quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O Ensino e as Mentes Embotadas II


Por Ente Maldito

Na postagem anterior esqueci de acrescentar algumas considerações que julgo importantes, então o faço agora.
A secretária Mariza Abreu (a boca pra dizer besteira), ao insistir em adotar o método da empresa privada na manutenção do emprego dos professores estaduais, esquece-se (talvez propositadamente) de mencionar que um empregado de escola particular, ao ser demitido, fará jus à indenização, a férias proporcionais, a décimo-terceiro proporcional, às horas-extras, ao aviso-prévio e fundo de garantia. Já o empregado público tem direito aos dias trabalhados no mês em que se der a demissão e ao décimo-terceiro proporcional, ou seja, é mandado embora com uma mão na frente e outra atrás. Imagine-se um professor com vinte anos de carreira, na rua, sem direito a nada! Vinte anos não são vinte dias! Se uma pessoa, com vinte anos de serviços prestados a uma empresa particular, vier a ser demitida, com o dinheiro que receberá adquirirá a casa própria, um carro e ainda sobrará bastante para se manter por algum tempo. Já o funcionário público...
Então, se se admite a possibilidade de demitir um funcionário público, penso que se deveria estender a este os "privilégios" dos funcionários da empresa privada, não acham?
Outro detalhe: os empregados de escola particular têm um foro ao qual recorrer no caso de divergências com seu ex-patrão: a justiça do trabalho. Já o funcionário público não tem mediador. Ele deve recorrer ao próprio ex-patrão. Sacanagem, não é, não? Aí, se o ex-patrão disser: "fica mantida a demissão.", o próximo (e único) passo é procurar a justiça comum, sabe por quê? Por que funcionário público não tem direitos trabalhistas! Só direitos civis!
Tu nunca vais ouvir falar de um funcionário público requerendo o pagamento de suas horas-extras na justiça do trabalho. Só no tribunal de justiça. E, caso ganhe a causa, sabe como é que ele vai ser pago? Com carta precatória... Ééééé, meu amigo, com carta precatória, ou seja, com um papel onde vem escrito que o governo reconhece que tem uma dívida com esse trabalhador e pagará quando puder (quiser).
Assim, secretária, fica muito fácil, não acha? A pessoa batalha para ser aprovada num concurso público, concorrendo com outros 1.000 por vaga; depois se sujeita a trabalhar num ambiente insalubre, por um salário miserável, para uma população que tem mínimos traços de civilidade; e então, ao fim de quinze anos, um pai (ou uma mãe) vai à diretora da escola e faz uma reclamação contra aquele professor; é aberto, então, um inquérito administrativo e, dependendo de muuuiiitas coisas (precisamos considerar, também, neste escopo, que o "comportamento político" do funcionário certamente será levado em conta na hora de beneficiá-lo ou sacaneá-lo), ao fim, se poderá concluir que este professor não está mais apto a trabalhar na escola pública e então é demitido. E aí? Quem arca com esse problema social? "Eu não", apressa-se em dizer a dona Mariza. Pois, é. É isso aí: "Eu não". E "eu não" dirão todos, e esses mesmos "todos" continuarão a abrir a boca para reclamar da falta de professores e dizer que aqueles que se acham mal pagos, "que vão procurar outro emprego". Se isso viesse realmente a acontecer, o que essa gente burra não vê é que seus filhos (e os filhos dos outros) não teriam professores dispostos a ensiná-los e que a única forma de fazer essa gente retornar para a sala de aula, seria oferecer-lhes melhores salários e melhores condições de trabalho. Então, por que não fazer isso agora, já, ao invés de ficar massacrando uma classe inteira de trabalhadores? Não foi essa mesma secretária que defendeu a senhôra governadôra quando esta reclamou aumento salarial para si e para o seu secretariado sob o argumento de que melhores salários atraem os melhores profissionais? Não foi essa mesma secretária que disse que tal argumento era óbvio e justo, e que, tanto a senhôra governadôra quanto seus confiados, mereciam realmente um salário a altura da importância da função que desempenham? E qual a importância da função desempenhada por um professor? A secretária, a senhôra governadôra e os outros secretários se retirarão do nosso convívio logo, logo, e serão águas passadas, já os professores, não. Eles permanecem nas nossas vidas, mesmo depois de dela terem se retirado. Segundo a minha ótica de valorização das funções desempenhadas pelos agentes públicos, os professores vêm antes da senhôra governadôra, dos seus secretários e dos parlamentares que a apóiam ou se opõem a ela. Mas esta é a minha visão. Não sou dono da verdade e não vivo em terra de cegos, portanto não sou rei.
Indo além: o que essa gente ignorante não percebe, é que o professor é um profissional; um profissional que gosta de sua profissão, como o administrador gosta de administrar, o engenheiro de projetar e construir, o jogador de futebol de jogar bola (todos estes, aliás, formados por professores) e que tem o direito de exigir respeito e valorização ao trabalho que desempenha, pelo investimento digno na sua pessoa, por aquele que o contrata. Ou, me diga: tu lutas para te formares em direito, passar na prova da OAB e, mais tarde, por não concordar com o salário que lhe será pago num órgão público qualquer para cujo cargo tenha concorrido, decide que vai vender cachorro-quente na frente da igreja. Isso é valorização pessoal? "Eu não me vendo por qualquer trocado.". Bah!... Papo furado! Toda a pessoa quer atuar na área com a qual mais se identifica, pois trabalho também é realização pessoal e não apenas punição infinita pelo pecado original cometido pelo patricarca da raça humana e trabalho não se presta apenas para ganhar dinheiro, mas também reconhecimento, dignidade, satisfação.
Não há sociedade que consiga atingir um mínimo de civilidade sem o ensino. E reparem que digo "ensino" e não "educação", pois distingo um termo do outro, já que, no meu entendimento, educação é dada em casa, na família, na rua, no bairro; escola é lugar de aprendizagem, de apreensão da cultura; professora não é mãe, e professor não é pai, ambos são mestres e como tais devem ser referidos.
Então, secretária estadual de educação (pfffff...), pense bem nos seus argumentos, pese-os nanometricamente, e veja se o que a senhora pretende não é o avesso do que a sociedade precisa.

E tenho dito.

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