domingo, 14 de outubro de 2012

DE MEMÓRIA - CONTO




DE MEMÓRIA

“Não te preocupes com a morte, meu amor; preocupa-te com a vida: a vida que deixas de viver.”

               Talvez fosse isso mesmo o que eu quisesse sentir. Talvez eu não estivesse me enganando, mentido para mim, espalhando boatos a meu respeito. Talvez eu estivesse certo de que era isso mesmo o que queria, que não poderia ser outra coisa, que era tão óbvio, tão de certeza, que não havia nem o que pensar, nem o que refletir. Ou talvez não. Talvez eu não estivesse certo de nada. Talvez fosse tudo alguma coisa para a qual eu não sabia dar um nome. Talvez eu não soubesse sequer por que estou neste ônibus, sacolejando, olhando com olhar de enfado para a paisagem que vai passando, por onde meus olhos sequer se dão ao trabalho de passar também, tão preocupados estão em olhar para dentro, tão ligados aos pensamentos que não enxergam o que passa à sua frente. Aquele outro passageiro, ali, naquela outra poltrona, mais para frente um pouco, dormindo, pode ser até que ele esteja aproveitando a viajem melhor do que eu, que não saio de mim, que não sei nem dar nome às coisas que sinto, assim, de certeza, daí...
               Daí as imagens que eu via não eram imagens do que existe, do mundo material que me rodeia, repleto de coisas e pessoas e bichos, que eu toco, que eu vejo, que eu tenho certeza do que são, como se parecem, que eu posso até descrevê-las; eram imagens que vinham de algum lugar fora da memória, de alguma outra memória que não a memória de lembrança, mas a memória de sentimento, aquela memória que distorce as coisas, que transforma uma grande árvore num arbusto, uma avenida numa rua, um dia nublado num lindo dia de sol, tão raro nesta época do ano. Então a lembrança não era bem uma lembrança, talvez fosse aquilo que chamamos saudade, não saudade de uma coisa, não saudade de um lugar, mas saudade (ou lembrança, ou memória) do que foi sentido, do que foi vivido, daí...
               Daí eu estava parado diante de uma rua, na entrada dela, não sei se era o começo ou o fim, para mim era o começo, pois preparava-me para percorrê-la, e eu estava parado diante da rua, medindo-a, tentando enxergar o fim - o fim da rua, ou da avenida, ou do caminho, ou da estrada (poderia ser uma estrada), tão longa ela parecia. Eu estava parado diante dela, eu dizia, e a media, também dizia, como um agrimensor que olha para uma grande quadra de terras para avaliar não a sua extensão, mas o tamanho do esforço necessário para percorrê-la, e depois faz as contas e vai falar com o dono das terras e diz: “Olha, o trabalho vai custar tanto e é bom que se precavenha, pois não vai encontrar preço melhor do que este que estou lhe oferecendo.”, ou talvez não fosse nada disso, talvez, de novo, meu olho não estivesse vendo o que via, talvez estivesse vendo a árvore que parece ser ainda a mesma, apesar de já terem se passado tantos anos, como se nenhuma folha lhe faltasse, nenhum galho lhe tivesse sido cortado (nem pelo homem, nem pelo vento, nem pelo raio), ou, talvez, estivesse prestando atenção naquela moça que recolhe os pratos e os talheres e os copos e as baixelas deixadas por outras pessoas, sobre a mesa do restaurante onde trabalha, e no qual, agora, entrou ainda mais para dentro, lá para o fundo, onde fica o balcão e um homem fala com ela e chama, em seguida, uma outra para que pegue o que a primeira carrega nos braços, braços cuja pele que os recobre é tão branca que quase dói só de olhar, não por ser tão alva, mas por parecer tão triste; e leve aquela louça toda para algum lugar, onde será lavada, e onde os restos da comida deixada nos pratos e nas baixelas serão jogados no lixo, para alimentar outras pessoas, aquelas outras que não têm dinheiro para vir no restaurante deste homem, que parece ser o dono, e que, agora, bem agora, alcançou para a primeira, que ainda esperava diante do balcão, uma vassoura, que ela pega com destreza e vai varrendo as migalhas que ficaram caídas pelo chão, em volta das mesas, embaixo das cadeiras, e que se misturam com a poeira trazida pelo vento, ou pelos calçados das pessoas que têm dinheiro e são recebidas pelo dono do restaurante para comer lá dentro, em pratos limpos, com talheres limpos, a comida que é servida em baixelas limpas, não a que vem do lixo, daí...
