domingo, 27 de junho de 2010

AMOR E LÓGICA

De Ente Maldito

A Lógica do Impossível

- Eu penso
                - Eu existo
- Eu reflito
               - Eu reflexo
- Eu espero
               - Eu ando
- Eu tranqüilo
               - Eu admito
- Eu falo
               - Eu sinto
- Eu concordo
               - Eu aceito
- Eu acho graça
               - Eu rio
- Eu amo
               - Eu me encanto


- Eu existo
               - Eu não penso
- Eu quando
               - Eu logo
- Eu ouço
               - Eu ouvido
- Eu troco
               - Eu não tenho
- Eu passo
               - Eu passeio
- Eu termino
               - Eu recomeço


- Eu chamo      - Eu chamo
- Eu grito         - Eu grito
- Eu reta          - Eu paralela
- Eu encontro  - Eu infinito

Pero Vás

sexta-feira, 25 de junho de 2010

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O ACORDO ORTOGRÁFICO

Pois é, o "famigerado" Acordo Ortográfico que, teoricamente, foi assinado por todos os países que têm como língua ofícial o Português, continua a gerar polêmica.
Na prática, o único país que o está levando a sério é o Brasil. Portugal, a pátria matter da língua, não está nem aí para ele, havendo, inclusive, uma série de manifestações contrárias ao Acordo. O próprio Saramago, expoente escritor português, recentemente falecido, era contra o acordo e o atacava abertamente, negando-se a praticá-lo em seus livros e, inclusive, proibindo seu editor de que adequasse seus textos a ele.
Eu, particularmente, não vejo nada que justifique a existência desse Acordo, tendo em vista que, na prática, não traz qualquer melhoria ou avanço para a língua escrita.
Abaixo, transcrevo um Manifesto retirado da internet, que circulou em Portugal (2008-2009), onde os autores fazem campanha aberta na tentativa de captar o apoio do maior número de pessoas possível para que o dito Manifesto fosse apreciado pelas autoridades portuguesas e, por esse intermédio, se tomassem as medidas cabíveis a fim de que Portugal não acolha os termos do Acordo nem os pratique.
Na última contagem disponível no saite, eles já tinham conseguido 125.607 assinaturas.
Assim, fica a dúvida: será que, no fim das contas, só o Brasil irá por em prática este Acordo?
Só o Brasil gastará sabe-se lá quantos milhões para reeditar milhares de livros, em especial os didáticos, os que são distribuídos às escolas e bibliotecas, a fim de adequá-los aos termos do Acordo e, quando chegar a data aprazada para o encontro dos países de língua oficial portuguesa, a fim de ratificarem o Acordo, apenas o nosso estará presente com tal disposição, sendo que todos os outros chegarão para a tal reunião sem nada decidido e, muito pior, com calhamaços de petições semelhantes, onde cidadãos de cada um desses países solicitam que eles não adiram ao Acordo?
E então, frustrados, voltarão nossos representantes anunciando que o Acordo foi um fracasso e que precisaremos gastar milhões, novamente, a fim de fazermos voltar todos os livros reeditados ao formato anterior, ou seja, deverão ser re-reeditados?
Até agora, só quem ganhou (e muito) com isso foram as editoras, que estão rindo à toa com a montanha de dinheiro que foi e tem sido despejada nos seus cofres.
Então, para que vocês tenham uma idéia do que circulou por aí, transcrevo o material que encontrei para que possam avaliar se não estamos pagando o maior micão da história.

"Este documento foi entregue em mão a Sua Excelência o Presidente da República no dia 2 de Junho de 2008, em audiência concedida a um grupo de signatários.
Oportunamente será entregue a Sua Excelência o Primeiro-Ministro, com todas as assinaturas que vierem a registar-se até então. As primeiras 17.300 assinaturas foram entregues a Sua Excelência o Presidente da Assembleia da República no dia 8/5/2008 que também recebeu em 15/5/2008 as 33.053 assinaturas existentes nessa data.
A apreciação da petição em plenário da Assembleia da República está agendada para o dia 20 de Maio de 2009.

