segunda-feira, 21 de junho de 2010

RE-ANUNCIAÇÃO

"Ao sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma" vila da cidade de Porto Alegre, "chamada Nazaré, para se apresentar diante de uma virgem desposada com um homem chamado José, da família de David; e o nome da virgem era Maria."1
E, ao entrar no barraco da virgem (sem duplo sentido), disse-lhe o anjo:
- "Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo."2
Ao ouvir estas palavras, ela, que não entendia uma sílaba sequer de aramaico, quanto mais uma frase inteira, assustou-se.  O anjo, percebendo a perturbação da mulher, falou:
- "Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus. Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo. O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de seu pai David, reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim."3
E disse Maria ao anjo:
- Ahhhhhhhhhhh!!!!
E eis que, repentinamente, surgiram na porta do quarto, seus pais, Pedro e Jurema. E Pedro, que era uma rocha, trazia em uma das mãos um facão três-listras. E sem nem mesmo contar até três, mesmo porque não sabia, atirou-se sobre o anjo. E Maria correu para os braços da mãe gritando:
- Mata ele, pai! Mata ele!
E Gabriel, que não esperava tal reação, pois da última vez tinha tudo corrido tão bem, assistiu, surpreso, Pedro trespassar-lhe o corpo etéreo com o facão. E então, diante do estupefato Pedro, perguntou:
- Saulo, que passa, lôco?
E Pedro, que estava mais surpreso que o anjo, murmurou:
- Puta que o pariu.
E eis que apareceu a vizinha do lado, com o marido, seguida, ainda, pelos quatro filhos. E o menor, que só tinha visto anjo em filmes da Xuxa, agarrou-se à cintura da mãe e, apontando para Gabriel, gritou:
- É o Tocha Humana!
E Gabriel, que tinha vindo apenas para anunciar à Maria que ela daria à luz o filho do Senhor, não estava gostando nem um pouco daquele tumulto. E disse a vizinha para Jurema:
- Péra aí que eu já volto!
E enquanto a vizinha não voltava, tomou, Maria, coragem e perguntou ao anjo:
- Quem é que tu é, meu?
E o anjo não entendia Português. Principalmente o Português falado no Brasil que, afinal, é um dialeto, e que cada um fala como quer ou como sabe ou como pode. E Gabriel achou melhor recorrer ao auxílio divino:
- Senhor, eu não os entendo. Dai-me a Vossa Graça para que possa entendê-los.
Mas o Senhor respondeu que também não conhecia aquela língua. Que, quando do episódio da Torre (de Babel), não lembrava de ter criado tal idioma. E o anjo ficou muito decepcionado. E dirigiu-se novamente à Maria, na esperança de conseguir estabelecer um diálogo:
- Maria, filha de Pedro, vim trazer-te a Boa-Nova. Sou Gabriel, o mensageiro do Senhor, ouve-me!
E Maria continuava sem entender nada do que o anjo dizia. E, a essa altura, o pátio da casa de Pedro já estava tomado de gente, todos alertados pela vizinha do lado. E então alguém disse para alguém que achava que conhecia aquele cara. E muitos concordaram. E alguns, inclusive, até lembravam dele. E perguntou Maria a Gabriel:
- Tu é da pedra?
E ele respondeu com outra pergunta:
- What?
E Pedro, que também não entendia nada de aramaico, entendeu que o anjo tivesse dito sim. E saiu falando para todo mundo que o homem que invadira o quarto de sua filha "tava na pedra". E o vizinho da frente disse que ia chamar a polícia. E uma amiga de Maria, que entrara na casa, filmava tudo no i-Phone para, mais tarde, postar no Youtube. E o anjo começou a ficar nervoso. E o irmão de Maria queria tirar uma foto. E o brilho provocado pelo flash assustou Gabriel, que desembainhou a espada. E a espada de Gabriel era muito grande. E Jurema comentou para algumas vizinhas que estavam próximas:
- Nossa! Que espadão!
E todos os que viram ficaram muito impressionados. E as mulheres comentaram que o anjo até que era bem simpático. E Pedro não gostou nem um pouco do comentário da mulher.
