terça-feira, 11 de outubro de 2011

VANUSA E O UTOPISTA


Desde a terrível interpretação do Hino Nacional, durante evento na Assembléia Legislativa de São Paulo, Vanusa tem sido apontada como descompensada, como a vovózinha do pop nacional que já está mais do que na hora de se aposentar, sair de cena, sumir, calar-se, para que nos esqueçamos de quem ela é e fiquemos somente com a imagem do que foi.
Talvez isso seja verdade. Talvez seja mesmo a hora dela acomodar-se no "Retiro dos Bons Velhinhos", que é o lugar para onde as pessoas são "mandadas" depois que atingem uma idade avançada. Lá, nesse "Retiro", os "bons velhinhos" reconhecem que seu "tempo passou" e conformam-se, quietinhos, de que não devem mais vir a público, pois só iriam dar vexame, pagar micão e o que tinham a acrescentar, já acrescentaram: agora chega, acabou.
Infelizmente, a cultura ocidental moldou-se ao padrão do capital, isto é, o ser humano "vale pelo que produz, enquanto produz". Não podemos confundir, entretanto, esse "produz" com a "produção de valores humanistas, de idéias, de manifestações pessoais de arte ou de pensamento", mas de riqueza. E, também, não é toda riqueza: é somente aquela simbolizada pela riqueza MATERIAL, pelo acúmulo de "bens", para si e para os poucos com quem se convive.
Um parêntese necessário: não sei nem se é apropriado falar em "conviver", pois conviver implica em "vida em comum", "intimidade com outro", e não apenas em "existência em comum", "dois ou mais compartilhando um espaço delimitado". Pela atividade estressante que é amealhar bens materiais em quantidades bem acima do que se necessita, muitas vezes tornamo-nos tão desatentos e afastados daqueles com quem compartilhamos a vida, e voltamo-nos com tanta força para nós, que não conseguimos "conviver" com mais ninguém além de nós. As existências próximas são "toleradas" e tidas como "inevitáveis", e recebem, de nossa parte, significância somente dentro do contexto de serem "propagandistas" do nosso "sucesso", "expositores ambulantes" de nossas "conquistas". Fecha parênteses.
Quando não somos mais "produtivos", tornamo-nos inúteis. Totalmente inúteis. Tão inúteis que nossa experiência de vida sequer interessa para alguém (A não ser que a consigamos transformar num livro, ou num documentário, e que este alcance um grande sucesso de vendas. Aí, sim, estaremos redimidos, seremos novamente apontados como produtivos, e estaremos evitando, pelo menos por algum tempo, sermos enviados, definitivamente, ao "Retiro".).
Não conseguimos passar nosso legado, repartir nosso aprendizado, colaborar para tornar a vida dos que vêm depois mais fácil, melhor. À decrepitude do corpo, juntam a decrepitude da alma. E isso é um grandissíssimo engano.
Esse "exílio" é uma das manifestações mais cruéis a que são submetidos os seres humanos que vivem sob a cultura do capital. E acredito que, conscientes de tal exílio, muitos de nós, aqueles que obtiveram "sucesso" na sua senda de acumular riqueza, escolhem continuar "trabalhando" até que a saúde física não mais os permita prosseguir, pois temem, também esses, que todo o esforço de uma vida seja invalidado e de si, como pessoa, não reste senão a memória dos bens materiais que acumulou, estes, sim, símbolos palpáveis de uma vida que valeu a pena ter existido. A pessoa, no entanto, não consegue agregar o "seu valor humano, indivual, irrepetível, inimitável, único" a esses mesmos símbolos.
Se a herança de uma vida é uma coisa sem vida (casa, carro, dinheiro, jóia,...) então há algo de errado em nosso modo de proceder. Há uma profunda incompreensão do que seja ser "humano" e de como avaliar aquela riqueza "outra", que em todos nós existe, a que chamamos de "sabedoria". Lamentávelmente, o que diz respeito a "humano", ou humanista, é encarado, apenas, como manifestação de um traço de personalidade, sem viabilidade "útil" para os macrointeresses relacionados ao acúmulo de dinheiro e de seus símbolos de ostentação. Às vezes, e isto é absurdo, porém real, a manifestação de tais traços é tida como demonstração de fraqueza, de dúvida, de insegurança, o que não é compatível com o mundo da "competição total", que é este no qual estamos mergulhados atualmente. A consequência disso são indivíduos cada vez mais rabugentos e com uma enorme dificuldade para externalizar o amor que sentem já que este, também, acaba sendo colocado de lado, pois o indivíduo amoroso é antes um "perdulário", muitos mais do que um "concentrador".
O resultado paralelo (o efeito colateral, para usar a linguagem belicosa dos Senhores da Guerra) dessa incompreensão e desse silêncio "amoroso", pode ser observado nos jovens, que são, naturalmente, seres incompletos e com uma imensa necessidade de acompanhamento, de educação, de alguém que lhes transmita a cultura e os valores positivos de sua época, tornando-os aptos a enfrentarem, com o mínimo de "efeito colateral" possível, o difícil processo de  estabelecimento de convivências sadias e benéficas (humanamente benéficas), de acolhimento, de segurança amorosa, quando julgam que, com a internet, com os modelos prontos, empacotados, vendidos pela mídia a preços "acessíveis" e em embalagens "espetaculares", podem dispensar a sabedoria DE VIDA de seus pais ou de quaisquer outras pessoas que estejam na mesma faixa etária destes. Crêem que podem encontrar tudo de que precisam, para que tenham supridas suas carências naturais, nesse mundo "virtual", na "Matrix". E acabam expondo-se a modelos confusos e negativos (que são, em última análise, os padrões culturais atuais), e introjetando esses modelos, que mais os afastam de uma vida social plena do que os conduzem a ela. São cotidianamente seduzidos pelas "maravilhosas recompensas" do ter, e desestimulados quanto ao "ser". Muitas vezes, até, tratados como babacas, otários, se para esse sentido último se voltarem. A Lei de Gérson atravessa os tempos: "O importante é levar vantagem em tudo, cerrrto?". Como alguém poderá, no futuro, valorizar o que sempre lhe foi informado como destituído de valor? Como poderá transmitir, passar adiante, valores que são tidos e alardeados como vazios, sem sentido? Como irá valorizar em si o que não vê ao seu redor como um valor?
É... estes são tempos bicudos! 
Entretanto, se superássemos nossa submissão ao valor das coisas, se ultrapassássemos essa "condena" a que somos, todos, submetidos, inevitavelmente, ou seja, o envio compulsório ao "Retiro dos Bons Velhinhos", tenho certeza de que aproveitaríamos muito melhor nossas vidas - toda ela, DO INÍCIO AO FIM! Não seríamos afastados da convivência amorosa de que tanto necessitamos, POR TODA A VIDA, e seríamos valorizados, com os valores possíveis, aqueles que vamos apreendendo, acrescentando, lapidando, e que encerramos em nossos espíritos a cada etapa da nossa existência.
Somos todos "aproveitáveis", e jamais seremos "descartáveis". A busca cega pela riqueza material, no entanto, não permite que vejamos tal obviedade. E essa busca insana, jamais será sinal de sabedoria, tampouco nos aproximará dela.
Para encerrar, voltemos nossos olhos e orelhas para a pessoa que inspirou este discurso todo: VANUSA.
No player abaixo é exibida uma canção dela, chamada MUDANÇAS.
Vale a pena prestar atenção na letra.




