domingo, 28 de outubro de 2012

APRENDIZAGEM E CRÍTICA: UMA QUESTÃO DE ÓTICA

Anton Ego, crítico gastronômico, personagem do filme de animação Ratatouille. (Disney/Buena Vista, 2007)

Para os que não sabem, gosto de criticar o trabalho literário alheio, apesar de não ser crítico literário. Para os que sabem, certamente já experimentaram um pouco da minha "pimenta nos seus olhos" (alguns, até, já me juraram de morte, mas acho que esse sentimento já está superado.).

Entretanto, não me julgo um "pit-bull" da crítica, não sou um crítico "fundamentalista", do tipo que se dispõe a atar um cinturão de bombas ao corpo e comparecer a um sarau pronto para explodir tudo, escritores e público, só porque não gosta do que produzem. Ainda assim, sou um tanto ácido. Mas acredito que criticar o trabalho de alguém sempre traz, como resultado, essa atitude de reação, de descontentamento, de contrariedade.

Alguns poucos que conhecem esse meu lado crítico, sabem que faço isso por amor à literatura, em especial à poesia, e por preocupação com os leitores, com o conteúdo que é oferecido a estes.

Sou de opinião de que a elevação social de um povo está diretamente ligada à qualidade da cultura que produz. Se uma sociedade produz lixo cultural, essa mesma sociedade se alimentará de lixo cultural e os futuros produtores de cultura reproduzirão esse lixo cultural, algumas vezes em escala maior do que a que era inicialmente produzida. O resultado é um povo sem referências positivas e sem vontades positivas, pois, como seres humanos que são, adaptam-se facilmente ao ambiente no qual estão inseridos e, se o ambiente é/está "poluído", mesmo que inadvertidamente, será mantido poluído, porque assim entendem essas pessoas que a vida é, que deva ser; muito similar ao que é representado pelo conceito do Complexo de Gabriela: eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim. E não podemos esquecer do conceito do Retorno Financeiro, também muito importante (se é que não mais importante): se é lixo que eles querem, lixo é o que daremos.

Sinto falta de críticos literários, sinto falta da crítica literária ativista, intrometida, saliente. Atualmente, os críticos literários estão reduzidos a alguns poucos empregados em editoras e o fruto de seu trabalho é apenas para consumo interno. Os meios de comuniação praticamente descartaram esse profissional de suas equipes. Veja-se o "caderno de cultura", de muitos jornais, onde o mais próximo de uma crítica literária que se pode encontrar é uma sinopse, ou release - escrito por um jornalista - de um livro que está sendo lançado e que interessa a uma editora vender.

Os jornais, as revistas, os periódicos que se dedicam a tratar de literatura, trazem pouquíssimo material de crítica. O resultado é que vivemos numa "terra sem lei", num mundo sem referências. Falando especificamente da poesia, de repente "brotaram" poetas por todos os lados. Basta chutar uma pedra ou sacudir uma árvore para saltarem dez poetas diante de nós. Pessoas que acreditam-se, realmente, "poetas". Isto é muito perigoso. Perigoso para a educação, perigoso para a cultura, perigoso para a sociedade, pois, como ressalta Paul Ricoeur (Tempo e Narrativa. Tomo III. Campinas: Papirus, 1997), "quanto mais o leitor se irrealiza na leitura, mais profunda e mais distante será a influência da obra sobre a realidade social". E nossa realidade social não é nada boa e está muito precisada de "salutares" influências.

 Este fenômeno, da "explosão" de "poetas emergentes", é, paradoxalmente, acompanhado por outro: o da "implosão" de pessoas dedicadas a outras formas de expressão (veja-se a falta crônica de músicos, por exemplo, para atender às demandas das escolas, das orquestras, das bandas municipais etc.).

Acredito que este fato parte de uma impressão (falsa) que as pessoas têm a respeito da poesia: quando se escreve um poema ele, necessariamente, "contém" poesia.