MANIFESTO
EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA
CONTRA O ACORDO ORTOGRÁFICO
(Ao abrigo do disposto nos Artigos n.ºs  52.º da Constituição da República Portuguesa,  247.º a 249.º do Regimento da Assembleia da República, 1.º nº. 1, 2.º n.º 1, 4.º,  5.º   6.º e seguintes,  da Lei que regula o exercício do Direito de Petição)


Ex.mo Senhor Presidente da República Portuguesa
Ex.mo Senhor Presidente da Assembleia da República Portuguesa
Ex.mo Senhor Primeiro-Ministro de Portugal


1 – O uso oral e escrito da língua portuguesa degradou-se a um ponto de aviltamento inaceitável, porque fere irremediavelmente a nossa identidade multissecular e o riquíssimo legado civilizacional e histórico que recebemos e nos cumpre transmitir aos vindouros. Por culpa dos que a falam e escrevem, em particular os meios de comunicação social; mas ao Estado incumbem as maiores responsabilidades porque desagregou o sistema educacional, hoje sem qualidade, nomeadamente impondo programas da disciplina de Português nos graus básico e secundário sem valor científico nem pedagógico e desprezando o valor da História.
Se queremos um Portugal condigno no difícil mundo de hoje, impõe-se que para o seu desenvolvimento sob todos os aspectos se ponha termo a esta situação com a maior urgência e lucidez.
2 – A agravar esta situação, sob o falso pretexto pedagógico de que a simplificação e uniformização linguística favoreceriam o combate ao analfabetismo (o que é historicamente errado), e estreitariam os laços culturais (nada o demonstra), lançou-se o chamado Acordo Ortográfico, pretendendo impor uma reforma da maneira de escrever mal concebida, desconchavada, sem critério de rigor, e nas suas prescrições atentatória da essência da língua e do nosso modelo de cultura. Reforma não só desnecessária mas perniciosa e de custos financeiros não calculados. Quando o que se impunha era recompor essa herança e enriquecê-la, atendendo ao princípio da diversidade, um dos vectores da União Europeia.
Lamenta-se que as entidades que assim se arrogam autoridade para manipular a língua (sem que para tal gozem de legitimidade ou tenham competência) não tenham ponderado cuidadosamente os pareceres científicos e técnicos, como, por exemplo, o do Prof. Óscar Lopes, e avancem atabalhoadamente sem consultar escritores, cientistas, historiadores e organizações de criação cultural e investigação científica. Não há uma instituição única que possa substituir-se a toda esta comunidade, e só ampla discussão pública poderia justificar a aprovação de orientações a sugerir aos povos de língua portuguesa.
3 – O Ministério da Educação, porque organiza os diferentes graus de ensino, adopta programas das matérias, forma os professores, não pode limitar-se a aceitar injunções sem legitimidade, baseadas em “acordos” mais do que contestáveis. Tem de assumir uma posição clara de respeito pelas correntes de pensamento que representam a continuidade de um património de tanto valor e para ele contribuam com o progresso da língua dentro dos padrões da lógica, da instrumentalidade e do bom gosto. Sem delongas deve repor o estudo da literatura portuguesa na sua dignidade formativa.
O Ministério da Cultura pode facilitar os encontros de escritores, linguistas, historiadores e outros criadores de cultura, e o trabalho de reflexão crítica e construtiva no sentido da maior eficácia instrumental e do aperfeiçoamento formal.
4 – O texto do chamado Acordo sofre de inúmeras imprecisões, erros e ambiguidades – não tem condições para servir de base a qualquer proposta normativa.
É inaceitável a supressão da acentuação, bem como das impropriamente chamadas consoantes “mudas” – muitas das quais se lêem ou têm valor etimológico indispensável à boa compreensão das palavras.
Não faz sentido o carácter facultativo que no texto do Acordo se prevê em numerosos casos, gerando-se a confusão.
Convém que se estudem regras claras para a integração das palavras de outras línguas dos PALOP, de Timor e de outras zonas do mundo onde se fala o Português, na grafia da língua portuguesa.
A transcrição de palavras de outras línguas e a sua eventual adaptação ao português devem fazer-se segundo as normas científicas internacionais (caso do árabe, por exemplo).
Recusamos deixar-nos enredar em jogos de interesses, que nada leva a crer de proveito para a língua portuguesa. Para o desenvolvimento civilizacional por que os nossos povos anseiam é imperativa a formação de ampla base cultural (e não apenas a erradicação do analfabetismo), solidamente assente na herança que nos coube e construída segundo as linhas mestras do pensamento científico e dos valores da cidadania.
Os signatários,
Ana Isabel Buescu
António Emiliano
António Lobo Xavier
Eduardo Lourenço
Helena Buescu
Jorge Morais Barbosa
José Pacheco Pereira
José da Silva Peneda
Laura Bulger
Luís Fagundes Duarte
Maria Alzira Seixo
Mário Cláudio
Miguel Veiga
Paulo Teixeira Pinto
Raul Miguel Rosado Fernandes
Vasco Graça Moura
Vítor Manuel Aguiar e Silva
Vitorino Barbosa de Magalhães Godinho
Zita Seabra"