               Daí, talvez, eu tenha reparado no olhar desse homem, que parece tão severo, que tem tantas marcas evidentes no olhar que bem se pode ver que está doente, que no entanto não vai para casa tomar uma xícara de chá com limão e mel, e um anti-térmico, e depois deitar-se, bem abrigado, e dormir-se e esperar que, quando acorde, todas as dores, todas as tristezas, todas as mágoas que o adoentaram a ponto de deixá-lo assim, tão severo consigo, com os outros, tenham ido embora e ele agora esteja bem, sentindo-se forte, respirando fundo, aproveitando todo o ar disponível no mundo e que, agora, ele pode sentir tão bem, entrando-lhe pelos pulmões, fazendo-lhe o coração bater com vontade, o sangue correr decidido pelas veias, que, agora, não estão mais entupidas. E é tanta vida que lhe entra corpo a dentro que até o seu olhar parece diferente, mais claro, mais limpo, brilhante, alegre, como os pratos e as baixelas e os talheres e os copos que aquela outra moça que ele chamou, não esta que está varrendo, mas a outra, a segunda, lavou e, agora, colocou no escorredor para que sequem e possam ser usados novamente; e ele trata a todos com gentileza, com prazer, pois está curado, está vivo, daí...
               Daí os meus passos vão exitantes, pela rua (ou avenida, ou caminho, ou estrada - bem poderia ser uma estrada) que percorro, como se o calçamento fosse apenas um disfarce a encobrir um precipício que se abre logo ali adiante, e as minhas pernas chegam mesmo a tremer, então aperto-as com as mãos para certificar-me de que não é nada, nenhum problema físico, que estou bem, que posso continuar andando, mas, então, penso que poderia desistir de tudo, que poderia dar meia volta e nem ver o olhar daquele homem, nem aquela moça, nem aquela árvore, que poderia sacolejar de novo naquele ônibus, mas, desta vez, sem olhar para dentro, sem enfado, apenas ocupado em não pensar, em esquecer, mas esquecer mesmo, esquecer com força, tudo, definitivamente. E voltar no tempo e mudar o rumo da história, secar a fonte, não como estou fazendo agora que já cheguei ao fim da rua e estou diante de uma praça, uma praça da qual não lembrava, ou lembrava, mas não era assim que lembrava, porque lembrava com a outra memória, não a memória de lembrança, não a memória que é possível apagar, a memória que se pode “perder”, mas aquela que não nos deixa esquecer de nada, tão ligada está ao que somos, ao que vivemos. E daqui de onde estou, agora, parado novamente, ridiculamente parado, como se estivesse com medo de atravessar esta praça, como se ela fosse uma densa e perigosa floresta, cheia de encantos mas cheia de mistérios, também, penso que se andar bem devagar, que se demorar bastante, talvez, quando chegar ao outro lado, o sol já tenha se posto, a noite já tenha coberto o mundo de sombras e o velhinho que cuida do portão que dá acesso ao lugar que, talvez, eu queira ir, não me deixe entrar, que me diga: “Desculpa, moço, mas já fechamos, volte amanhã, passar bem.”, daquele jeito que só os velhinhos têm para dizer as coisas, assim, de uma maneira tão simples mas tão direta, comovente, se poderia dizer, ajudados pela experiência de uma vida inteira de convívio com as pessoas, algumas, até, que nem existem mais. Talvez, se eu andar bem devagar, ou se eu sentar um pouco, se acender um cigarro e ficar olhando as árvores, ouvindo os pássaros, talvez, então, eu não chegue ao lugar e tudo passe e eu perceba que foi tudo um sonho, que, na verdade, eu não estou aqui, que nada disto jamais existiu, nem aquele lugar, nem aquele velhinho, nem esta praça, nem isto que estou sentindo e que acelera meu coração de um jeito que parece que terei um infarto fulminante a qualquer momento, que faz com que o suor encharque a minha testa e escorra pelo meu rosto de tal maneira que tenho, até, que enxugar o olho e me preocupar com o que as pessoas possam estar pensando de mim, ali, parado daquele jeito, naquela pose esquisita, que não vão pensar que estou chorando, apesar de estar chorando, sim, mas que não pensem isso, que não percebam que estou enxugando lágrimas, é só o suor, só o suor. Eu sei que pode parecer estranho uma pessoa suar tanto num dia frio como este, mas o problema não é o calor de fora, o problema é o calor de dentro, daí...
               Daí eu cheguei, o velhinho me deu boa tarde com um sorriso, como se lembrasse de mim, - “Simpático, esse velhinho.”, eu pensei -, e deixou-me entrar. Então eu entrei e pude ver que nada havia mudado, que estava tudo exatamente como eu lembrava, como eu lembrava não com a memória essa que lembra das coisas, dos lugares, das pessoas, mas com aquela outra, aquela que não se apaga. E como um cão farejador fui procurando o local exato, o ponto onde tudo começou, o ponto de onde partiu tudo isso que, agora, sinto e que, desde então, tornou-se o todo de minha vida, minha orientação e minha desorientação, minha saúde e minha doença, minha paz e minha guerra, daí...
               Daí dei mais um passo e, enfim, o encontrei. Cheguei! Foi aqui, exatamente aqui. É daqui que veio tudo, daqui que brotou. Foi aqui, exatamente aqui, que um dia, um dia como este dia, num final de dia como neste final de dia, que pela primeira vez a vi, daí...

João Antônio Pereira
Porto Alegre, 3 de agosto de 2012

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