domingo, 28 de outubro de 2012

APRENDIZAGEM E CRÍTICA: UMA QUESTÃO DE ÓTICA

Anton Ego, crítico gastronômico, personagem do filme de animação Ratatouille. (Disney/Buena Vista, 2007)

Para os que não sabem, gosto de criticar o trabalho literário alheio, apesar de não ser crítico literário. Para os que sabem, certamente já experimentaram um pouco da minha "pimenta nos seus olhos" (alguns, até, já me juraram de morte, mas acho que esse sentimento já está superado.).

Entretanto, não me julgo um "pit-bull" da crítica, não sou um crítico "fundamentalista", do tipo que se dispõe a atar um cinturão de bombas ao corpo e comparecer a um sarau pronto para explodir tudo, escritores e público, só porque não gosta do que produzem. Ainda assim, sou um tanto ácido. Mas acredito que criticar o trabalho de alguém sempre traz, como resultado, essa atitude de reação, de descontentamento, de contrariedade.

Alguns poucos que conhecem esse meu lado crítico, sabem que faço isso por amor à literatura, em especial à poesia, e por preocupação com os leitores, com o conteúdo que é oferecido a estes.

Sou de opinião de que a elevação social de um povo está diretamente ligada à qualidade da cultura que produz. Se uma sociedade produz lixo cultural, essa mesma sociedade se alimentará de lixo cultural e os futuros produtores de cultura reproduzirão esse lixo cultural, algumas vezes em escala maior do que a que era inicialmente produzida. O resultado é um povo sem referências positivas e sem vontades positivas, pois, como seres humanos que são, adaptam-se facilmente ao ambiente no qual estão inseridos e, se o ambiente é/está "poluído", mesmo que inadvertidamente, será mantido poluído, porque assim entendem essas pessoas que a vida é, que deva ser; muito similar ao que é representado pelo conceito do Complexo de Gabriela: eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim. E não podemos esquecer do conceito do Retorno Financeiro, também muito importante (se é que não mais importante): se é lixo que eles querem, lixo é o que daremos.

Sinto falta de críticos literários, sinto falta da crítica literária ativista, intrometida, saliente. Atualmente, os críticos literários estão reduzidos a alguns poucos empregados em editoras e o fruto de seu trabalho é apenas para consumo interno. Os meios de comuniação praticamente descartaram esse profissional de suas equipes. Veja-se o "caderno de cultura", de muitos jornais, onde o mais próximo de uma crítica literária que se pode encontrar é uma sinopse, ou release - escrito por um jornalista - de um livro que está sendo lançado e que interessa a uma editora vender.

Os jornais, as revistas, os periódicos que se dedicam a tratar de literatura, trazem pouquíssimo material de crítica. O resultado é que vivemos numa "terra sem lei", num mundo sem referências. Falando especificamente da poesia, de repente "brotaram" poetas por todos os lados. Basta chutar uma pedra ou sacudir uma árvore para saltarem dez poetas diante de nós. Pessoas que acreditam-se, realmente, "poetas". Isto é muito perigoso. Perigoso para a educação, perigoso para a cultura, perigoso para a sociedade, pois, como ressalta Paul Ricoeur (Tempo e Narrativa. Tomo III. Campinas: Papirus, 1997), "quanto mais o leitor se irrealiza na leitura, mais profunda e mais distante será a influência da obra sobre a realidade social". E nossa realidade social não é nada boa e está muito precisada de "salutares" influências.

 Este fenômeno, da "explosão" de "poetas emergentes", é, paradoxalmente, acompanhado por outro: o da "implosão" de pessoas dedicadas a outras formas de expressão (veja-se a falta crônica de músicos, por exemplo, para atender às demandas das escolas, das orquestras, das bandas municipais etc.).

Acredito que este fato parte de uma impressão (falsa) que as pessoas têm a respeito da poesia: quando se escreve um poema ele, necessariamente, "contém" poesia.

Isto é um lêdo engado. Essa impressão vem, justamente, do desconhecimento da maioria da diferença entre poema e poesia.

