quarta-feira, 21 de abril de 2010

Prêmio Literário Cidade de Porto Seguro de Contos Curtos

E teve também o concurso em epígrafe. Nesse concurso é necessário escrever um conto utilizando-se de até 2000 caracteres. O tema é livre.
Na edição 2009 foram 3.517 textos participantes. O conto que enviei acabou classificado entre os 100 escolhidos para participar da antologia do concurso a ser lançada em 04 de setembro de 2010, na Secretaria de Cultura de Porto Seguro.
Eis a pérola escolhida.

ESPERA

Olhar o medidor. Todos os dias. Olhos atentos ao medidor pendurado na parede à sua frente. O ponteiro não pode – jamais! – chegar no nível 3 – o vermelho. Atenção máxima! Cochilar, nem pensar. É um trabalho que exige altíssima responsabilidade.

Na sala, de paredes azul-claro, vê-se apenas uma escrivaninha, uma cadeira de espaldar alto e assento confortável, e o medidor. Sobre a escrivaninha, no centro, um grande botão. Se o medidor chegar no nível 3, o botão deve ser imediatamente pressionado.

Este é o seu mundo. Esta é a sua razão de viver. Esperar, vigilante, a ocasião de pressionar aquele botão.

Na empresa, goza de ótimo conceito: jamais foi pego dormindo ou distraído. Chegou a receber um prêmio de reconhecimento pelos bons serviços prestados. Porém, sentia-se como se nunca houvesse prestado serviço algum. Em trinta e cinco anos naquela sala, nunca precisou apertar aquele botão. Não tinha a menor idéia sobre o que aconteceria se o apertasse. E agora estava ali, vivendo o seu último dia na empresa, angustiado por que carregaria para o resto da vida esse grande mistério. Foi então que sentiu um aperto no peito - uma dorzinha bem lá no fundo - e dificuldade para respirar. Abriu a camisa. Um formigamento, que começara nas mãos, agora parecia tomar conta de todo o corpo. “Ó, não! O coração! Meu Deus! O coração! Não! Nã...”

Encontraram-no morto, debruçado sobre a escrivaninha. “Que azar!”, comentou um colega, “Estava quase se aposentando. Faltava só mais um dia.”. “Bah, que azar, mesmo!”, concluiu outro. De repente, o ponteiro do medidor se moveu para o nível 2 e uma luz amarela acendeu. O ponteiro continuou se movendo, até chegar no nível 3. Uma outra luz, vermelha, acendeu, piscante, e uma sirene soou. Um dos homens imediatamente apertou o botão. Aos poucos, o ponteiro do medidor foi se movendo de volta para o nível 1 – o verde -, e tudo voltou ao normal. Ao se virarem e olharem para o morto, perceberam que em seu rosto se esboçava algo parecido com um sorriso.

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