Não localizei (ainda) o resultado da citada reunião. Vou continuar buscando. Se alguém puder me auxiliar, ficarei muito agradecido.

Para informações mais consistentes e discussões melhor elaboradas, indico o blog do Professor Moreno. Lá vocês encontrarão este assunto bastante esmiuçado e adequadamente tratado.
Boa leitura.


Por Ente Maldito

Eleições 2010

É ano de eleição, e eu não poderia deixar passar esta oportunidade.
Em épocas como esta, sempre cabe a velha e bem cabida reflexão: votar em quem e por quê?
A cada eleição, nosso pensamento perde-se em meio a tanta proposta "inovadora", "revolucionária", "moderna". Porém, se repararmos bem, poucos são aqueles que, caso eleitos, levam adiante as propostas que alardeiam no momento em que pedem votos. No mais das vezes, encolhem-se em seus gabinetes e tornam-se meros coadjuvantes da atuação de outros, ditos "destacados". O máximo que fazem no intercurso de seus mandatos é assinar projetos, assinar petições, "compor a base". Não passam de "números".
Isso nos deixa sempre (e para sempre) mais e mais desconfiados. E inseguros sobre em quem votar. Os programas partidários são, em geral, obscuros e mal divulgados (eu até arriscaria dizer que sequer são divulgados).
As siglas partidárias escondem-se atrás de nomes de candidatos, quando o contrário é que deveria ser o corrente: na frente, o partido, com seu programa, sua ideologia; logo a seguir, as pessoas que coadunam com esses ideais.
Se bem me lembro, geralmente, quando algum detentor de cargo sufragiado é questionado sobre a razão de ter apoiado ou deixado de apoiar este ou aquele tema, a resposta é a de que segue a orientação do partido. Mas, se no desempenho do cargo, seguem a orientação do partido, por que na eleição, não? Por que passam a impressão de estão atuando sozinhos, em causa própria ou "no interesse dos seus eleitores"? Isso é muito confuso.
Pois são esses procedimentos confusos que atiçam a nossa imaginação e, ocasionalmente, o preconceito que temos para com a classe política brasileira.
Apoiado nisso, compus a poesia que trasncrevo abaixo, onde manifesto o resultado dessa relação obscura (no meu entendimento) candidato-partido político.


O CANDIDATO

Tu que não és sim.
Tu que não és não.
Tu que és talvez,
Mistério, adivinhação.

Tu cujos olhos vêem
Só o que querem ver.
Tu cujos ouvidos ouvem
Só o que querem ouvir.

Tu que muito falas
E calas coisas por dizer.
Tu que muito ages
E deixas coisas por fazer.

Tu que és feliz.
Tu que estás bem.
Tu a quem a vida
Deu vida para ser ninguém.

Tu que não tens ar, movimento,
Rija mente chã.
Tu que tens a voz do cimento,
Obra prima de Rodin.

Toma o meu voto,
Pega o meu dinheiro,
Leva o meu tempo.

Se tudo der certo,
A partir de janeiro,
Estarás no topo...

E eu, por quatro anos,
No teu esquecimento.