Isto é um lêdo engado. Essa impressão vem, justamente, do desconhecimento da maioria da diferença entre poema e poesia.

A poesia pode, ou não, ser encontrada em uma dada manifestação cultural ou natural. A poesia pode ser encontrada, por exemplo, num pôr-do-sol, num sorriso, numa jogada que resulta em gol, num quadro, numa escultura, num espetáculo de dança, num show musical, num livro. Por isso, ao contrário do que muitos pensam (e afirmam), poesia não é sentimento: poesia é o que provoca o sentimento: o sentimento de beleza, de paz, de alegria, de tristeza, de revolta, de tudo!

Já o poema é o texto em si, que é reconhecido com esse nome/classificação por seguir determinadas regras: a distribuição em versos, a presença (ou não) de rimas internas e/ou externas, a uso de figuras de linguagem ou de recursos estilísticos, a forma como ocupa a folha, e outras.

Um poema pode, ou não, conter poesia. Um poema pode, ou não, suscitar um "sentimento" no leitor. Um poema pode, ou não, ser poético. Porém, o fato de um texto estar escrito em forma de poema não lhe confere, automaticamente, a indentidade de poesia.

Quanto a essa questão, sobre a diferença entre o que é poema e o que é poesia, é oportuno citar Norma Goldstein (Versos, sons, ritmos. 14ª ed. São Paulo: Ática, 2006):
Qual é a diferença entre poema e poesia?
O poema é um texto marcado por recursos sonoros e rítmicos. Geralmente o poema permite outras leituras, além da linear, pois sua organização sugere ao leitor a associação de palavras ou expressões posicionadas estrategicamente no texto.
A poesia está presente no poema, assim como em outras obras de arte, que, como o poema, convida o leitor/espectador/ouvinte a retornar à obra mais de uma vez, devesdando as pistas que ela apresenta para a interpretação de seus sentidos. (in: Poetas da escola - caderno do professor: orientação para produção de textos. São Paulo: Cenpec, s/d)
Essa confusão entre o que é poema e o que é poesia é, no meu entendimento, o que tem contribuído para que muitos que escrevem poemas, afirmem que seus escritos são poesia. Ouso afirmar que em 90% dos casos, não são. São apenas textos escritos em forma de versos e estrofes, estruturados como poema, onde, porém, não está presente a poesia.

Para essa pressa que muitas pessoas têm em dizerem-se "poetas", é bom ler (e refletir sobre) as palavras de José Paulo Paes (Quem, eu? - Um poeta como outro qualquer. 5ª ed. São Paulo: Atual, 1996):
(...) é a lucidez da técnica e da experiência do poeta - técnica e experiência cuja aquisição exige anos de leitura e de aplicação quase diária ao ofício de escrever - que irá desenvolver as sugestões oníricas em poemas acabados e compreensíveis. Enquanto o sonho é pessoal e só comove ou impressiona quem o sonhou, o poema tem de comover e impressionar, se não todas as pessoas que o leem, pelo menos aquelas cuja sensibilidade foi aprimorada pela leitura regular de poesia. (in: Poetas da escola - caderno do professor: orientação para produção de textos. São Paulo: Cenpec, s/d)
Essa "preparação" é largamente desprezada pelos "poetas emergentes", que insistem em afirmar que "poesia é sentimento" e esse entendimento, por si só, os deixa livres para chamar qualquer coisa que escrevem de "poesia". Por isso, deparamo-nos, regularmente, com textos mal escritos, mal trabalhados, mal talhados, mal tudo, que, no entanto, seus autores sentem-se prontos para defendê-los de qualquer crítica que se lhes faça e que concorra para esclarecer que aquele escrito, apesar da forma, não é poesia. Esse posicionamento chega a ser irritante! É irritante porque é aplicado apenas à poesia. E porque é tão fragilmente sustentado.