A poesia pode, ou não, ser encontrada em uma dada manifestação cultural ou natural. A poesia pode ser encontrada, por exemplo, num pôr-do-sol, num sorriso, numa jogada que resulta em gol, num quadro, numa escultura, num espetáculo de dança, num show musical, num livro. Por isso, ao contrário do que muitos pensam (e afirmam), poesia não é sentimento: poesia é o que provoca o sentimento: o sentimento de beleza, de paz, de alegria, de tristeza, de revolta, de tudo!

Já o poema é o texto em si, que é reconhecido com esse nome/classificação por seguir determinadas regras: a distribuição em versos, a presença (ou não) de rimas internas e/ou externas, a uso de figuras de linguagem ou de recursos estilísticos, a forma como ocupa a folha, e outras.

Um poema pode, ou não, conter poesia. Um poema pode, ou não, suscitar um "sentimento" no leitor. Um poema pode, ou não, ser poético. Porém, o fato de um texto estar escrito em forma de poema não lhe confere, automaticamente, a indentidade de poesia.

Quanto a essa questão, sobre a diferença entre o que é poema e o que é poesia, é oportuno citar Norma Goldstein (Versos, sons, ritmos. 14ª ed. São Paulo: Ática, 2006):
Qual é a diferença entre poema e poesia?
O poema é um texto marcado por recursos sonoros e rítmicos. Geralmente o poema permite outras leituras, além da linear, pois sua organização sugere ao leitor a associação de palavras ou expressões posicionadas estrategicamente no texto.
A poesia está presente no poema, assim como em outras obras de arte, que, como o poema, convida o leitor/espectador/ouvinte a retornar à obra mais de uma vez, devesdando as pistas que ela apresenta para a interpretação de seus sentidos. (in: Poetas da escola - caderno do professor: orientação para produção de textos. São Paulo: Cenpec, s/d)
Essa confusão entre o que é poema e o que é poesia é, no meu entendimento, o que tem contribuído para que muitos que escrevem poemas, afirmem que seus escritos são poesia. Ouso afirmar que em 90% dos casos, não são. São apenas textos escritos em forma de versos e estrofes, estruturados como poema, onde, porém, não está presente a poesia.

Para essa pressa que muitas pessoas têm em dizerem-se "poetas", é bom ler (e refletir sobre) as palavras de José Paulo Paes (Quem, eu? - Um poeta como outro qualquer. 5ª ed. São Paulo: Atual, 1996):
(...) é a lucidez da técnica e da experiência do poeta - técnica e experiência cuja aquisição exige anos de leitura e de aplicação quase diária ao ofício de escrever - que irá desenvolver as sugestões oníricas em poemas acabados e compreensíveis. Enquanto o sonho é pessoal e só comove ou impressiona quem o sonhou, o poema tem de comover e impressionar, se não todas as pessoas que o leem, pelo menos aquelas cuja sensibilidade foi aprimorada pela leitura regular de poesia. (in: Poetas da escola - caderno do professor: orientação para produção de textos. São Paulo: Cenpec, s/d)
Essa "preparação" é largamente desprezada pelos "poetas emergentes", que insistem em afirmar que "poesia é sentimento" e esse entendimento, por si só, os deixa livres para chamar qualquer coisa que escrevem de "poesia". Por isso, deparamo-nos, regularmente, com textos mal escritos, mal trabalhados, mal talhados, mal tudo, que, no entanto, seus autores sentem-se prontos para defendê-los de qualquer crítica que se lhes faça e que concorra para esclarecer que aquele escrito, apesar da forma, não é poesia. Esse posicionamento chega a ser irritante! É irritante porque é aplicado apenas à poesia. E porque é tão fragilmente sustentado.

Todos concordam que para ser músico é preciso o dom (ou talento, ou predestinação, ou sei lá que nome se queira dar) e muito estudo; que para ser ator é preciso o dom e muito estudo; para ser pintor é preciso o dom e muito estudo; para ser escultor é preciso o dom e muito estudo; para ser dançarino é preciso o dom e muito estudo; para ser romancista é preciso o dom e muito estudo; para ser cantor é preciso o dom e muito estudo; para ser poeta é preciso saber escrever. E só. Não é necessário sequer saber ler. Porque, se todos lêssem o que escrevem, provavelmente seríamos poupados de muito material ruim que tem circulado e sido divulgado com o nome de "poesia".