Pero Vás

segunda-feira, 21 de junho de 2010

RE-ANUNCIAÇÃO

"Ao sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma" vila da cidade de Porto Alegre, "chamada Nazaré, para se apresentar diante de uma virgem desposada com um homem chamado José, da família de David; e o nome da virgem era Maria."1
E, ao entrar no barraco da virgem (sem duplo sentido), disse-lhe o anjo:
- "Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo."2
Ao ouvir estas palavras, ela, que não entendia uma sílaba sequer de aramaico, quanto mais uma frase inteira, assustou-se.  O anjo, percebendo a perturbação da mulher, falou:
- "Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus. Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo. O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de seu pai David, reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim."3
E disse Maria ao anjo:
- Ahhhhhhhhhhh!!!!
E eis que, repentinamente, surgiram na porta do quarto, seus pais, Pedro e Jurema. E Pedro, que era uma rocha, trazia em uma das mãos um facão três-listras. E sem nem mesmo contar até três, mesmo porque não sabia, atirou-se sobre o anjo. E Maria correu para os braços da mãe gritando:
- Mata ele, pai! Mata ele!
E Gabriel, que não esperava tal reação, pois da última vez tinha tudo corrido tão bem, assistiu, surpreso, Pedro trespassar-lhe o corpo etéreo com o facão. E então, diante do estupefato Pedro, perguntou:
- Saulo, que passa, lôco?
E Pedro, que estava mais surpreso que o anjo, murmurou:
- Puta que o pariu.
E eis que apareceu a vizinha do lado, com o marido, seguida, ainda, pelos quatro filhos. E o menor, que só tinha visto anjo em filmes da Xuxa, agarrou-se à cintura da mãe e, apontando para Gabriel, gritou:
- É o Tocha Humana!
E Gabriel, que tinha vindo apenas para anunciar à Maria que ela daria à luz o filho do Senhor, não estava gostando nem um pouco daquele tumulto. E disse a vizinha para Jurema:
- Péra aí que eu já volto!
E enquanto a vizinha não voltava, tomou, Maria, coragem e perguntou ao anjo:
- Quem é que tu é, meu?
E o anjo não entendia Português. Principalmente o Português falado no Brasil que, afinal, é um dialeto, e que cada um fala como quer ou como sabe ou como pode. E Gabriel achou melhor recorrer ao auxílio divino:
- Senhor, eu não os entendo. Dai-me a Vossa Graça para que possa entendê-los.
Mas o Senhor respondeu que também não conhecia aquela língua. Que, quando do episódio da Torre (de Babel), não lembrava de ter criado tal idioma. E o anjo ficou muito decepcionado. E dirigiu-se novamente à Maria, na esperança de conseguir estabelecer um diálogo:
- Maria, filha de Pedro, vim trazer-te a Boa-Nova. Sou Gabriel, o mensageiro do Senhor, ouve-me!
E Maria continuava sem entender nada do que o anjo dizia. E, a essa altura, o pátio da casa de Pedro já estava tomado de gente, todos alertados pela vizinha do lado. E então alguém disse para alguém que achava que conhecia aquele cara. E muitos concordaram. E alguns, inclusive, até lembravam dele. E perguntou Maria a Gabriel:
- Tu é da pedra?
E ele respondeu com outra pergunta:
- What?
E Pedro, que também não entendia nada de aramaico, entendeu que o anjo tivesse dito sim. E saiu falando para todo mundo que o homem que invadira o quarto de sua filha "tava na pedra". E o vizinho da frente disse que ia chamar a polícia. E uma amiga de Maria, que entrara na casa, filmava tudo no i-Phone para, mais tarde, postar no Youtube. E o anjo começou a ficar nervoso. E o irmão de Maria queria tirar uma foto. E o brilho provocado pelo flash assustou Gabriel, que desembainhou a espada. E a espada de Gabriel era muito grande. E Jurema comentou para algumas vizinhas que estavam próximas:
