho aparecerem à entrada da sala: estão atônitos. Olham para ela entre assustados e surpresos. O menino corre em sua direção e a abraça: “O que foi, mãe?”. Juliano, ao ver o envelope que ela segura na mão, compreende imediatamente. Escora-se na parede do corredor e passa a mão sobre o rosto. Tenta pensar no que vai dizer: as palavras fogem-lhe ao raciocínio. Tenta falar algo com o olhar, algo como: desculpe, por favor, me desculpe. Mas os olhos de Teresa estão cegos. Cegos pelas lágrimas, pelo corte, pela mutilação.

A vontade íntima que sente é de provocar no marido a mesma dor que está sentindo. De fazê-lo sofrer tanto quanto está sofrendo. Entende que essa seria a única maneira de mostrar a ele o quanto está ferida. Mas fazê-lo sofrer como? O que poderia machucá-lo tanto? Súbito, seu olhar se modifica, escurece. Um sorriso (ou seria um esgar?) aparece-lhe no rosto - parece transfigurada: ela sabe.

Agora, olhando para o infinito da lagoa, Teresa lembra. Lembra do desabafo, lembra do impulso, lembra dos gritos, lembra do silêncio: o silêncio do durante, o silêncio da raiva, o silêncio do grito.

Lembra de tudo enquanto segura a caneca com café recém passado que a mãe veio alcançar-lhe. Observa os pássaros que passam em bandos sobre a lagoa, quase tocando o espelho d’água. “O que é o amor?”, pergunta-se. E ela mesma responde: “O amor é culpa.”.

Porém, daqui para a frente, este lembrar eterno é a única possibilidade de amor que lhe resta.

...

Julinho não entende. Tem apenas nove anos e o alcance do seu entendimento ainda é muito limitado para desvendar as sutilezas do pensar e do sentir humanos. Tudo o que entende sobre o mundo é: isto é bom, aquilo é ruim; ou: isto é errado, aquilo é certo. Seu cérebro ainda não está preparado para abstrações mais complexas.

Enquanto cai, jogado da sacada do apartamento, pela mãe, pensa que, talvez, tenha feito alguma coisa errada. Por isso é que está sendo castigado. Quando a queda terminar, quando chegar ao chão, irá até a mãe e pedirá desculpa. Como o pai ensinou-lhe a fazer, sempre que fazia algo que não devia. Irá abraçá-la e dizer: “Desculpa, mãe”, e vai ficar tudo bem.

João Antônio Pereira
Outono/2013

domingo, 12 de maio de 2013

VOCÊ JÁ VIU DEUS?


Lendo uma entrevista concedida por Leonardo Boff à revista Caros Amigos, em junho de 1997, a certa altura ele cita um diálogo que teve com sua mãe:

Ela: Você já viu Deus?

Ele: Mãe, a gente não vê Deus.

Ela: Mas como, você tantos anos padre, não viu Deus? Isso é uma vergonha para um padre!

Ele: Mãe, a senhora vê?

Ela: Lógico que vejo Deus. De vez em quando tem o pôr-do-sol, aquelas nuvens, eu fico olhando e ele passa com aquele manto, sorrindo, e atrás vem teu pai que já morreu, sempre olhando pra mim e rindo, e eu fico uma semana inteira com alegria no coração.

Mais adiante, Leonardo, questionado sobre como é Deus, responde:

- (...) Deus não é um objeto, não é uma entidade, é uma suprema paixão, suprema energia, o que os gregos de uma maneira genial disseram, e eu gostaria de dizer porque ela está presente na nossa língua, que é a palavra entusiasmo. Porque em grego entusiasmo significa ente os mos, "ter um Deus dentro". (...)

Então é isso: acredito que é isso: concordo com isto.

No dia de hoje, quando comemoramos o dia das mães, desejo a todas as mães que vejam a Deus, que sintam o entusiasmo: nos seus filhos, nos pais dos seus filhos. E que esta visão lhes proporcione "uma vida inteira de alegria no coração".