Foi devido a essa percepção que tornei-me crítico: um crítico amador, evidentemente. Porém, uma pessoa com vontade de ajudar. Principalmente ajudar. Ajudar a quem? A quem escreve e a quem lê. A quem escreve com o propósito de fazer ver que o instrumento de que se serve para divulgar suas ideias, percepções, sentimentos, opiniões, o poema, exige instrumentalização, dedicação, "muito estudo". O poema é a poesia organizada, racionalizada, estruturada. O texto escrito irá servir de apoio e referência para muitas pessoas: desde educadores até aqueles de alma acamada. Além disso, o poema será o transmissor do "eu" do poeta, e o poeta precisa tratá-lo adequadamente, para que seja bem compreendido; ao leitor, com o propósito de alertá-lo sobre o que ainda não está pronto para o seu "consumo"; sobre o que ainda carece de lapidação, de arte-finalização. Ou sobre o que está ruim, mesmo, e não tem jeito: melhor nem chegar perto.

É difícil a arte de criticar. É um aprendizado doloroso. Doloroso porque vamos juntando muita ofensa pelo caminho, em função das opiniões que emitimos. No entanto, acho-a, realmente, necessária, fundamental para a melhoria da qualidade do material literário que é disponibilizado às gentes.

Por fim, deixo um recado a todos: se querem permanecer meus amigos, não submetam um texto seu à minha crítica, pois eu realmente critico: eu me importo, eu me preocupo, eu me envolvo, eu gosto de criticar! A despeito do que a pessoa possa pensar de mim. No entanto, deixo um alento: como disse de início, não sou um crítico "fundamentalista", por isso carrego comigo a  humildade para voltar atrás, para mudar de opinião, para buscar o escritor e perguntar o que ele quis dizer com aquilo que escreveu, por que escreveu de tal jeito, por que não utilizou este ou aquele recurso etc. Já que não sou detentor da verdade nem estou a soldo de Moscou ou Washington, estou livre para corrigir-me - e a isto chamo de Aprendizagem.

O que espero, de verdade, é que aqueles que escrevem respeitem a literatura e os leitores, e tratem com seriedade e profissionalismo esse "ofício sagrado" que é o de escrever poemas... com poesia.

Abraço a todos.

O Ente Maldito

P.S.: O título desta postagem, na parte em que se refere a Uma questão de ótica, a expressão "ótica" foi utilizada no sentido da afirmação de Francisco Moraes Paz (Na poética da História a realização da utopia nacional oitocentista. Curitiba: Ed. UFPR, 1996):
Enquanto o ver identifica-se com uma atitude passiva e confunde-se com um dócil deslizamento sobre as coisas, o olhar traduz uma atividade do sujeito, um desejo confesso de penetrar nas coisas, de ver de novo. Ao permanecer num nível superficial, a visão afasta-se das lacunas e das incoerências, e apreende uma suposta totalidade, uma aparente coesão; de forma desatenta, sugere a contração da subjetividade. Suspeitando desse primeiro nível, o olhar lança-se sobre os limites e interstícios da paisagem, no propósito de fragmentá-la. Rompendo com a superfície lisa da visão, o olhar ultrapassa o logro das aparências. (in: GOMES, Carla Renata de Souza: De Rio-Grandense a Gaúcho: o triunfo do avesso - Um processo de representação regional na literatura do século XIX (1847 - 1877). 1ª Ed. Editoras Associadas: Porto Alegre, 2009) (Grifos da autora).

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

SALVEMOS OS ÍNDIOS GUARANI-KAIOWÁ

Para todos os que visitam este blog, faço um apelo: leiam o texto abaixo e, se julgarem que isto é da sua conta, assinem a petição que está disponível neste endereço:

Salvemos os índios Guarani-Kaiowá - URGENTE!


