quarta-feira, 23 de junho de 2010

O ACORDO ORTOGRÁFICO

Pois é, o "famigerado" Acordo Ortográfico que, teoricamente, foi assinado por todos os países que têm como língua ofícial o Português, continua a gerar polêmica.
Na prática, o único país que o está levando a sério é o Brasil. Portugal, a pátria matter da língua, não está nem aí para ele, havendo, inclusive, uma série de manifestações contrárias ao Acordo. O próprio Saramago, expoente escritor português, recentemente falecido, era contra o acordo e o atacava abertamente, negando-se a praticá-lo em seus livros e, inclusive, proibindo seu editor de que adequasse seus textos a ele.
Eu, particularmente, não vejo nada que justifique a existência desse Acordo, tendo em vista que, na prática, não traz qualquer melhoria ou avanço para a língua escrita.
Abaixo, transcrevo um Manifesto retirado da internet, que circulou em Portugal (2008-2009), onde os autores fazem campanha aberta na tentativa de captar o apoio do maior número de pessoas possível para que o dito Manifesto fosse apreciado pelas autoridades portuguesas e, por esse intermédio, se tomassem as medidas cabíveis a fim de que Portugal não acolha os termos do Acordo nem os pratique.
Na última contagem disponível no saite, eles já tinham conseguido 125.607 assinaturas.
Assim, fica a dúvida: será que, no fim das contas, só o Brasil irá por em prática este Acordo?
Só o Brasil gastará sabe-se lá quantos milhões para reeditar milhares de livros, em especial os didáticos, os que são distribuídos às escolas e bibliotecas, a fim de adequá-los aos termos do Acordo e, quando chegar a data aprazada para o encontro dos países de língua oficial portuguesa, a fim de ratificarem o Acordo, apenas o nosso estará presente com tal disposição, sendo que todos os outros chegarão para a tal reunião sem nada decidido e, muito pior, com calhamaços de petições semelhantes, onde cidadãos de cada um desses países solicitam que eles não adiram ao Acordo?
E então, frustrados, voltarão nossos representantes anunciando que o Acordo foi um fracasso e que precisaremos gastar milhões, novamente, a fim de fazermos voltar todos os livros reeditados ao formato anterior, ou seja, deverão ser re-reeditados?
Até agora, só quem ganhou (e muito) com isso foram as editoras, que estão rindo à toa com a montanha de dinheiro que foi e tem sido despejada nos seus cofres.
Então, para que vocês tenham uma idéia do que circulou por aí, transcrevo o material que encontrei para que possam avaliar se não estamos pagando o maior micão da história.

"Este documento foi entregue em mão a Sua Excelência o Presidente da República no dia 2 de Junho de 2008, em audiência concedida a um grupo de signatários.
Oportunamente será entregue a Sua Excelência o Primeiro-Ministro, com todas as assinaturas que vierem a registar-se até então. As primeiras 17.300 assinaturas foram entregues a Sua Excelência o Presidente da Assembleia da República no dia 8/5/2008 que também recebeu em 15/5/2008 as 33.053 assinaturas existentes nessa data.
A apreciação da petição em plenário da Assembleia da República está agendada para o dia 20 de Maio de 2009.

MANIFESTO
EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA
CONTRA O ACORDO ORTOGRÁFICO
(Ao abrigo do disposto nos Artigos n.ºs  52.º da Constituição da República Portuguesa,  247.º a 249.º do Regimento da Assembleia da República, 1.º nº. 1, 2.º n.º 1, 4.º,  5.º   6.º e seguintes,  da Lei que regula o exercício do Direito de Petição)


Ex.mo Senhor Presidente da República Portuguesa
Ex.mo Senhor Presidente da Assembleia da República Portuguesa
Ex.mo Senhor Primeiro-Ministro de Portugal