- Nossa! Que espadão!
E todos os que viram ficaram muito impressionados. E as mulheres comentaram que o anjo até que era bem simpático. E Pedro não gostou nem um pouco do comentário da mulher.
Foi então que, sem pedir licença, entrou na casa de Pedro, Didão, o traficante que dominava aquela zona. E Didão perguntou a Pedro:
- Quem é essa pinta?
E Pedro, sacudindo os ombros, disse que não o conhecia. E Didão ordenou aos seus que apagassem o cara. E os bandidos entraram no quarto atirando. E iniciou-se um corre-corre danado na rua.
E eis que chegou a polícia. E junto com ela chegaram, também, vários representantes da imprensa local, inclusive a TV. E o anjo Gabriel resolveu dar uma espiada para ver que zona era aquela. Atravessou as paredes e chegou até a rua. E viu que estava o maior bolo na frente da casa. E assim que apareceu no pátio da frente, os cinegrafistas apontaram suas câmeras, os repórteres esticaram seus microfones, os iluminadores acenderam seus holofotes e Gabriel quase ficou cego. E voltou, então, para o quarto, ajeitou as asas, sentou-se na cama, e soltou um suspiro desanimado. E Maria já estava ficando com pena dele, coitado. E Jurema deu a idéia de chamar a professora, que já tinha ido até pro estrangeiro, que talvez ela pudesse ajudar a entender o que aquele moço dizia.
Enquanto isso, do lado de fora, a polícia tentava conter, na porrada, os ânimos do pessoal, que estava muito agitado. E Pedro, tentando aparentar calma, perguntou ao anjo se ele aceitava uma Brahma bem geladinha. E com os olhos aguados, o anjo disse que não estava entendendo nada daquela movimentação toda. Que só queria anunciar à Maria que ela daria à luz o filho de Deus e que depois iria embora, em paz, para alguma nuvem bem branquinha nos confins do Paraíso. E ninguém entendia nada do que ele dizia. E todos falavam ao mesmo tempo. E eis que a casa de Pedro mergulhava na confusão. E um policial se aproximou e perguntou a ele se conhecia aquele elemento. E, pela segunda vez, Pedro respondeu que não fazia a mínima idéia de quem ele era.
E eis que uma sirene foi ouvida ao longe. E eram os enfermeiros de uma clínica para recuperação de drogados. E os enfermeiros, que eram três, pediram licença e entraram na casa de Pedro. E o primeiro enfermeiro trazia tranqüilizantes. O segundo, spray de pimenta. E o terceiro, uma camisa de força. E vendo, eles, o anjo sentado na cama, tentando pegar um copo com água que Jurema, esposa de Pedro, lhe oferecia, perguntaram a Pedro se ele conhecia o paciente. E, pela terceira vez, Pedro disse que nunca o tinha visto mais transparente. E os enfermeiros comentaram entre si:
- Esse é dos grandes. Vai ser foda.
E o primeiro enfermeiro se acercou pela esquerda, com a seringa de tranqüilizante pronta para aplicar. O segundo se acercou pela direita, com o spray de pimenta pronto para disparar. O terceiro, pela frente, com a camisa de força pronta para o vestir. E o anjo, erguendo-se, desembainhou a espada novamente e gritou para eles:
- ότι δεν έχει έρθε!4
E Jurema, ao ver aquela espada enorme mais uma vez, quase teve um troço. E o anjo não se deu por conta do poder de sua voz de anjo, que reboou como mil trovões. E eis que as paredes da casa racharam. E barulhos de rangidos começaram a ser ouvidos por todos os cantos do imóvel. E deu tempo apenas de sairem antes que a casa toda viesse abaixo. E Pedro teve de ser contido pois, agora sim, jurava que iria acabar com aquele desgraçado. E, no meio de tanta confusão, de tantos gritos e blasfêmias, o anjo conseguiu aproximar-se de Maria e, puxando-a para um canto, disse-lhe, procurando falar depressa:
- "