Por que isto é importante

Leia, abaixo, carta de socorro da comunidade Guarani-Kaiowá. Os índios da etnia Guarani-Kaiowá estão correndo sério risco de GENOCÍDIO, com total omissão da mídia local e nacional e permissão do governo. Se você tem consciência de que este sangue não pode ser derramado, assine esta petição. Exija conosco cobertura da mídia sobre o caso e ação urgente do governo DILMA e do governador ANDRÉ PUCCINELLI, para que impeçam tais matanças e junto com elas a extinção desse povo. CARTA:

"Nós (50 homens, 50 mulheres, 70 crianças) comunidades Guarani-Kaiowá originárias de tekoha Pyelito kue/Mbrakay, vimos através desta carta apresentar a nossa situação histórica e decisão definitiva diante de despacho/ordem de nossa expulsão/despejo expressado pela Justiça Federal de Navirai-MS, conforme o processo nº 0000032-87.2012.4.03.6006, em 29/09/2012.

Recebemos esta informação de que nós comunidades, logo seremos atacada, violentada e expulsa da margem do rio pela própria Justiça Federal de Navirai-MS. Assim, fica evidente para nós, que a própria ação da Justiça Federal gera e aumenta as violências contra as nossas vidas, ignorando os nossos direitos de sobreviver na margem de um rio e próximo de nosso território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay.

Assim, entendemos claramente que esta decisão da Justiça Federal de Navirai-MS é parte da ação de genocídio/extermínio histórico de povo indígena/nativo/autóctone do MS/Brasil, isto é, a própria ação da Justiça Federal está violentando e exterminado e as nossas vidas. Queremos deixar evidente ao Governo e Justiça Federal que por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo, não acreditamos mais na Justiça Brasileira.

A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas?? Para qual Justiça do Brasil?? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós. Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos mesmo em pouco tempo, não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados 50 metros de rio Hovy onde já ocorreram 4 mortos, sendo 2 morreram por meio de suicídio, 2 morte em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas. Moramos na margem deste rio Hovy há mais de um (01) ano, estamos sem assistência nenhuma, isolada, cercado de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Tudo isso passamos dia-a-dia para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay.

De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários os nossos avôs e avós, bisavôs e bisavós, ali estão o cemitérios de todos nossos antepassados. Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser morto e enterrado junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao Governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui. Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação/extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais.

Já aguardamos esta decisão da Justiça Federal, Assim, é para decretar a nossa morte coletiva Guarani e Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay e para enterrar-nos todos aqui. Visto que decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem morto e sabemos que não temos mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo de modo acelerado. Sabemos que seremos expulsas daqui da margem do rio pela justiça, porém não vamos sair da margem do rio. Como um povo nativo/indígena histórico, decidimos meramente em ser morto coletivamente aqui. Não temos outra opção, esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS.''

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

NA CONTRAMÃO


Sempre no caminho do atraso, na contramão da história, quando todos esforçam-se pela liberdade na internet, a Prefeitura de Porto Alegre dá mais um mau exemplo ao mundo: a obrigação de, para acessar determinados conteúdos de seu site, o utilizador ter de instalar o navegador Internet Explorer, da Microsoft.

Lidar com gente tacanha é fogo!

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O AMOR DEPOIS DO AMOR


          Coração partido tem cura? A resposta, quase que imediata, que sempre vem é: para curar um amor que se foi, só com outro amor. Apesar de parecer lugar-comum, a experiência da vida tem mostrado que é assim mesmo. Daí vem outra pergunta: mas e o amor que antes havia, que parecia ser para sempre, indestrutível, pelo qual sofremos horrores, então era o quê? Não era amor? Era um engano? A resposta é: não, não era um engano, era amor, realmente. O que acontece é que nós, seres humanos, quando somos dotados de um mínimo de autoestima, procuramos maneiras de suportar a dor provocada pela perda da pessoa amada. Essas maneiras são tão variadas quanto o número de pessoas que há na terra, já que não há uma receita para curar, ou, ao menos, atenuar, o sofrimento.

"Oh, pedaço de mim,
 Oh, metade adorada de mim,
 Lava os olhos meus
 Que a saudade é o pior castigo
 E eu não quero levar comigo
 A mortalha do amor,
 Adeus."  (Pedaço de Mim, Chico Buarque de Hollanda)

          Uma dessas saídas é o encaramujamento, ou, para parodiar Machado de Assis, o "encasmurramento": a pessoa "entra" para dentro de si, ergue muros gigantescos, passa mil cadeados e correntes nos acessos possíveis e lá deposita o seu sentir sagrado, na esperança de que fique protegido, que ninguém mais venha machucá-lo novamente. E, na maioria dos casos, realmente consegue. O que é uma lástima.

