sexta-feira, 10 de abril de 2009

PAIXÃO DE CRISTO NO MORRO DA CRUZ - CINQUENTA ANOS UNINDO FÉ E INCLUSÃO CULTURAL


Camilo de Lélis
Começou assim: em 1994, o saudoso padre Ângelo Costa procurou a SMC, em busca de melhorias para a representação da Paixão de Cristo no Morro da Cruz que, desde 1960, vinha sendo realizada pela comunidade. Luciano Alabarse, na época coordenador de artes cênicas, sabendo que eu trabalhava com temas épicos e eventos populares, convidou-me para dirigir o espetáculo. Aceitei.
Depois de um conversa com Padre Ângelo, partimos para os ensaios. Primeiramente, chamamos os moradores que participavam do "teatro do morro da cruz" representando determinados papéis, depois contratamos atores profissionais para completar o elenco. Quero fazer justa homenagem a dois atores que faleceram no transcurso desses anos: Leverdógil de Freitas, que fazia o papel de Herodes e Meme Meneghetti que, por muito tempo, viveu o carismático São Pedro.
Muitos episódios pitorescos ocorreram desde então; coisas que o povo do lugar traz na lembrança. Só para citar alguns: certa vez, uma das produtoras não havia comprado, com antecedência, as pombas necessárias para uma cena e, por estar o comércio especializado fechado na sexta-feira santa - viu-se obrigada a caçar as aves, de arapuca improvisada, nas praças do centro da cidade. Esse caso foi parar no Fantástico, na rede Globo de Televisão. Em outra feita, apareceram treze apóstolos na hora da Santa Ceia, mas o público, que estava atento, denunciou o furão, que saiu do palco de fininho. E o famoso milagre que ocorreu em 2005: Jesus estava suspenso na Cruz, lá no alto do Morro, quando a produção soltou um pombo para simbolizar a presença do Espirito Santo. O pássaro branco sobrevoou o público e retornou para pousar num dos braços da cruz, depois foi caminhando, tranquilo, rumo à cabeça coroada de espinhos do ator Aldacir Oliboni, ali aninhou-se, e ficou até que o corpo fosse descido para o sepultamento. O povo aclamou o milagre em alta voz e a foto da cena foi parar nos jornais.
A encenação tem três estágios, em diferentes espaços geográficos. Começa no palco em frente à igreja São José de Murialdo, onde mostra a missão, milagres, traição e julgamentos sofridos por Jesus. Depois vem a longa caminhada seguindo a cruz, com as quedas e açoitamento, que o refrão popular enfatiza:
Pobrezinho de Jesus
em seu desgosto profundo
suportou naquela cruz
o peso de todo o mundo
Claro que é um trajeto difícil. Subida íngreme. Há pessoas pagando promessas, com os filhinhos vestidos de anjo, ou subindo descalços ou, ainda, portando suas respectivas cruzes e imagens do Menino Jesus de Praga. Vê-se, aqui e ali, o povo de Umbanda ou do Batuque, que fazem honra a Oxalá, na figura do Senhor dos Passos. Ecumenismo. Brasilidade. Os moradores, da calçada, oferecem água aos penitentes, pois é hora de uma estação muito importante: vê-se a Nossa Senhora das Dores, que no seu palco, com expressão trágica, aguarda o filho flagelado. Longa pausa. É a famosa Pietá, que o cordel aponta, em rimas pobres, porém sinceras:
Mãe Maria está chorando
ferida no coração
com sete facas cortando
aumentando sua aflição
A fé empurra lomba acima. Todos querem chegar ao destino, atores e fiéis já não se distinguem, só resta a ação de cumprir o rito sagrado. Jesus é crucificado no ponto mais alto do Morro da Cruz, depois é sepultado e, após uma breve espera, a apoteose acontece: ele ressuscita e sobe aos céus a bordo de um elevador mecânico, devidamente disfarçado em nuvem. Fogos, música alegre, aplausos:
A morte não vai matar
o filho do nosso Deus
Ele veio pra salvar
a todos os filhos seus
Milhares de pessoas agora descem o Morro com uma expressão de alegria nos rostos cansados, elas sabem que no próximo ano a Paixão vai se repetir, no eterno ciclo de Viver, Morrer e Renascer.
Este ano, a procissão faz cinquenta anos, quinze com minha participação, e sempre é uma emoção nova encenar a vida, paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, no Morro da Cruz, bairro Partenon. O Evento é realizado todos os anos, na sexta-feira santa, pela Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, numa parceria com o santuário São José de Murialdo e conta com mais de duzentos integrantes entre crianças, jovens e adultos de todas as idades, que participam, unindo-se aos profissionais de teatro, num exemplo de inclusão cultural.

Camilo de Lélis.

Veja imagens da encenação clicando aqui - Fotos de Vilmar Carvalho
Veja imagens da encenação clicando aqui - Fotos de Carmem Gamba
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