Foi então que, sem pedir licença, entrou na casa de Pedro, Didão, o traficante que dominava aquela zona. E Didão perguntou a Pedro:
- Quem é essa pinta?
E Pedro, sacudindo os ombros, disse que não o conhecia. E Didão ordenou aos seus que apagassem o cara. E os bandidos entraram no quarto atirando. E iniciou-se um corre-corre danado na rua.
E eis que chegou a polícia. E junto com ela chegaram, também, vários representantes da imprensa local, inclusive a TV. E o anjo Gabriel resolveu dar uma espiada para ver que zona era aquela. Atravessou as paredes e chegou até a rua. E viu que estava o maior bolo na frente da casa. E assim que apareceu no pátio da frente, os cinegrafistas apontaram suas câmeras, os repórteres esticaram seus microfones, os iluminadores acenderam seus holofotes e Gabriel quase ficou cego. E voltou, então, para o quarto, ajeitou as asas, sentou-se na cama, e soltou um suspiro desanimado. E Maria já estava ficando com pena dele, coitado. E Jurema deu a idéia de chamar a professora, que já tinha ido até pro estrangeiro, que talvez ela pudesse ajudar a entender o que aquele moço dizia.
Enquanto isso, do lado de fora, a polícia tentava conter, na porrada, os ânimos do pessoal, que estava muito agitado. E Pedro, tentando aparentar calma, perguntou ao anjo se ele aceitava uma Brahma bem geladinha. E com os olhos aguados, o anjo disse que não estava entendendo nada daquela movimentação toda. Que só queria anunciar à Maria que ela daria à luz o filho de Deus e que depois iria embora, em paz, para alguma nuvem bem branquinha nos confins do Paraíso. E ninguém entendia nada do que ele dizia. E todos falavam ao mesmo tempo. E eis que a casa de Pedro mergulhava na confusão. E um policial se aproximou e perguntou a ele se conhecia aquele elemento. E, pela segunda vez, Pedro respondeu que não fazia a mínima idéia de quem ele era.
E eis que uma sirene foi ouvida ao longe. E eram os enfermeiros de uma clínica para recuperação de drogados. E os enfermeiros, que eram três, pediram licença e entraram na casa de Pedro. E o primeiro enfermeiro trazia tranqüilizantes. O segundo, spray de pimenta. E o terceiro, uma camisa de força. E vendo, eles, o anjo sentado na cama, tentando pegar um copo com água que Jurema, esposa de Pedro, lhe oferecia, perguntaram a Pedro se ele conhecia o paciente. E, pela terceira vez, Pedro disse que nunca o tinha visto mais transparente. E os enfermeiros comentaram entre si:
- Esse é dos grandes. Vai ser foda.
E o primeiro enfermeiro se acercou pela esquerda, com a seringa de tranqüilizante pronta para aplicar. O segundo se acercou pela direita, com o spray de pimenta pronto para disparar. O terceiro, pela frente, com a camisa de força pronta para o vestir. E o anjo, erguendo-se, desembainhou a espada novamente e gritou para eles:
- ότι δεν έχει έρθε!4
E Jurema, ao ver aquela espada enorme mais uma vez, quase teve um troço. E o anjo não se deu por conta do poder de sua voz de anjo, que reboou como mil trovões. E eis que as paredes da casa racharam. E barulhos de rangidos começaram a ser ouvidos por todos os cantos do imóvel. E deu tempo apenas de sairem antes que a casa toda viesse abaixo. E Pedro teve de ser contido pois, agora sim, jurava que iria acabar com aquele desgraçado. E, no meio de tanta confusão, de tantos gritos e blasfêmias, o anjo conseguiu aproximar-se de Maria e, puxando-a para um canto, disse-lhe, procurando falar depressa:
- "
O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus. Também a tua parente Isabel concebeu um filho na sua velhice e já está no sexto mês, ela, a quem chamavam estéril, porque nada é impossível a Deus."5
E Maria tremia que nem vara verde. E, com as poucas forças que o medo ainda não lhe tomara, entre lágrimas e soluços, disse para o anjo:
- Não faz isso comigo, meu, pelamordedeus! Tu é muito bonitinho, mas eu já tô ficando com outro. Pelamordedeus. Tu tá na pedra, meu! Deixa eu ir embora, por favor. Ahhhhhhhhhhhhhh!