Mudanças
(Vanusa)

Hoje eu vou mudar
Vasculhar minhas gavetas
Jogar fora sentimentos
E ressentimentos tolos.

Fazer limpeza no armário
Retirar traças e teias
E angústias da minha mente
Parar de sofrer
Por coisas tão pequeninas
Deixar de ser menina
Pra ser mulher!

Hoje eu vou mudar
Por na balança a coragem
Me entregar no que acredito
Pra ser o que sou sem medo.

Dançar e cantar por hábito
E não ter cantos escuros
Pra guardar os meus segredos
Parar de dizer:

"Não tenho tempo pra vida
Que grita dentro de mim
Me libertar!"

(DECLAMANDO)

Hoje eu vou mudar
Sair de dentro de mim
E não usar somente o coração
Parar de cobrar os fracassos
Soltar os laços
E prender as amarras da razão!

Voar livre
Com todos os meus defeitos
Pra que eu possa libertar
Os meus direitos
E não cobrar dessa vida
Nem rumos e nem decisões!

Hoje eu preciso
e vou mudar
Dividir no tempo
E somar no vento
Todas as coisas
Que um dia sonhei
conquistar,

Porque sou mulher
Como qualquer uma
Com dúvidas e soluções
Com erros e acertos
Amor e desamor.

Suave como a gaivota
E ferina como a leoa
Tranqüila e pacificadora
Mas ao mesmo tempo
Irreverente e revolucionária!

Feliz e infeliz
Realista e sonhadora
Submissa por condição
Mas independente por opinião,

Porque sou mulher
Com todas as incoerências
Que fazem de nós
Um forte sexo fraco!

(CANTANDO)

Hoje eu vou mudar
Vasculhar minhas gavetas
Jogar fora sentimentos
E ressentimentos tolos.

Fazer limpeza no armário
Retirar traças e teias
E angústias da minha mente
Parar de sofrer
Por coisas tão pequeninas
Deixar de ser menina
Pra ser mulher!

Eu vou mudar!
Eu vou mudar!
Eu vou mudar pra valer!

Eu vou mudar!
Eu vou mudar!
Eu preciso!
Eu preciso mudar!

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