          Entretanto, a vida tem lá suas sabedorias que nossa vã filosofia não alcança.

          Algumas vezes, depois de passar por uma dor tão intensa como é a dor do fim do muito amar, algumas pessoas buscam, além da proteção do sentimento amoroso que nelas existe, alternativas como escrever, dançar, tocar um instrumento, participar de grupos socialmente ativos, trabalhos volutários, e outras. Durante esse processo, a pessoa vai modificando, vai tornando-se maleável, suscetível. E, novamente, sensível.

          No mais das vezes, esse processo não é percebido pelo próprio indivíduo, que vê-se como uma rocha, ou uma ilha: inalcançável. Mas é percebido pelos outros. Sem saber, suas atitudes estão sendo observadas. E estão encantando alguém.

          Esse alguém pode saber do que se passou na vida desta pessoa e o quanto isso o magoou, por isso, procura aproximar-se com jeito, devagar, para não assustar o bichinho. Algumas vezes funciona, outras não. É uma situação para lá de imprevisível.

          Estou falando nisto pois chamou-me a atenção o depoimento de um amigo, que postou no Facebook sua alegria de estar comemorando quatro anos ao lado de um novo amor. Suas palavras (ipsis literis):

          "Hoje faz quatro anos que a conheci. Ou melhor, que começamos a nos conhecer melhor, porque já tínhamos passado outras vezes um perto do outro, e nunca trocamos sequer uma palavra. Uma pergunta minha sobre um livro específico e a resposta dela que fez eu perceber que o amor ainda podia dar outra chance para mim e encerrar meu período de reclusão e abrir novamente as janelas do meu coração."

          Bem assim! Tão casual, tão sem querer. Será? Talvez para ele, que tanta atenção dispensava às suas "trancas". Mas, como disse antes, não para os outros. E continua, em outro trecho:

          "Digo janelas e não portas porque quando sofremos muito por amor, temos medo de abrir nosso coração por completo, então vamos aos poucos escancarando nossos sentimentos, pelo trauma e pelo medo de sofrer novamente, e talvez até com uma dor maior."

          (...)

         "A partir do meu encontro com ela passei a escrever com mais freqüência e com mais motivação. Hoje sou poeta, romancista e ensaísta, mas antes de tudo, sou um homem que ama muito e é amado na mesma proporção. Os momentos que passamos juntos, as carícias que trocamos, as palavras de carinho ao pé do ouvido, enfim, todos esses elementos constituem a grandeza do nosso sentimento e me faz pensar que ainda vale a pena cultivar o amor, ele é o meu antídoto contra as tristezas deste mundo e contra as hipocrisias de algumas pessoas."

         (...)

          "Hoje, com certeza, posso dizer que o amor existe de verdade e que a vida, apesar das peças que nos prega, sempre nos dá uma outra chance para ser feliz."

          Que belo depoimento! Isto é um alento para todos os que pensam que, quando um amor se vai, outro não mais virá; que nunca mais será possível viver um amor tão intenso quanto aquele que passou.

          Este novo amor que chega, com certeza, não será em nada igual ao anterior, mas ainda assim será amor, um grande amor: com uma nova roupagem, com outra cara, com outro jeito, mas sempre o bom e velho e esperado e querido e permanente amor.

          Sei que, atualmente, muitas pessoas não conseguem vislumbrar o acontecido com meu amigo, acontecendo em suas vidas. Realmente, isto pode tratar-se de um raro acontecimento. As pessoas inventam as mais variadas "razões" para afirmar que comigo não. Esquecem-se que, enquanto quiserem, de verdade, que não aconteça, não acontecerá.

          Penso que a vida é muito preciosa para que alguém desista de si mesmo e entregue-se voluntariamente ao abandono.

