domingo, 4 de janeiro de 2009

O Dramaturgo e o Poeta




















Haicai (ou haikai ou haiku) é um estilo poético instigante. Desde que chegou ao Brasil, por volta do final do século XIX, especialmente em livros de viagens, o haicai provocou nos poetas de língua portuguesa brasileira as mais variadas reações. Desde aqueles que tentavam manter-se fiéis à métrica japonesa, seguindo-lhe milimetricamente a forma, até os que já começavam a descortinar um jeito "abrasileirado" de tratar o novo estilo.
De lá para cá, muita água rolou e, atualmente, o haicai brasileiro já tem o seu próprio estilo. Apesar de respeitar a forma original não está mais preso a cânones, usufruindo de liberdade especialmente quanto à metrificação e ao uso ou não do termo da estação (kigo).
Mas os poetas são incansáveis e imprevisíveis, e, principalmente, não têm limites. Foi essa a constatação que tive ao receber de Camilo de Lélis o que me parece ser - não tenho maiores informações a respeito - o primeiro haicai escrito em (pasmem!)... Guarani!
Pois é, maluco! O cara me escreve um haicai em Guarani!

Chega de papo. Leiam isto:

yauaretê açu
caapor añangá pitã
yacy tupancy

"onça grande
diabo vermelho do mato
luar mãe de deus"

Conforme o que conversei com o Camilo, restam algumas dúvidas, nele, sobre a questão de pronúncia das palavras utilizadas a fim de verificar se fecham, quanto à métrica, com a métrica japonesa. Porém, conforme já discorri anteriormente, que diferença faz? Também há algumas dúvidas quanto à tradução (feita pelo autor). Mas vamos reparar no ineditismo, no desbravamento de um novo campo de ação poética, isto, sim, é o maravilhoso que se destaca neste exercício (acho que podemos chamar assim, por enquanto).
Eu, particularmente, fiquei muito empolgado com a possibilidade de escrever haicais em Guarani, tendo em vista que seus termos lingüísticos, aparentemente, poderiam guardar uma relação mais próxima com a língua japonesa, no que se refere a divisão silábica, e, assim, serem mais fáceis de trabalhar em busca de uma poesia com métrica idêntica àquela praticada pelos japoneses.
Não sei o porquê, também, de tanta ambição em se igualar aos mestres originários. Mas creio que não é por ambição. Acredito que é, antes, pelo desafio mesmo, pelo gosto de aventurar-se no terreno da construção poética. E agora esta: criar haicais em Guarani!!! Isto é fantástico.
Por favor, caso alguém saiba de prática semelhante, escreva-me, seria interessantíssimo trocar conhecimentos a respeito.

Bem, mas abandonando um pouco o campo das novíssimas novidades, vamos aproveitar um pouco mais a visita deste maravilhoso escritor.

O POETA PROFISSIONAL (sátira)

O poeta profissional
diz estar cansado, não quer mais saber de poesia.

Se, ao dobrar a esquina, tropeça num verso vivo e torce o pé,
diz palavrão.
Brisa leve, céu azul, é tédio de todo o dia.
Brilho em olho de menina é reflexo da luz.
Sentimento é superstição.

O poeta profissional está ocupado com a genética
das palavras, quer acasalá-las num novo poema,
joga o jogo-da-velha com as letras,
agá com dois erres, xis com cê e agá, repete certos sons,
cria aliterações.

-Tudo é matemática em teus versos, poeta. Cadê o coração?

Me ouviu e ficou roxo,
contraiu o plexo, espumou e...
regurgitou uma paranomásia
verde-abacate.

camilo.


Até a próxima Mestre...

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