quinta-feira, 13 de setembro de 2012

SOMBRA DA TARDE - POESIA



Eu gostava de sentar-me à sua sombra
e recostar-me em seu tronco
enquanto a tarde passava
branca e ensolarada
sobre nossas copas.
Ao redor, as pessoas passeavam distraídas,
cuidando de suas coisas
como quem cuida de vidas
singulares e quase extintas.
Foi numa dessas tardes vadias
enquanto, mergulhado na leitura de um livro
era levado para longe de mim, dali, de tudo,
que notei sua primeira lágrima:
uma folha quebradiça, escurecida,
caída - ao meu lado - sem vida.

Depois caíram outras
e outras
e outras
até que caíssem todas
e não restassem mais
do que galhos pelados
apontando para algum lugar
impreciso no céu.

Tardes e tardes passaram sobre nossas copas
extintas - brancas e ensolaradas -
até que o vento levasse - uma a uma -
as lágrimas todas para morrerem afogadas
nas tranqüilas águas
do lago.

Ainda assim, eu gostava de sentar-me à sombra
do seu tronco e dos seus galhos
e recostar-me nela
como se me recostasse no trono sagrado
do rei de um remoto reino perdido.
E ficar sentindo o cheiro de suas tardes
que descansavam terrosas e escuras
e cobriam o chão à minha volta.

Não estava quando vieram levá-la.
Soube por uns que estava condenada.
“Condenada a quê?”, quis saber,
“À morte.”, me disseram.
Nos dias que se seguiram
eles vieram e levaram as outras.
“Por quê?”, quis saber,
“Para salvá-las.”, responderam.

Em seus lugares, então, vi brotarem
bancos de pedra, postes de luz.
bebedouros, caminhos de cimento,
quadras de esportes, pista de skate,
estátuas, totens, placas,
bancas de revistas, de cachorro-quente,
de algodão-doce, de artesanato.

Pedi que colocassem alguma sombra,
n’algum lugar, onde pudesse sentar-me
e sentir o cheiro terroso da tarde
branca e ensolarada
pousada sobre nossas copas
projetadas sobre o lago de tranqüilas águas.
“Não é possível.”, me disseram,
“Por quê?”, perguntei,
“Retiramos todas as árvores.”, responderam.
Pedi, então, que me levassem, também.
“Para onde?”, quiseram saber,
“Para onde levam os condenados.”, respondi,
“Condenados a quê?”, perguntaram,
“A morrer.”
.
.
.
E eles riram.



Pero Vás

Um comentário:

  1. O julgamento da humanidade


    A inocência, a sabedoria, a esperança e a fé reuniram-se pela última vez. Em pauta: o julgamento da humanidade. Todas chegaram à conclusão de que deveriam abandonar o homem e deixá-lo entregue a própria sorte.
    A inocência afirmou:
    – O homem sempre soube o que estava fazendo e nunca se responsabilizou por suas barbáries!
    A sabedoria enumerou algumas causas que levaram o homem ao seu desfecho:
    – Ao descobrir o fogo, o homem sentenciou sua própria existência. Aprendeu a controlar o elemento que o tornaria senhor entre as criaturas. Entretanto, ele usou arbitrariamente (armas atômicas) contra o seu irmão!
    A esperança que estava ao lado da fé desabafou:
    – E essa criatura que denomina-se “racional” sempre foi incapaz de enxergar a si próprio e ao seu semelhante.
    E continuou:
    – Até eu mesma senti que não lhe restava mais esperança!
    A fé, que até aquele momento se encontrava calada, levantou-se. Convidou a todas para irem até o jardim onde revelaria o seu ponto de vista:
    – Quando o homem ainda engatinhava, você o amava, inocência. Contudo, não lhe foi fiel quando ele desviou para o caminho do mal.
    Concluiu:
    – E você, sabedoria o encheu de novas descobertas e curas. Agora que a criação se rebelou, você a acusa?
    – Quanto a você, esperança, sua culpa lhe cai em dobro, pois vivia alimentando-o com falsas promessas.
    Todas estavam cabisbaixas ao perceberem sua parcela de culpa. Subitamente elas perguntaram-lhe uníssonas:
    – E quanto a você... Qual a sua parcela de culpa?
    Com a voz embargada a fé respondeu:
    – “A fé remove montanhas...”. Infelizmente a humanidade me outorgou uma missão, que até hoje eu nunca pude cumprir...



    *Agamenon Troyan









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