          Ok, ok, sempre há aqueles casos de cruzar alguém em nossa vida e nos atrairmos loucamente e, então, num vacilo, quando decidimos entregarmo-nos de corpo e alma, percebemos que a situação em que nos metemos é como aquela da poesia do Drummond: "João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava...". No entanto, acho que não devemos recusar em nossa vida a chance de um recomeço, de um novo sentir.

          Para aquelas pessoas para quem é insuportável viver sem dar e receber amor, esta escolha seria devastadora.

          Portanto, dê-se uma chance. Mais uma vez. Vale a pena. Veja o exemplo do meu amigo. Não planeje, pois quem planeja amar, no fim, descobre que o que ama mesmo é planejar, não amar. Deixe-se, solte-se, viva-se.

          Ninguém passa incólume em meio a multidão, ninguém é o tempo todo anônimo. Sempre haverá um coração que irá notar-te.

          Boa sorte para ti, que não sei quem és, mas que estás lendo este texto, agora, e estás vivendo uma situação semelhante a relatada nesta postagem. Boa sorte.

          E para ti, meu amigo, parabéns! Estou no time dos que, por enquanto, te invejam a dádiva alcançada pela vida - por certo fizeste por merecer. Mas, no meu time, sou centro-avante, e vim para fazer gol! Então, não me derrube, pois estou sempre na área e, se derrubar, é penalti!

O Ente Maldito

domingo, 14 de outubro de 2012

PARA MI VIEJO QUERIDO - POESIA



Aproveitando a passagem do dia da criança, uma poesia em homenagem ao meu pai.

PARA MI VIEJO QUERIDO
 
Cala-te, folha
amarela e quebradiça!
Que até o vento
tem preguiça
de carregar tua alma.
 
Cala-te, memória
rota e esmaecida!
Que nem a história
dá guarida
ao teu insignificante passar.
 
Vai, corpo!
Cumpre tua jornada!
Que aqui não tens mais nada
para fazer nem para deixar.
 
Anda, resto! Caminha!
Dobrou-te, a vida, a espinha
Para que pudesses ver de perto
o caminho onde pisas
transformar-se todo em deserto!
 
Vai, sombra!
Alma ruim!
De ti não ficará,
em mim,
nenhuma sobra.

Até a terra te expulsa do seu leito
e não te dá sequer o direito
de nela repousar.
 
Passa, coleção de Nadas, passa!
Felizmente acaba a tua estada
e vais...
Vais por nada...
Vais para sempre...
Vais para não vires...
Nunca...
Nunca mais!

DE MEMÓRIA - CONTO




DE MEMÓRIA

“Não te preocupes com a morte, meu amor; preocupa-te com a vida: a vida que deixas de viver.”

