domingo, 29 de julho de 2012

A CHUVA DANÇOU NA ESQUINA - POESIA



A CHUVA DANÇOU NA ESQUINA


Bah, cara!
Tu tinha que ver!
Tu tinha que estar lá - comigo -
para ver!
Era de noite.
Uma noite ordinária,
como costumam ser as noites
quando se está sozinho.
Eu estava encostado em um poste,
um poste que tinha uma lâmpada,
uma lâmpada que emanava uma luz,
uma luz que iluminava
uma ínfima porção do planeta.
Mais especificamente, eu estava no planeta Terra.
Mais especificamente, na América do Sul.
Mais especificamente, no Brasil.
Mais especificamente, no Rio Grande do Sul.
Mais especificamente, em Porto Alegre.
Mais especificamente, no Centro Histórico.
Mais especificamente, no cruzamento
da rua dos Andradas com a General Portinho.
Mais especificamente, na calçada, lado direito
de quem sobe em direção à
rua Riachuelo.
Eu estava ali, cara. Viajando. Na minha.
Tomando uma cerva.
Então eu senti um pingo que bateu no meu
rosto.
Bah, daí eu olhei para cima.
E vi, cara! Que viajem!
Eu vi mais pingos que caiam.
E eles pareciam que dançavam.
Juro, meu! Juro! Os pingos,
eles pareciam que dançavam!
E eu fiquei ali, olhando para cima,
olhando aqueles pingos dançarinos.
Bah, meu! Que viajem!
De repente, me senti
como se
o que
estivesse acontecendo
comigo,
fosse a cena de um filme,
um filme que eu já tinha visto,
mas que nunca tinha vivido.
Parecia um filme, cara, eu juro!
E senti uma vontade de chorar, meu!
Não sei por que.
Sei lá, saca? As lágrimas, cara,
as lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto.
Junto com a chuva, meu.
Bah...
E eu chorava mas também estava sorrindo.
Porque aquilo parecia encantamento, cara!
Parecia mesmo. Um encantamento.
Como se eu estivesse descobrindo algum
segredo
do mundo.
Uma história secreta do Universo.
Sei lá!
Uma história dentro da minha história.
Bah, eu não tava legal, cara! Eu não tava legal.
Mas, de repente, eu fiquei contente,
fiquei faceiro, de repente, assim.
Não sei, meu, não sei o que me deu.
Foi uma felicidade que veio vindo, assim, saca?
Que veio subindo
                                   enquanto
                    eu
                            via
                                           a
                     chuva
caindo.
                              A
                                             chuva
              dançando.


Daí me chamaram.
Alguém.
Não lembro.
Alguém disse: “Tá te molhando aí, João!”
E daí acabou. Acabou, cara. Sei lá!
De repente.
Foi-se o encantamento.
O filme, a história, o segredo
que o Universo sussurrava...
Ficou só eu, de novo, de noite.
E o poste.
E a lâmpada no poste.
E a luz na lâmpada no poste.
E a calçada - lado direito de quem sobe, em direção à rua Riachelo.
E a esquina da rua dos Andradas com a General Portinho.
O Centro Histórico.
Porto Alegre.
E o resto, que tu já sabe.
Que pena, cara, que pena.
Por um momento, por um pentelhésimo de segundo,
eu pensei que vivia
noutro mundo.
Por um momento, cara!
Um mísero momento.
Eu vivi, cara!
Eu juro!
O encantamento!
De noite. Por um segundo.
Quando estava só - eu não tava legal.
Numa pequena porção de terra do mundo.


Autista Baptista

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