sexta-feira, 9 de julho de 2010

AS HASTES APONTADAS DE CIRNE

De Ente Maldito

Cirne apareceu em minha vida por sua proximidade sonora com Crime. Também pela possibilidade de brincar com palavras parônimas como Cerne ou Carne.

Bem, mas de Cirne/Crime para Cerne/Carne e, quase por indução, para Corno, foi um pulo.

Nesse jogo de palavras, o assunto traição foi tomando conta do pensamento e acabou virando tema. Porém, não a traição objetiva, mas a traição imaginada; aquela traição que não nasce do ato de um trair o outro, mas da possibilidade que um vê como real de que o outro venha a traí-lo (olha que brincandeira legal dá para fazer aqui, também: a traí-lo / atraí-lo => "Com medo de que João descobrisse que ela estava prestes a traí-lo com o sócio, Ricardo, imaginou um plano para atraí-lo para bem longe dali.").



A traição imaginada machuca muito mais do que a traição realizada, pois aquela jamais poderá ser comprovada, como também jamais poderá ser negada. Imaginar-se traído é um medo comum que acompanha de perto as pessoas que se encontram atraídas por alguém. Basta começar a querer para que o medo de que mais alguém também queira o nosso objeto de desejo, apareça. E, em alguns casos, cresça. Cresça desmesuradamente. E torne-se doentio. E, então, transforme-se em ciúme.

O ciúme é uma fonte inesgotável para a geração de conflitos. Na fonte do ciúme bebe-se a cachaça do medo, responsável por nos embaçar a visão, transtornar os pensamentos e levar-nos à prática de atos tresloucados.

O corno que é corno, ainda pode desfrutar de uma certa tranqüilidade, pois sabe onde está pisando e que qualquer decisão que tomar será baseada numa verdade comprovável; mas o corno que "imagina-se" corno, esse não tem paz, pois ele não é capaz definir se aquilo que sente e percebe é fruto da fantasia ou da realidade. Ele tanto não consegue comprovar o que afirma para si, como não consegue acreditar no que o outro lhe diz. Se acredita, teme estar passando por "trouxa"; se não acredita, teme estar passando por "injusto". Este estado de confusão geralmente leva a pessoa a achar que está enlouquecendo (e, dependendo do grau da confusão, pode enlouquecer, mesmo!).

O ciumento sem causa é tão perigoso quanto o rebelde sem causa, ou o socialista sem casa - só para lembrar o que a "crasse" abastada dizia que aconteceria em nosso país se o PT chegasse ao poder, lá pelo final da década de 1980: "Eles vão querer tomar nossas casas, usurpar nosso patrimônio com a justificativa de que devemos dividir tudo com os mais pobres!" (Ééééé... Teve até "empresário" dizendo que levaria sua empresa para outro país se o Lula chegasse ao poder. Pois, é. Coisas de gente endinheirada, gente de "crasse", "intiligente", que freqüentou as melhores "iscolas".).

Bem, mas retomando o assunto que tratávamos: o ciúme. O ciumento é um corno imaginário e sua imaginação pode, no fim, levá-lo a tornar-se um corno de facto (grafei assim a palavra apenas para insistir que, tal qual os portugueses, não concordo e nego-me a seguir as regras do Acordo Ortográfico). Isto pode, ou não, acontecer. Dependerá muito do caráter da vítima do ciúme e/ou do seu grau de tolerância às acusações fantasiosas insinuadas pelo outro. Pode acontecer de, um belo dia, cansado(a) de tanto ouvir que é um(a) sacana, sem realmente sê-lo(a) ("Queria escrever-lhe uma carta, dizendo que era feliz com a outra, mesmo sem sê-lo."), resolve que é hora de deixar de ser o(a) injustiçado(a) e fazer jús às acusações que lhe são imputadas. E aí... Já era! Imaginação só é boa quando for para contar história ou para melhorar a realidade.

Quando chega-se a este ponto, bem... agora, sim, o corno poderá afirmar com orgulho, batendo no próprio peito (ou na própria testa): SOU CORNO! E aqui, chega-se a outra encruzilhada: por que Corno? De onde vem este termo para designar alguém que foi traído numa relação emocional? Qual a origem? A razão? O motivo? A inspiração?

Segundo meus estudos, não há uma origem bem identificada que possa apontar, com segurança, o surgimento do termo associado à situação de traído. No saite Portal das Curiosidades, por exemplo, podemos ler que:
"Os estudos etimológicos levam à cidade de Éfeso, no século 2, onde o grego Artemidoro citou o termo kérata poiein, que significa "fazer corno a, enganar um marido". Quer dizer, os gregos já eram cornos há centenas de milhares de anos. "A conexão entre chifres e maridos traídos é tão antiga que não se tem referência exata da sua origem", diz o dicionarista Paulo Geiger, que já coordenou a produção de dicionários como os de Aurélio Buarque de Holanda e Antônio Houaiss e da Enciclopédia Barsa."

