quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Melhor Assim?


Por Ente Maldito

Há pessoas que escrevem como se assobiassem uma canção singela, simples, fácil (extremamente fácil). Sou daqueles que se apaixonam fácil por pessoas que tem uma visão de mundo de uma humanidade tão flagrante, que se parece com um espelho que reflete a mesma imagem que outro, que lhe ladeia, porém com novos matizes. Pessoas que encontram novos caminhos, novos entendimentos, muitas vezes óbvios, mas que nós, com os olhos embaçados pela pressa cotidiana, por preguiça ou por ignorância, não conseguimos perceber.
Gosto quando alguém pega um conceito e o coloca num certo contexto de tal maneira, que aquilo que antes se avaliava por uma certa ótica - estabelecida, aprovada e aceita por todos -, ganha ares de novidade e abre novos horizontes para o que antes era apenas um ponto cinza perdido no infinito inalcançável.
Isto é o que salta aos olhos no texto que transcrevo abaixo. Foi escrito por Cínthya Verri, médica e psicoterapeuta, e publicado na página 15, do jornal Zero Hora, no dia 31/01/2009.
O que me levou a vôos por alturas inalcançáveis foi a maneira como, diante de um fato real, ela trabalhou os conceitos de luto e melancolia, o que acabou por fazer com que este texto se tornasse, praticamente, uma lição de vida, um empurrão aos que se sentem fracos demais para seguir adiante, um cutucão naqueles que estão acomodados demais no seu mundinho por puro medo das conseqüências advindas de suas possíveis transformações.
São apenas algumas impressões. Minhas, exclusivamente. O texto de Cínthya proporciona muitas mais. Leiam. É muuuiiito bom. E necessário.
Ah, não posso esquecer: Cínthya também é poeta, compositora e cronista, ou seja, nasceu para praticar a medicina!

"Melhor assim?

Recebi a notícia sobre Mariana Bridi Costa na fila do supermercado. Vazou do meu iPod. No jornal, a modelo capixaba de 20 anos teve as extremidades amputadas, estava em choque séptico e poderia morrer.

O primeiro pensamento veio de relance: agora é melhor que essa menina morra. Imaginei-me acordando no leito de hospital, debilitada, com cotos ao final dos antebraços e pernas. Modelo? Viveria de quê? Fiquei assustada com minha morbidez.

Numa cascata natural, fui serenando. Mais animada. Pensei na americana Kellie O’Farrell, que sofreu queimaduras aos dois anos no rosto e que fez campanhas pelo mundo. Lembrei-me da modelo surda-muda Brenda Costa, hoje vivendo na França, aprendendo a ouvir com seu implante coclear, e de CariDee English, a modelo que teve 70% do seu corpo coberto por psoríase na adolescência e que venceu um dos maiores concursos de beleza da televisão. Eu, que naquele momento inaugurei Mariana em mim, antes de me despedir, transitei pelo luto.

No luto, podemos até ter dúvidas, mas no fundo sabemos que a dor vai passar. Ficamos desanimados, pesados, a vontade de fazer qualquer atividade fica abafada, é quando nos distanciamos do amor. Mas luto não é uma doença: a confiança existe e seguiremos adiante assim que for possível.

Se Mariana acordasse, talvez não fizesse um luto. Talvez tivesse melancolia. A diferença entre eles é que adoecemos quando sacrificamos a confiança. Sofrer uma perda com melancolia é não perder. Experimentamos a ilusão de que o tempo não se despede. A melancolia reprisa: Mariana perderia as mãos e os pés todos os dias. Não encontramos maneiras de avançar. Não acreditamos num porvir, numa sequência. Quando estamos melancólicos, não existimos sem o que perdemos. Somos a parte perdida e não o que resta.

Se Mariana acordasse, poderia viver além da perda. Sonhei que faria catálogos de botas e luvas, calçaria órteses magníficas, perduraria longamente, alcançaria a biocibernética no futuro.

Mas Mariana veio a falecer. O que me entristeceu é que o meu primeiro pensamento, absolutamente normal, foi o último pensamento da maioria das pessoas que acompanhou o caso. Escutei de muitos amigos: melhor assim. Vejo o quanto tendemos a fraquejar. Preferimos esnobar a vida a fazer com que aconteça diferente do que imaginamos.

Morrer não é uma injustiça. Muito menos um alívio."

Cinthya Verri

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Um comentário:

  1. João,
    que linda introdução.
    Que alegria senti com tua percepção, teu olhar.
    Obrigada pela raríssima coragem tua.
    Um beijo meu pra ti.

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