               Talvez fosse isso mesmo o que eu quisesse sentir. Talvez eu não estivesse me enganando, mentido para mim, espalhando boatos a meu respeito. Talvez eu estivesse certo de que era isso mesmo o que queria, que não poderia ser outra coisa, que era tão óbvio, tão de certeza, que não havia nem o que pensar, nem o que refletir. Ou talvez não. Talvez eu não estivesse certo de nada. Talvez fosse tudo alguma coisa para a qual eu não sabia dar um nome. Talvez eu não soubesse sequer por que estou neste ônibus, sacolejando, olhando com olhar de enfado para a paisagem que vai passando, por onde meus olhos sequer se dão ao trabalho de passar também, tão preocupados estão em olhar para dentro, tão ligados aos pensamentos que não enxergam o que passa à sua frente. Aquele outro passageiro, ali, naquela outra poltrona, mais para frente um pouco, dormindo, pode ser até que ele esteja aproveitando a viajem melhor do que eu, que não saio de mim, que não sei nem dar nome às coisas que sinto, assim, de certeza, daí...
               Daí as imagens que eu via não eram imagens do que existe, do mundo material que me rodeia, repleto de coisas e pessoas e bichos, que eu toco, que eu vejo, que eu tenho certeza do que são, como se parecem, que eu posso até descrevê-las; eram imagens que vinham de algum lugar fora da memória, de alguma outra memória que não a memória de lembrança, mas a memória de sentimento, aquela memória que distorce as coisas, que transforma uma grande árvore num arbusto, uma avenida numa rua, um dia nublado num lindo dia de sol, tão raro nesta época do ano. Então a lembrança não era bem uma lembrança, talvez fosse aquilo que chamamos saudade, não saudade de uma coisa, não saudade de um lugar, mas saudade (ou lembrança, ou memória) do que foi sentido, do que foi vivido, daí...
               Daí eu estava parado diante de uma rua, na entrada dela, não sei se era o começo ou o fim, para mim era o começo, pois preparava-me para percorrê-la, e eu estava parado diante da rua, medindo-a, tentando enxergar o fim - o fim da rua, ou da avenida, ou do caminho, ou da estrada (poderia ser uma estrada), tão longa ela parecia. Eu estava parado diante dela, eu dizia, e a media, também dizia, como um agrimensor que olha para uma grande quadra de terras para avaliar não a sua extensão, mas o tamanho do esforço necessário para percorrê-la, e depois faz as contas e vai falar com o dono das terras e diz: “Olha, o trabalho vai custar tanto e é bom que se precavenha, pois não vai encontrar preço melhor do que este que estou lhe oferecendo.”, ou talvez não fosse nada disso, talvez, de novo, meu olho não estivesse vendo o que via, talvez estivesse vendo a árvore que parece ser ainda a mesma, apesar de já terem se passado tantos anos, como se nenhuma folha lhe faltasse, nenhum galho lhe tivesse sido cortado (nem pelo homem, nem pelo vento, nem pelo raio), ou, talvez, estivesse prestando atenção naquela moça que recolhe os pratos e os talheres e os copos e as baixelas deixadas por outras pessoas, sobre a mesa do restaurante onde trabalha, e no qual, agora, entrou ainda mais para dentro, lá para o fundo, onde fica o balcão e um homem fala com ela e chama, em seguida, uma outra para que pegue o que a primeira carrega nos braços, braços cuja pele que os recobre é tão branca que quase dói só de olhar, não por ser tão alva, mas por parecer tão triste; e leve aquela louça toda para algum lugar, onde será lavada, e onde os restos da comida deixada nos pratos e nas baixelas serão jogados no lixo, para alimentar outras pessoas, aquelas outras que não têm dinheiro para vir no restaurante deste homem, que parece ser o dono, e que, agora, bem agora, alcançou para a primeira, que ainda esperava diante do balcão, uma vassoura, que ela pega com destreza e vai varrendo as migalhas que ficaram caídas pelo chão, em volta das mesas, embaixo das cadeiras, e que se misturam com a poeira trazida pelo vento, ou pelos calçados das pessoas que têm dinheiro e são recebidas pelo dono do restaurante para comer lá dentro, em pratos limpos, com talheres limpos, a comida que é servida em baixelas limpas, não a que vem do lixo, daí...
               Daí, talvez, eu tenha reparado no olhar desse homem, que parece tão severo, que tem tantas marcas evidentes no olhar que bem se pode ver que está doente, que no entanto não vai para casa tomar uma xícara de chá com limão e mel, e um anti-térmico, e depois deitar-se, bem abrigado, e dormir-se e esperar que, quando acorde, todas as dores, todas as tristezas, todas as mágoas que o adoentaram a ponto de deixá-lo assim, tão severo consigo, com os outros, tenham ido embora e ele agora esteja bem, sentindo-se forte, respirando fundo, aproveitando todo o ar disponível no mundo e que, agora, ele pode sentir tão bem, entrando-lhe pelos pulmões, fazendo-lhe o coração bater com vontade, o sangue correr decidido pelas veias, que, agora, não estão mais entupidas. E é tanta vida que lhe entra corpo a dentro que até o seu olhar parece diferente, mais claro, mais limpo, brilhante, alegre, como os pratos e as baixelas e os talheres e os copos que aquela outra moça que ele chamou, não esta que está varrendo, mas a outra, a segunda, lavou e, agora, colocou no escorredor para que sequem e possam ser usados novamente; e ele trata a todos com gentileza, com prazer, pois está curado, está vivo, daí...
