segunda-feira, 25 de junho de 2012

POESIA - DEPOIS DAS DUAS


 

DEPOIS DAS DUAS

Depois das duas não há mais cheiros
de folhas de louro, de dentes de alho,
de cebolas, de pão, de massas ao molho.

Depois das duas não há mais sons
de conversas, de risos, de talheres,
de líquidos derramando-se nas taças.

Depois das duas os raios de sol
são hipotenusas estendidas
dos olhos ao chão.
A sombra em ângulo reto com o corpo
ereto como um cateto oposto.

Depois das duas o prazer fez
parte da vida e agora faz
parte do tempo que depois fará
parte da história - no fim
da história do tempo da vida da gente.

Depois das duas:
pernas, pra que te quero?
Pra buscar a vaca que foi pro brejo,
pra tirar o pai da forca,
pra chutar o pau da barraca,
pra sair dando nas canela,
porque aqui, quem não corre, voa;
porque aqui, cortam-se asas
- as duas, pontualmente às duas.

Depois das duas, só
depois das seis.


Autista Baptista

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