O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus. Também a tua parente Isabel concebeu um filho na sua velhice e já está no sexto mês, ela, a quem chamavam estéril, porque nada é impossível a Deus."5
E Maria tremia que nem vara verde. E, com as poucas forças que o medo ainda não lhe tomara, entre lágrimas e soluços, disse para o anjo:
- Não faz isso comigo, meu, pelamordedeus! Tu é muito bonitinho, mas eu já tô ficando com outro. Pelamordedeus. Tu tá na pedra, meu! Deixa eu ir embora, por favor. Ahhhhhhhhhhhhhh!
E eis que, finalmente, apareceu José. E José explicou aos sogros que estava num futebolzinho com os amigos, e que então rolou um churrasquinho, e uma cervejinha, e o João-Sem-Braço apareceu com o violão e coisa e tal, e que só agora tinha sido avisado do que estava acontecendo. E, assim, os três deixaram-se ficar por algum tempo, conversando animadamente. E, ao ouvir o grito de Maria, José, mais do que depressa, juntou um pedaço de tijolo das ruínas da casa de Pedro e o arremessou contra o anjo. E todos viram quando o bólido de barro e cimento passou através do seu corpo sem nada fazer-lhe. E eis que todos ficaram maravilhados.
E alguém gritou que aquilo só podia ser coisa de fantasma. E a notícia se espalhou. E o medo se espalhou junto. E resolveram chamar o padre. Mas o padre mandou dizer que o seu negócio era salvar almas que ainda estavam nos corpos, e que almas penadas não eram com ele.
E então alguém lembrou de um pastor argentino que fazia exorcismo e que tinha um terreiro num barraco mais acima. E Pedro ordenou que chamassem o tal pastor. E assim se fez. E tão logo o pastor se apresentou, perguntou-lhe Pedro:
- Será que tu consegue mesmo expurgar essa praga?
E o pastor, olhando-o com desdém, respondeu:
- Por supuesto!
E vendo o anjo em toda a sua a graça, esplendor e magnitude, concluiu, o pastor, que aquela criatura só podia ser um soldado do Diabo. E ordenou que todos erguessem louvores ao Senhor com gritos de Aleluia, vivas e Graças a Deus, enquanto ele preparava os trabalhos.
E Maria conseguiu livrar-se do anjo e correu para os braços de José. E o anjo estava aterrorizado com toda aquela histeria. E lembrou-se de que não via nada assim desde uns dois mil e poucos anos antes, durante o batizado de João Batista. E eis que um carro de som surgiu, não se sabe de onde, tocando músicas da Mara Maravilha num volume que nem a voz de Deus conseguiria se fazer ouvir. E, mesmo assim, Deus interveio. E bradou para que parassem com aquela balbúrdia. E sua voz reboou pelo céu como o estrondo de um milhão de trovões. Mas, no meio daquela zorra, ninguém conseguia ouvir nada. E os poucos que ouviram pensaram que era chuva, apesar do céu limpo e estrelado.
E logo a terra se cobriu de vendedores de guarda-chuva a R$ 5,00. E os ambulantes baixaram os preços de seus produtos. E a latinha de cerveja, que estava sendo vendida a R$ 3,00, foi para R$ 1,50. E o espetinho de gato, que era R$2,50, passou para R$1,00. E todos gritavam hosanas ao Senhor. E o anjo só pensava em ir embora daquele inferno.
E voltando o rosto iluminado para o céu suplicou ao Altíssimo:
- Senhor, assim não vai dar, isso aqui tá o maior tumulto. Por que a gente não tenta na Galiléia de novo?
E Deus, em sua infinita piedade, achou melhor concordar com o anjo. E Gabriel, então, pode voltar para o céu. E eis que suas orelhas doíam como nunca antes na história de sua existência angelical.
E lá no alto, sentado no trono de infinita beleza, rodeado de querubins, serafins e outros afins, dando uma última olhadela, meio de lado, em Maria, que estava de costas, Deus ainda suspirou, mal conformado:
- Mas que é um belo exemplar da preferência nacional, é. Ô, se é!...
E então choveu.

