sábado, 9 de abril de 2011

DE ONDE VÊM OS MONSTROS?

De onde vêm os monstros?
Quem os pari? Quem cuida deles enquanto são pequenos? Quem os alimenta?
Quando estão com medo, à noite, da chuva forte e dos raios e dos trovões, quem os afaga? Quem os tranqüiliza?
Quando estão aprendendo a dar os seus primeiros passinhos, quem os incentiva, quem lhes dá segurança, quem os apóia?
Quem lava suas roupinhas? Quem cerze os pequenos rasgões? Quem os recebe, quando chegam do futebol com amigos, na pracinha?
Quem fica acordado a noite toda ao seu lado, zelando, enquanto estão doentes, com febre, com tremores, suando frio e muito assustados?
Quem os leva pela primeira vez à escola? Quem lhes compra o primeiro uniforme, o primeiro caderno, o primeiro lápis?
Quem os ensina a atravessar a rua, a tomar cuidado com os carros? Quem os aconselha a não conversar com estranhos? Quem vai à escola conversar com o professor quando ele apresenta algum problema de relacionamento ou de desempenho?
De onde vêm os monstros? Alguém me responda, por favor!
Porque estou cansado de saber dessas criaturas, vagando perdidas pelo mundo, e sempre pensar que não nasceram, mas brotaram da terra, de algum buraco da terra: de uma caverna, de um bueiro, de uma latrina... Estou cansado e com medo de não reconhecê-los quando passam ao meu lado ou param ao meu lado, conversam comigo, trabalham comigo, estudam comigo, namoram comigo, podem até ter um filho comigo!
Eu preciso muito, mas muito mesmo, saber de onde vêm os monstros. Quem lhes dá à luz? Serão outros monstros, também? Pela lógica, suponho que sim: monstros dão origem a monstros, assim como pessoas dão origem a pessoas, cães a cães, gatos a gatos e assim por diante.
Porque eu gostaria de matá-los antes que pudessem executar suas monstruosidades. Afinal, o que mais fazem os monstros além de monstruosidades? Mas como reconhecê-los? Como sabê-los?
Quando me dou conta, estou diante de um que quase me atropela na faixa de segurança por que não pode esperar um segundo; ou diante de outro que quer brigar  por que reclamo que o produto que está vendendo não está em perfeitas condições; ou passando por um que, de dentro do carro em que vai, grita mandando-me cortar o cabelo e chamando-me de veado. E estou falando apenas do que me acontece.
Se for considerar, também, as situações em que sou apenas assistente, apenas platéia, poderia afirmar que há milhares de monstros a solta, todos prontos e preparados para praticarem suas monstruosidades a qualquer momento, por qualquer motivo. E o que, no meu entendimento, é ainda mais grave: alguns desses monstros criam, educam e preparam outros monstros, que repetirão suas monstruosidades, se é que não as amplificarão, acrescentando-lhes algumas "pitadas" de sadismo, tão em voga, atualmente.
Porém, quando leio, ouço, assisto ao que dizem médicos, advogados, governantes, chefes de polícia, colunistas, apresentadores, chego a conclusão de que estou enganado. Que os comportamentos, as atitudes apresentadas por tais "criaturas" podem, tranqüilamente, ser classificadas como normais: são devidas ao stress, à competição intensa dos dias atuais (Competição é a palavra mágica, muito utilizada hoje em dia, para justificar todas as aberrações cometidas que, de outra forma, não poderiam, jamais, ser justificadas.). Não representam perigo e não denotam pessoas "monstruadas".
Então, passo a achar normal xingar outras pessoas por qualquer coisa que julgue procedente, ameaçá-las por que não fazem o que quero, como quero, na hora que quero, só por que quero.
Passo a achar normal ser indiferente, autossuficiente, carrancudo, mal-humorado, beligerante. Acho normal e não me acho doente. Assim, com os olhos da alma e da cara embotados, vou amontoando males irreparáveis e guardando lixo, do qual não consigo nunca mais me desfazer. E, pior: não me preocupo em desfazer-me. No auge do meu fanatismo por mim, por minhas idéias, exibo todas essas deformações guardadas como um título lustroso de um caráter forte, destemido, empreendedor, corajoso, moderno - invejável.
Como conseqüência, não percebo que estamos todos doentes, terminantemente doentes. Que da maneira como nos organizamos, que da maneira como sobrevivemos, que da maneira como vivemos em sociedade, estamos condenando-nos a matarmo-nos todos. Porque o outro é intolerável, sua existência é intolerável: sua presença, seus modos, seu jeito, as posições que defende, as idéias que propaga - tudo no outro é intolerável. Somente tolera-se o desejo monstruoso, que existe em cada um e que a tudo justifica, de destruir, apagar, afastar, extinguir.
Diz-se do rapaz que matou as crianças na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro, que é um monstro. Diz-se, também, que é um fanático, um doente mental. Eu afirmo que, diante da maneira como temos sido, é uma pessoa normal. E cometeu o que qualquer um de nós, se não pelos mesmos motivos, mas por outros quaisquer que julgássemos suficientes e justos, cometeria também. Pois, preparados - e rotineiramente nos preparando - para isso, estamos. Somos todos monstros para os outros, fanáticos por nossa causa, doentes mentais pelas ilusões que nos inculcam que vencer é chegar a um patamar financeiro tal onde se possa consumir o que se quiser, não interessando o custo, em recursos naturais e de vidas, para se produzir o que se deseja.
Não sei quando nos daremos conta de que habitarmos este planeta para massacrarmos uns aos outros por conta do dinheiro, da impressão de poder, da vaidade, de um temeroso conceito do que seja distinção, status social, não nos assegurará um futuro maravilhoso. Que somente quando nos apercebermos de nossa humanidade e do quanto vale a pena tornarmos este planeta habitável e confortável para TODOS é que estaremos trilhando um caminho seguro, inclusive para os animais, para as plantas, para os minerais: para o planeta, enfim.
Não sei quando... Talvez, quando descobrirmos de onde vêm os monstros. E quando, finalmente, tivermos coragem de matá-los.



"Que o último monstro atire a última pá de terra sobre o último cadáver sepultado e tome conta de tudo."

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