               Daí os meus passos vão exitantes, pela rua (ou avenida, ou caminho, ou estrada - bem poderia ser uma estrada) que percorro, como se o calçamento fosse apenas um disfarce a encobrir um precipício que se abre logo ali adiante, e as minhas pernas chegam mesmo a tremer, então aperto-as com as mãos para certificar-me de que não é nada, nenhum problema físico, que estou bem, que posso continuar andando, mas, então, penso que poderia desistir de tudo, que poderia dar meia volta e nem ver o olhar daquele homem, nem aquela moça, nem aquela árvore, que poderia sacolejar de novo naquele ônibus, mas, desta vez, sem olhar para dentro, sem enfado, apenas ocupado em não pensar, em esquecer, mas esquecer mesmo, esquecer com força, tudo, definitivamente. E voltar no tempo e mudar o rumo da história, secar a fonte, não como estou fazendo agora que já cheguei ao fim da rua e estou diante de uma praça, uma praça da qual não lembrava, ou lembrava, mas não era assim que lembrava, porque lembrava com a outra memória, não a memória de lembrança, não a memória que é possível apagar, a memória que se pode “perder”, mas aquela que não nos deixa esquecer de nada, tão ligada está ao que somos, ao que vivemos. E daqui de onde estou, agora, parado novamente, ridiculamente parado, como se estivesse com medo de atravessar esta praça, como se ela fosse uma densa e perigosa floresta, cheia de encantos mas cheia de mistérios, também, penso que se andar bem devagar, que se demorar bastante, talvez, quando chegar ao outro lado, o sol já tenha se posto, a noite já tenha coberto o mundo de sombras e o velhinho que cuida do portão que dá acesso ao lugar que, talvez, eu queira ir, não me deixe entrar, que me diga: “Desculpa, moço, mas já fechamos, volte amanhã, passar bem.”, daquele jeito que só os velhinhos têm para dizer as coisas, assim, de uma maneira tão simples mas tão direta, comovente, se poderia dizer, ajudados pela experiência de uma vida inteira de convívio com as pessoas, algumas, até, que nem existem mais. Talvez, se eu andar bem devagar, ou se eu sentar um pouco, se acender um cigarro e ficar olhando as árvores, ouvindo os pássaros, talvez, então, eu não chegue ao lugar e tudo passe e eu perceba que foi tudo um sonho, que, na verdade, eu não estou aqui, que nada disto jamais existiu, nem aquele lugar, nem aquele velhinho, nem esta praça, nem isto que estou sentindo e que acelera meu coração de um jeito que parece que terei um infarto fulminante a qualquer momento, que faz com que o suor encharque a minha testa e escorra pelo meu rosto de tal maneira que tenho, até, que enxugar o olho e me preocupar com o que as pessoas possam estar pensando de mim, ali, parado daquele jeito, naquela pose esquisita, que não vão pensar que estou chorando, apesar de estar chorando, sim, mas que não pensem isso, que não percebam que estou enxugando lágrimas, é só o suor, só o suor. Eu sei que pode parecer estranho uma pessoa suar tanto num dia frio como este, mas o problema não é o calor de fora, o problema é o calor de dentro, daí...
               Daí eu cheguei, o velhinho me deu boa tarde com um sorriso, como se lembrasse de mim, - “Simpático, esse velhinho.”, eu pensei -, e deixou-me entrar. Então eu entrei e pude ver que nada havia mudado, que estava tudo exatamente como eu lembrava, como eu lembrava não com a memória essa que lembra das coisas, dos lugares, das pessoas, mas com aquela outra, aquela que não se apaga. E como um cão farejador fui procurando o local exato, o ponto onde tudo começou, o ponto de onde partiu tudo isso que, agora, sinto e que, desde então, tornou-se o todo de minha vida, minha orientação e minha desorientação, minha saúde e minha doença, minha paz e minha guerra, daí...
               Daí dei mais um passo e, enfim, o encontrei. Cheguei! Foi aqui, exatamente aqui. É daqui que veio tudo, daqui que brotou. Foi aqui, exatamente aqui, que um dia, um dia como este dia, num final de dia como neste final de dia, que pela primeira vez a vi, daí...

João Antônio Pereira
Porto Alegre, 3 de agosto de 2012

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domingo, 7 de outubro de 2012

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