Já no blogui Antigas Ternuras, a explicação é outra, e traz a origem do uso para mais perto da época atual (não muito perto, mas menos afastada do que a anterior):
"Na antigüidade, houve o tempo de Átila e seus hunos, um povo bárbaro que habitou a Europa Central no norte dos Bálcãs (mais ou menos onde hoje está a Bulgária, a Sérvia, por ali), por volta do Século 5 depois de Cristo. Essas tribos bárbaras eram guerreiras ferozes. Não foi à toa que Átila passou à História como “o Flagelo de Deus”. Seus soldados usavam capacetes de ferro, alguns adornados com chifres, parecidos com os utilizados pelos vikings.

Átila tinha um general famoso por sua ferocidade e sua cara de mau. Ele usava um capacete com dois enormes chifres o ladeando. O curioso é que embora o tal general huno fosse brabo feito cão danado, a mulher dele era... digamos... muito generosa com os outros homens. Na verdade, ela dava mais que chuchu na serra! Na ausência de seu marido, era só pegar uma senha, entrar na fila que ela servia o hamburgão para a rapaziada.


Certa vez, um dos soldados falou pro outro:
- A mulher daquele ali dá pra todo mundo!
O outro quis saber:
- Qual?
- Aquele ali, o mais chifrudo...
"


E as especulações (ou possibilidades) não param por aí. No blogui do Emílio Pacheco há uma outra versão, que eu achei a mais legal de todas, pois é proveniente da literatura e, por isso, mais palpável. Diz no blogui do Emílio
"Na coletânea "Playboy's Ribald Classics" (Clássicos Obscenos da Playboy - tradução acresida e grifada por Ente Maldito), de 1966, o texto aparece com o título de "The Painted Lady" (A Dama Pintada). Na verdade as histórias foram "reescritas no sofisticado estilo Playboy", como está explicado na contracapa, mas os nomes dos autores foram preservados. O escritor em questão é o espanhol Juan Ruiz e o enredo é (...) o seguinte (acrescido e grifado por Ente Maldito): o pintor Pitas Payas vai sair em viagem. Para assegurar-se de que sua esposa não o trairá, desenha um cordeiro logo abaixo do umbigo da mulher. Após longos meses longe do marido, a esposa não resiste e se entrega a outro homem. O cordeiro logo é apagado de sua pele. Mas Pitas Payas deve retornar em breve, então o amante tenta refazer o desenho. Na pressa, acaba pintando um carneiro adulto, com chifres. Quanto Pitas retorna, reclama da diferença. Ela explica que, como ele ficou muito tempo longe, o cordeiro cresceu."
Para ler a história original, escrita em forma de poema, clique aqui.

E, por fim, no Dicionário Brasileiro de Insultos, de Altair J. Aranha (Ateliê Digital, 2002, R$ 45,00), no verbete Corno, está dito que "Não se sabe porque se atribui um par de chifres ao marido que é traído pela esposa, mas a imagem está fixada em várias culturas.".


Assim, chegamos ao fim de nossa investigação sem ter alcançado qualquer resultado conclusivo. Muito pelo contrário, estamos mais perdidos, agora, do que estávamos antes de começar a investigar. Curiosidade é fogo! Sabe-se lá de onde partiu essa associação de chifres à traição. E isso, no final das contas, pouco importa para Cirne, pois, convicto de ter sido presenteado por sua amada com um belo e imponente par de chifres, parte para a ação... e acaba, inevitavelmente, fazendo bobagem...


CRIME DE CIÚME

Da carne ao cerne.
Do cerne ao Cirne.
De Cirne a corno.
De corno ao crime.

A carne sangrando.
O cerne estilhaçado.

Olhos nos olhos:
de um orbitando,
de outro embaçados.

A carne cedida na cama
enquadra o senho
sério de Cirne.

O corno não sabe
se ama
a carne,
o cerne
ou a cena sublime.

Sente que sempre foi só.
Que nem na morte
o amor lhe imprime

alguma marca da vida que sai
como o filete de um rio
que devagar se exime.

Da carne ao cerne.
Do cerne ao Cirne.

A vida segue
como o desenrolar de um filme:
baseada em fatos reais,
mas interpretada pelo ciúme.

Pero Vás


OBS.: AH-RÁÁÁ! DEU UMA COCEIRINHA NA TESTA, NÉ?
Vamos, vá em frente. Pode coçar. Aproveita que não tem ninguém olhando.

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