E eis que, finalmente, apareceu José. E José explicou aos sogros que estava num futebolzinho com os amigos, e que então rolou um churrasquinho, e uma cervejinha, e o João-Sem-Braço apareceu com o violão e coisa e tal, e que só agora tinha sido avisado do que estava acontecendo. E, assim, os três deixaram-se ficar por algum tempo, conversando animadamente. E, ao ouvir o grito de Maria, José, mais do que depressa, juntou um pedaço de tijolo das ruínas da casa de Pedro e o arremessou contra o anjo. E todos viram quando o bólido de barro e cimento passou através do seu corpo sem nada fazer-lhe. E eis que todos ficaram maravilhados.
E alguém gritou que aquilo só podia ser coisa de fantasma. E a notícia se espalhou. E o medo se espalhou junto. E resolveram chamar o padre. Mas o padre mandou dizer que o seu negócio era salvar almas que ainda estavam nos corpos, e que almas penadas não eram com ele.
E então alguém lembrou de um pastor argentino que fazia exorcismo e que tinha um terreiro num barraco mais acima. E Pedro ordenou que chamassem o tal pastor. E assim se fez. E tão logo o pastor se apresentou, perguntou-lhe Pedro:
- Será que tu consegue mesmo expurgar essa praga?
E o pastor, olhando-o com desdém, respondeu:
- Por supuesto!
E vendo o anjo em toda a sua a graça, esplendor e magnitude, concluiu, o pastor, que aquela criatura só podia ser um soldado do Diabo. E ordenou que todos erguessem louvores ao Senhor com gritos de Aleluia, vivas e Graças a Deus, enquanto ele preparava os trabalhos.
E Maria conseguiu livrar-se do anjo e correu para os braços de José. E o anjo estava aterrorizado com toda aquela histeria. E lembrou-se de que não via nada assim desde uns dois mil e poucos anos antes, durante o batizado de João Batista. E eis que um carro de som surgiu, não se sabe de onde, tocando músicas da Mara Maravilha num volume que nem a voz de Deus conseguiria se fazer ouvir. E, mesmo assim, Deus interveio. E bradou para que parassem com aquela balbúrdia. E sua voz reboou pelo céu como o estrondo de um milhão de trovões. Mas, no meio daquela zorra, ninguém conseguia ouvir nada. E os poucos que ouviram pensaram que era chuva, apesar do céu limpo e estrelado.
E logo a terra se cobriu de vendedores de guarda-chuva a R$ 5,00. E os ambulantes baixaram os preços de seus produtos. E a latinha de cerveja, que estava sendo vendida a R$ 3,00, foi para R$ 1,50. E o espetinho de gato, que era R$2,50, passou para R$1,00. E todos gritavam hosanas ao Senhor. E o anjo só pensava em ir embora daquele inferno.
E voltando o rosto iluminado para o céu suplicou ao Altíssimo:
- Senhor, assim não vai dar, isso aqui tá o maior tumulto. Por que a gente não tenta na Galiléia de novo?
E Deus, em sua infinita piedade, achou melhor concordar com o anjo. E Gabriel, então, pode voltar para o céu. E eis que suas orelhas doíam como nunca antes na história de sua existência angelical.
E lá no alto, sentado no trono de infinita beleza, rodeado de querubins, serafins e outros afins, dando uma última olhadela, meio de lado, em Maria, que estava de costas, Deus ainda suspirou, mal conformado:
- Mas que é um belo exemplar da preferência nacional, é. Ô, se é!...
E então choveu.

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Notas:
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1. Lucas 1, 26
2. Lucas 1, 27
3. Lucas 1, 29-32
4. Tradução do Google (português para grego): "Não vem que não tem"
5. Lucas 1, 34-36

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