1 – O uso oral e escrito da língua portuguesa degradou-se a um ponto de aviltamento inaceitável, porque fere irremediavelmente a nossa identidade multissecular e o riquíssimo legado civilizacional e histórico que recebemos e nos cumpre transmitir aos vindouros. Por culpa dos que a falam e escrevem, em particular os meios de comunicação social; mas ao Estado incumbem as maiores responsabilidades porque desagregou o sistema educacional, hoje sem qualidade, nomeadamente impondo programas da disciplina de Português nos graus básico e secundário sem valor científico nem pedagógico e desprezando o valor da História.
Se queremos um Portugal condigno no difícil mundo de hoje, impõe-se que para o seu desenvolvimento sob todos os aspectos se ponha termo a esta situação com a maior urgência e lucidez.
2 – A agravar esta situação, sob o falso pretexto pedagógico de que a simplificação e uniformização linguística favoreceriam o combate ao analfabetismo (o que é historicamente errado), e estreitariam os laços culturais (nada o demonstra), lançou-se o chamado Acordo Ortográfico, pretendendo impor uma reforma da maneira de escrever mal concebida, desconchavada, sem critério de rigor, e nas suas prescrições atentatória da essência da língua e do nosso modelo de cultura. Reforma não só desnecessária mas perniciosa e de custos financeiros não calculados. Quando o que se impunha era recompor essa herança e enriquecê-la, atendendo ao princípio da diversidade, um dos vectores da União Europeia.
Lamenta-se que as entidades que assim se arrogam autoridade para manipular a língua (sem que para tal gozem de legitimidade ou tenham competência) não tenham ponderado cuidadosamente os pareceres científicos e técnicos, como, por exemplo, o do Prof. Óscar Lopes, e avancem atabalhoadamente sem consultar escritores, cientistas, historiadores e organizações de criação cultural e investigação científica. Não há uma instituição única que possa substituir-se a toda esta comunidade, e só ampla discussão pública poderia justificar a aprovação de orientações a sugerir aos povos de língua portuguesa.
3 – O Ministério da Educação, porque organiza os diferentes graus de ensino, adopta programas das matérias, forma os professores, não pode limitar-se a aceitar injunções sem legitimidade, baseadas em “acordos” mais do que contestáveis. Tem de assumir uma posição clara de respeito pelas correntes de pensamento que representam a continuidade de um património de tanto valor e para ele contribuam com o progresso da língua dentro dos padrões da lógica, da instrumentalidade e do bom gosto. Sem delongas deve repor o estudo da literatura portuguesa na sua dignidade formativa.
O Ministério da Cultura pode facilitar os encontros de escritores, linguistas, historiadores e outros criadores de cultura, e o trabalho de reflexão crítica e construtiva no sentido da maior eficácia instrumental e do aperfeiçoamento formal.
4 – O texto do chamado Acordo sofre de inúmeras imprecisões, erros e ambiguidades – não tem condições para servir de base a qualquer proposta normativa.
É inaceitável a supressão da acentuação, bem como das impropriamente chamadas consoantes “mudas” – muitas das quais se lêem ou têm valor etimológico indispensável à boa compreensão das palavras.
Não faz sentido o carácter facultativo que no texto do Acordo se prevê em numerosos casos, gerando-se a confusão.
Convém que se estudem regras claras para a integração das palavras de outras línguas dos PALOP, de Timor e de outras zonas do mundo onde se fala o Português, na grafia da língua portuguesa.
A transcrição de palavras de outras línguas e a sua eventual adaptação ao português devem fazer-se segundo as normas científicas internacionais (caso do árabe, por exemplo).
Recusamos deixar-nos enredar em jogos de interesses, que nada leva a crer de proveito para a língua portuguesa. Para o desenvolvimento civilizacional por que os nossos povos anseiam é imperativa a formação de ampla base cultural (e não apenas a erradicação do analfabetismo), solidamente assente na herança que nos coube e construída segundo as linhas mestras do pensamento científico e dos valores da cidadania.
Os signatários,
Ana Isabel Buescu
António Emiliano
António Lobo Xavier
Eduardo Lourenço
Helena Buescu
Jorge Morais Barbosa
José Pacheco Pereira
José da Silva Peneda
Laura Bulger
Luís Fagundes Duarte
Maria Alzira Seixo
Mário Cláudio
Miguel Veiga
Paulo Teixeira Pinto
Raul Miguel Rosado Fernandes
Vasco Graça Moura
Vítor Manuel Aguiar e Silva
Vitorino Barbosa de Magalhães Godinho
Zita Seabra"

Não localizei (ainda) o resultado da citada reunião. Vou continuar buscando. Se alguém puder me auxiliar, ficarei muito agradecido.

Para informações mais consistentes e discussões melhor elaboradas, indico o blog do Professor Moreno. Lá vocês encontrarão este assunto bastante esmiuçado e adequadamente tratado.
Boa leitura.


Por Ente Maldito

Um comentário:

  1. COMO PARTICIPAR NAS EDIÇÕES DO EPISÓDIO CULTURAL?
    O Fanzine Episódio Cultural é uma publicação bimestral sem fins lucrativos, distribuído na região sul de Minas Gerais, São Paulo (capital), Belo Horizonte e Salvador-BA. Para participar basta mandar um artigo: poema, um conto, matérias (esporte, arte, sociedade, curiosidades, artesanato, artes plásticas, turismo, biografias, sinopses de livros e filmes, curiosidades, folclore, moda, saúde, esporte, artes cênicas, biografias, etc.) em Times Roman 12.
    Mande em anexo uma foto pessoal para que seja publicada juntamente com a matéria. Se desejar, você pode enviar uma imagem correspondente ao assunto abordado. Caso o artigo não seja de sua autoria, favor informar a fonte.
    PARA ENTRAR COM CARLOS (Editor)
    Facebook: http://www.facebook.com/profile.php?id=1464676950&ref=profile
    machadocultural@gmail.com

    ResponderExcluir

Prezado visitante, seja bem-vindo. Os comentários aqui postados não são moderados, por isso, conto com a sua moderação.

Plugin Artigos Relacionados para WordPress, Blogger, ...