----------------------------------
Notas:
----------------------------------
1. Lucas 1, 26
2. Lucas 1, 27
3. Lucas 1, 29-32
4. Tradução do Google (português para grego): "Não vem que não tem"
5. Lucas 1, 34-36

ENTRAVE


Entra, ave, entra,
e voa na tua gaiola.
A vida que tens, aproveita,
pois outra só podes sonhá-la.

Entra, ave, e canta,
arrebenta teu canto encantado.
No túnel de tua garganta
vibram as cordas de arame trançado.

Entra, ave, e pousa,
repousa em teu novo aposento.
Pouco importa quão triste é a tristeza,
aqui ninguém te ouvirá o lamento.

Entra, amada, pra dentro.


Autista Baptista

Mistura Fina

Na manhã nublada e fria,
imagina-se Clóvis
em altos loves
com Medonha,
a rainha feia.

Com a cabeça segura entre as mãos, pensa:
- "Para essas horas,
só com Engov na veia!"

Autista Baptista

sábado, 5 de junho de 2010

Dúvida Etílica


Não sei por que, poeta
sempre posa de bebum!
Se, neste planeta,
não há poupado a nenhum,
será sinal de que a alcoolemia
só A.A. na poesia
e em mais lugar algum?

Por Autista Baptista

Considerações Poéticas



Poesia não é língua,
Poesia não é romance.
Poesia não é forma,
não é regra, não é nuance.
Poesia é a linguagem
preferida dos amantes.
Poesia é o que dá forma
às ousadias mais pungentes.

Poesia não é frase,
Poesia não é pensamento.
Poesia não é sorte,
não vem conforme o vento.
Poesia é pensada,
assentada num sentimento.
A Poesia existe fora
mas o Poema... vem de dentro.

Por Pero Vás

O Amor no Tempo do Verbo

Paro, parando,
e penso, pensando,
que se seguir seguindo
a andar andando
talvez chegue, chegando,
a um canto, cantando,
qualquer, qualquerendo,
onde estará, estando,
uma mulher, mulherando,
a beber, bebendo.


E se a olhar, olhando,
com amor, amando,
pode ser, sendo,
que sem querer, querendo,
ela corresponda, correspondendo,
com um sorriso, sorrindo.
E sabe-se lá, sabendo,
se não dirá, dizendo:
"Venha aqui, vindo."?


(Ela)
- Por onde andas andando,
que te vi vendo
um lugar para ficar ficando
onde estivesse, estando,
alguém a esperar, esperando,
por quem não sabe, sabendo?
(Ele)
- Tenho estado, estando,
parado, parando,
mas agora que cheguei chegando
acho que achei, achando,
o que buscava, buscando.
(Ela)
- Seria eu, sendo?
(Ele)
- É.
(Ela)
- Não entendo...
(Ele)
- Direto serei.
(Ela)
- Seja.
(Ele)
- Tão logo a vi...
(Ela)
- Sim...
(Ele)
- Te amei!
(Ela)
- Xi!...
(Ele)
- O quê?
(Ela)
- Veja...
(Ele)
- Sim.
(Ela)
- Não pode ser assim, assim...
(Ele)
- Por quê?
(Ela)
- Não amo você.
(Ele)
- Então...
(Ela)
- Melhor seguir...
(Ele)
- Seguir?...
(Ela)
- Seguindo.
(Ele)
- Para onde?
(Ela)
- Indo.
(Ele)
- Sem parar?
(Ela)
- Ou parando.
(Ele)
- Assim tem sido, sendo.
(Ela)
- Eu sei...
(Ele)
- Como?
(Ela)
- Sabendo.
(Ele)
- Vou sonhar.
(Ela)
- Vá sonhando.
(Ele)
- Então tá!
(Ela)
- Mas não corra, correndo.
(Ele)
- Continuarei, continuando, a andar andando.
(Ela)
- Adeus...
(Ele)
- Até quando?
(Ela)
- Não sei (sabendo).
(Ele, indo)
- Adeus.
(...)
"O Amor só É, Sendo!"


Por Autista Baptista

Maria Sonhadora

Que foi, Maria?
Por que choras?
Choro porque sonhei um dia,
e agora nem em sonhos
encontro consolo.
Vem, Maria, tira essa túnica
e deita-te ao solo...
Vou te enterrar.


Por Autista Baptista

Noturno

Não, não sou de açúcar
ou mole qual chocolate:
a vida é que é doce.


Por Ente Maldito
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