domingo, 13 de maio de 2012

FELIZ DIA DAS MÃES



Minha primeira lágrima caiu dentro do teu olho.
Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído.
No dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva,
modelada pela noite, pelas estrelas, pelas minhas mãos.
Exalava-se de ti o mesmo frio do orvalho; a mesma claridade da lua.
Vi aquele dia levantar-se inutilmente para as tuas pálpebras
e a voz dos pássaros e a das águas a correr,
sem que a recolhesses em teus ouvidos inertes.
Onde ficou teu outro corpo? Na parede? Nos móveis? No teto?
Inclinei-me sobre o teu rosto, absoluto, como um espelho.
E tristemente te procurava.
Mas também isso foi inútil, como tudo mais.
(...)
Minha tristeza é não poder mostrar-te as nuvens brancas,
e as flores novas, como aroma em brasa,
com suas coroas crepitantes de abelhas.
Teus olhos sorririam,
agradecendo a Deus o céu e a terra:
eu sentiria teu coração feliz
como um campo onde choveu.
Minha tristeza é não poder acompanhar contigo
o desenho das pombas voantes,
o destino dos trens pelas montanhas
e o brilho tênue de cada estrela
brotando à margem do crepúsculo.
Tomarias o luar nas tuas mãos,
fortes e simples como as pedras,
e dirias apenas: ‘Como vem tão clarinho!’
E nesse luar das tuas mãos se banharia a minha vida,
sem perturbar sua claridade,
mas também sem diminuir minha tristeza.

(Trechos de Elegia, de Cecília Meireles)

2 comentários:

  1. Maravilhoso post...Foto e "Trechos de Elegia, de Cecília Meireles"...Muito lindo!!
    Abraços!!
    Julieta CKB - 13.05.2012

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