Todos concordam que para ser músico é preciso o dom (ou talento, ou predestinação, ou sei lá que nome se queira dar) e muito estudo; que para ser ator é preciso o dom e muito estudo; para ser pintor é preciso o dom e muito estudo; para ser escultor é preciso o dom e muito estudo; para ser dançarino é preciso o dom e muito estudo; para ser romancista é preciso o dom e muito estudo; para ser cantor é preciso o dom e muito estudo; para ser poeta é preciso saber escrever. E só. Não é necessário sequer saber ler. Porque, se todos lêssem o que escrevem, provavelmente seríamos poupados de muito material ruim que tem circulado e sido divulgado com o nome de "poesia".

Foi devido a essa percepção que tornei-me crítico: um crítico amador, evidentemente. Porém, uma pessoa com vontade de ajudar. Principalmente ajudar. Ajudar a quem? A quem escreve e a quem lê. A quem escreve com o propósito de fazer ver que o instrumento de que se serve para divulgar suas ideias, percepções, sentimentos, opiniões, o poema, exige instrumentalização, dedicação, "muito estudo". O poema é a poesia organizada, racionalizada, estruturada. O texto escrito irá servir de apoio e referência para muitas pessoas: desde educadores até aqueles de alma acamada. Além disso, o poema será o transmissor do "eu" do poeta, e o poeta precisa tratá-lo adequadamente, para que seja bem compreendido; ao leitor, com o propósito de alertá-lo sobre o que ainda não está pronto para o seu "consumo"; sobre o que ainda carece de lapidação, de arte-finalização. Ou sobre o que está ruim, mesmo, e não tem jeito: melhor nem chegar perto.

É difícil a arte de criticar. É um aprendizado doloroso. Doloroso porque vamos juntando muita ofensa pelo caminho, em função das opiniões que emitimos. No entanto, acho-a, realmente, necessária, fundamental para a melhoria da qualidade do material literário que é disponibilizado às gentes.

Por fim, deixo um recado a todos: se querem permanecer meus amigos, não submetam um texto seu à minha crítica, pois eu realmente critico: eu me importo, eu me preocupo, eu me envolvo, eu gosto de criticar! A despeito do que a pessoa possa pensar de mim. No entanto, deixo um alento: como disse de início, não sou um crítico "fundamentalista", por isso carrego comigo a  humildade para voltar atrás, para mudar de opinião, para buscar o escritor e perguntar o que ele quis dizer com aquilo que escreveu, por que escreveu de tal jeito, por que não utilizou este ou aquele recurso etc. Já que não sou detentor da verdade nem estou a soldo de Moscou ou Washington, estou livre para corrigir-me - e a isto chamo de Aprendizagem.

O que espero, de verdade, é que aqueles que escrevem respeitem a literatura e os leitores, e tratem com seriedade e profissionalismo esse "ofício sagrado" que é o de escrever poemas... com poesia.

Abraço a todos.

O Ente Maldito

P.S.: O título desta postagem, na parte em que se refere a Uma questão de ótica, a expressão "ótica" foi utilizada no sentido da afirmação de Francisco Moraes Paz (Na poética da História a realização da utopia nacional oitocentista. Curitiba: Ed. UFPR, 1996):
Enquanto o ver identifica-se com uma atitude passiva e confunde-se com um dócil deslizamento sobre as coisas, o olhar traduz uma atividade do sujeito, um desejo confesso de penetrar nas coisas, de ver de novo. Ao permanecer num nível superficial, a visão afasta-se das lacunas e das incoerências, e apreende uma suposta totalidade, uma aparente coesão; de forma desatenta, sugere a contração da subjetividade. Suspeitando desse primeiro nível, o olhar lança-se sobre os limites e interstícios da paisagem, no propósito de fragmentá-la. Rompendo com a superfície lisa da visão, o olhar ultrapassa o logro das aparências. (in: GOMES, Carla Renata de Souza: De Rio-Grandense a Gaúcho: o triunfo do avesso - Um processo de representação regional na literatura do século XIX (1847 - 1877). 1ª Ed. Editoras Associadas: Porto Alegre, 2009) (Grifos da autora).

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