sexta-feira, 6 de março de 2009

O Dramaturgo e o Poeta


Por Camilo de Lélis

Narciso em Cnossos


Dois espelhos confrontam-se num aposento vazio.

Por saber deles, sei de meu duplo, que habita, solitário, em seus labirintos. Ao pressentir-me em algum espaço, intangível, se agita em sua ânsia por achar-me... Então vem de encontro à imagem que julga ser a minha e, ao espelhar-me, toma impulso e salta, tentando escapar do espelho e seu reflexo, mas só o que consegue é adentrar ainda mais profundamente no corredor que se repete e afunila através da imagem da imagem da imagem sem fim.
Contrafeito, dando as costas a si mesmo, se
afasta, desorientado, convulso, para os sem fins de sua morada especular.

Camilo/Ente Maldito


Bacante




Ess
a varinha é o Tirso, encimado pela pinha,
e que olhar dissimulado
tem essa moça de boa família.
Morder a unha do dedo mínimo,
faz o incauto tomá-la por inofensiva...
O seio branco já amamentou um filhote de pan
tera,
e, no verão passado, essas mãos lívidas
esquartejaram uma novilha.
Não te aproximes, varão!
Porque, então, as vestes alvas se tornam tintas,
e os belos dentes trincam nacos de carne crua.

camilo.


Reflexões deitado em rede indígena

O vento frio no inverno e a chuva em qualquer estação produziram
a necessidade destas paredes de belos tijolos avermelhados,
e a rede pendurada nelas mantém-me distante do chão.
Não flutuo porque a gravidade é lei circunstancial mas indiscutível,
não estou deitado sobre um conceito, pois a palavra "rede" é inócua
para o efeito de sustentar.
O que me segura é o real, fluido mais líquido impossível. O algodoeiro,
plantado outrora, está aqui, florindo suas mechas brancas ao sol
incandescente de algum verão antigo, têm mãos humanas colhendo-as, tem
tecelagem, tem tinturaria e cada uma das cores, pois a rede é
listrada, contém vejetais e minerais diversos em sua composição. Estou
vendo, tateando e cheirando essa realidade que me balança ternamente,
enquanto outro fluxo corre pelos tecidos do meu corpo em sutis
transformações e um rio de idéias acompanha o sangrar intermitente da
tinta da caneta.
Agora recordo de porque pensamos: nos beliscamos com os conceitos
para acordarmos numa consciência subjetiva, do contrário esse amálgama
de realidades nos sugaria e absorveria em suas víceras eternas, sem
orifícios de entrada e de saída. Sem perímetros para o experimento,
sem o tato que é o supremo sentido - sem sensação - seríamos essência
apenas, sem existência.
Isso é o real,assustador. Lembro-me de uma professora desenhando
círculos num quadro negro. A vida é a ação de absorver e excretar...

camilo (na rede).
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