FELIZ DIA DAS MÃES!

sábado, 11 de maio de 2013

POESIA - RECORTE


RECORTE

É só uns trocadinho,
assim, é pro mininu
comprá leite pro mininu,
que tá ali, dorminu,
naquela sombra.
Sinão, já vai cordá rismunganu.
Ele senti muita fomi,
tá sempri cum fomi,
sempri choranu.
Não é pra mim, não,
é pro mininu,
só uns trocadinho,
comprá leite
enquanto eli tá durminu.

Di meu, meu, mesmo,
não tenho muita coisa:
tenho esse carrinho,
essa panela velha, uma culhé,
uns pano.
I tenho eli,
nem sei quantu tempu.
Eli é assim, miudinho,
tá sempre cum fomi.
Eu como, assim, modo di dizer,
lá di vezenquando.
Mi percupo mais cum eli.
Eli passa o tempo todo assim:
durminu.
A mãe deli morreu, assim,
cumé qui eu vou lhi dizer,
di sofrimentu:
num güentô vê as criança
sofreno.
Coitada.
Enterrei ela junto cus ôtro.
Tinha mais dois.
Agora sêmo, assim,
eu mais ele. E Deus.
Só nóis nu mundo.

Essa ponti, aqui,
é dondi nós morêmo.
Eli fica ali, na sombra,
durminu.
Tá sempre cum fomi,
o miúdo. Tadinho.
Agora, tá ali, durminu.
Daqui a pôco eli vai cordá,
e já vai cordá resmunganu.
Tadinho. É tão miúdo,
o meu piquenu.

- O menino da ponte morreu!
- O menino da ponte morreu!

Bão, era só uns trocadinho,
agora não percisa mais, não:
não dá mais tempu.
Eli tava sempre ali,
naqueles panu, durminu.
E cum fomi. Tadinho.
Agora não percisa mais, não.
Tenho qui enterrá eli.
A perfeitura tem enterro di graça,
não percisa si incomodá, não.
Eu vô lá e falo cuns moço, lá,
i elis interram eli.
A perfeitura nem cobra nada,
interram eli di graça, mesmo.
Eli era tão miúdo,
quasi nem vai ocupá terra.
Eu vô lá,
interrá meu mininu.
Daqui a pôco eu volto,
tenho vida prá vivê, né?
Então vou viveno.
Agora não sêmo
eu mais eli,
agora sêmo só
eu mais Deus.
É a vida, né?
E nós vâmu viveno.
Eu mais Deus.
Agora é só nóis:
eu mais Deus.

Licença, moço,
vô interrá meu filho.

Pero Vás


P.S.: Este poema foi escrito baseado na crônica-poema de Jorge Cavlak, intitulada Zé Nascimentu, publicada na revista Caros Amigos Literatura Marginal Ato II, página 28, s/d.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

COLAGEM POP



Neon
sobre o batom
negro:
gata de concreto
peitos
de salto alto.
Pele de onça
morta
dança na mata
a música mística:
tambores de fritz,
batuques de manoel,
pandeiros de otaka,
gonzos de muhammad,
bumbos de salim,
cornetas de vitorio.
Árvores de polipropeno
liberam metaldeído
na atmosfera
new-pós-emo-dark:

Pop Pop Pop Pop

Art!


Olhos de cristal
riscado,
língua de diamante
bruto,
hálito de butano,
filosofia com bula:
agite antes de usar.
uma mulher de carne,
plástico e ossos.
Colagem
na paisagem
colorida
de prédios
esguios.


No parapeito
da janela
do apartamento
do último
andar
do edifício
mais alto,
a silhueta
de um boleto
vencido:
- vai pular.

Pula! Pula! Pula!

Pop Pop Pop Pop

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@ Art!

Pero Vás
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