segunda-feira, 4 de julho de 2011

CASA ARRUMADA

Recebi um e-mail com dois pequenos textos atribuídos a Carlos Drummond de Andrade. Fiz uma rápida pesquisa na internet e encontrei alguns blogs e saites onde o mesmo texto foi publicado e constava como sendo de Drummond. Por isso, mesmo que um tanto reticente, pois só estaria seguro se visse-o num livro, acato a atribuição de autoria.
O título do texto é o título desta postagem: CASA ARRUMADA. Por que decidi postá-lo? Porque me fez refletir muito sobre minha própria vida, sobre como tenho-na conduzido, tratado, vivido.
Viver bem a própria vida é um enigma insolúvel. Nunca sabemos se estamos, realmente, aproveitando-a ou simplesmente deixando-a passar. Os sinais de vida que percebemos em nós difícilmente são percebidos pelos outros, de tal forma que, às vezes, vem alguém, meio desavisado, porém cheio de boas intenções, recomendando-nos que deveríamos nos mexer, fazer algo de que gostamos, viver mais, aproveitar cada molécula do ar que respiramos, sacudir a poeira, e o que sentimos em nosso íntimo é justamente o contrário do que é percebido pelo outro! Sentimo-nos vibrando, felizes, bem! Sentimo-nos VIVENDO! Porém, toda essa vibração não consegue ultrapassar os limites do nosso corpo. Nem sombra dela passa-nos nos olhos. É como se nada em nós conseguisse comunicar ao exterior a revolução interior que nos convulsiona.
É claro que há os momentos de extravasamento, ou de alegria tão intensa que nos apresentamos "irradiando felicidade". Nessas horas, as outras pessoas percebem e, também elas, desde que não sejam invejosas, compartilham conosco os bons sentimentos de que estamos tomados, deixando-se afetar pela nossa alegria. Porém, do que falo, não é referente a esses momentos de arrebatamento, mas aos momentos do cotidiano, às coisas ou situações diárias que nos afetam e que, apesar de muitas vezes apresentarem-se como se fossem "pequenas", têm força suficiente para interferir no nosso humor pelo período de um dia inteiro.
Quantas vezes acordamos bem humorados, bem dispostos, achando tudo uma maravilha e um acontecimento inexpressivo qualquer derruba-nos  e nos faz rastejar? Ou, por outro lado, acordamos achando a vida uma droga e a visão de algo que nos emociona, que combina com nossos sonhos, faz-nos mudar da água para o vinho, assim, sem explicação racional aparente? Parece meio kitsch tudo isso, não? E talvez seja, mesmo, porém é real e já foi por muitos, senão por todos, experimentado.
Bem, mas vamos ao que Drummond escreveu e veremos se alguém experimenta a mesma sensação de "mergulho interior" que experimentei.

CASA ARRUMADA - Carlos Drummond de Andrade

A vida é muito mais do que isso...
 "A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida
 está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência
 egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos
 também a felicidade."

Casa arrumada  é assim:
 Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa
 entrada de luz.
 Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um
 cenário de novela.
 Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os
 móveis, afofando as almofadas...
 Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
 Aqui tem vida...
 Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras
 e os enfeites brincam de trocar de lugar.
 Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições
 fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
 Sofá sem mancha?
 Tapete sem fio puxado?
 Mesa sem marca de copo?
 Tá na cara que é casa sem festa.
 E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
 Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
 Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,
 passaporte e vela de aniversário, tudo junto...
 Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
 A que está sempre pronta pros amigos, filhos...
 Netos, pros vizinhos...
 E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca
 ou namora a qualquer hora do dia.
 Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
 Arrume a sua casa todos os dias...
 Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...
 E reconhecer nela o seu lugar.

Carlos Drummond de Andrade

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