sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Manifesto Literário - A Trinca


Por: Ente Maldito

Versão definitiva do Manifesto Literário de lançamento do gênero poético denominado TRINCA.


***************************************

Não sei se estou propondo algo novo ou discorrendo a respeito de algo já existente e que, no entanto, ainda não havia sido percebido e analisado por mim. Entretanto, considero importante este Manifesto que ora apresento a todos com a finalidade de contribuir para esta tarefa mágica que é escrever poesia. Criar novos recursos, propor novas ferramentas aos escritores é sempre uma atitude, creio, que deve ser reconhecida e apoiada, afinal, temos objetivos comuns: melhorar a comunicação escritor-leitor, aprimorar os mecanismos de expressão individual e transformar o mundo com escritos que transformem aqueles que com eles tiverem contato.
Mas chega de conversa e mãos à obra.

OS DIFERENTES MOTIVOS DE QUEM PROCURA
Corações e mentes voam seus vôos loucos:
Aqueles, em busca de amor,
Estas, por quem lhes ouça um pouco.”
A TRINCA

A Trinca surge como um estilo poético que se apresenta na forma de um texto organizado em três versos, encabeçados por um título. A rigor, a Trinca não se atém a qualquer regra de composição, nem com relação à métrica, nem à rima; no entanto, com relação a esta última, receberá as seguintes classificações, quanto à dificuldade de composição: a) Trinca do príncipe - é aquela onde todos os versos rimam entre si; b) Trinca rica (ou casada) - é aquela onde o primeiro verso rima com o segundo e o terceiro é livre, ou o segundo rima com o terceiro e o primeiro é livre; c) Trinca pobre - é aquela onde o primeiro verso rima com o terceiro e o segundo é livre; d) Trinca natural - quando não há a presença da rima entre os versos. Há, ainda, uma forma especial de rima, que será doravante classificada como "Trinca imperial", que se dará quando o título rimar com o segundo verso e o primeiro verso rimar com o terceiro, como no caso da Trinca pobre.
Quanto ao título, é imprescindível sua presença, tendo em vista o caráter eminentemente narrativo da Trinca. É ele que informa ao leitor o tema, ou assunto, que será abordado pelo poeta nos versos que seguem. Aqui, o título não prejudica a liberdade do escritor, antes oferece a ele um fio condutor, uma linha mestra, que irá orientá-lo até o objetivo que pretende atingir.
O nome TRINCA foi adotado apoiando-se nas seguintes razões: por fazer referência a uma poesia curta, constituída de três versos; pelo caráter próprio deste tipo de poesia que, assim como os textos dissertativos, estrutura-se na tríade introdução-desenvolvimento-conclusão; finalmente, em alusão ao jogo de cartas com este nome, por "jogar", internamente, com os elementos da realidade, “embaralhando” e “reorganizando” imagens, remetendo a um nível de expressão e interpretação mais amplo do que aquele objetivamente tratado no texto poético.

SABEDORIA AO CAMINHAR
O bom sábio sabe escolher o caminho:
Quando se sai a passear com balões,
Não se vai por onde há espinhos.”

Seguindo adiante, observamos que, afora a aparente ligação que mantém com o haicai que é praticado modernamente no Brasil, a Trinca não tem com este qualquer outro ponto em comum, senão o fato de ser estruturada em três versos e trazer em seu bojo uma idéia completa. Esta questão da idéia completa diz respeito ao fato de que a Trinca não admite, em hipótese alguma, um quarto verso. O autor deve esgotar sua argumentação nos três versos que constituem o poema de forma que ao leitor não reste a impressão de que “faltou dizer alguma coisa”; por este motivo, a Trinca traz consigo, também, uma certa similitude com o aforismo, ou com a parábola, já que pretende, com um discurso definitivo, remeter a uma realidade para além daquela presente em sua narrativa/descrição.
Apesar da relativa liberdade que goza quanto à forma, traz em suas características intrínsecas um rigor que deve ser observado, a fim de que se possa avaliá-la como um estilo de manifestação artística com identidade própria que a distinguirá das outras, mesmo daquelas pertencentes ao universo do qual participa, ou seja, da poesia escrita na forma de tercetos.

OUVIR-SE
Há ventos que apenas dão voltas.
Outros os há, violentos, que tudo derrubam.
Quando falas, que vento tu sopras?”

Uma poesia em forma de terceto, então, para ser classificada como sendo uma Trinca, deve apresentar as seguintes características:
1) Antropocentrismo: sua temática é o ser humano: suas ações e reações, os objetos cuja origem pode ser determinada como devida à interferência humana ou, em outras palavras, que tragam marcados em si as mãos do Homem. Não são próprias da Trinca as temáticas relacionadas à natureza (como se dá no haicai, por exemplo, a não ser que se esteja falando da influência do ser humano sobre o ambiente ou do aproveitamento, por aquele, dos seus recursos), às questões espiritualistas, à religião, às crenças, à filosofia transcendental e outros temas ligados à elevação do espírito. Por isso, podemos dizer que a Trinca é predominantemente mundana, no sentido de que trata apenas de acontecimentos do mundo racional, aquele que pode ser apreendido pelo raciocínio e por este explicado.

O SENHOR DA GUERRA VAI AO ORIENTE
De madrugada, rufam os canhões!
E explodem centenas de pessoas
Como se explodissem apenas balões.”

2) Reflexividade: ou seja, leva o leitor a pensar, a fazer uma auto-crítica ou uma crítica sobre a realidade da qual participa. As temáticas que podem servir à Trinca são inumeráveis; assim, o poeta poderá refletir sobre os relacionamentos humanos, sobre a modernidade, sobre as cidades, sobre fobias, medos, loucura, amor, desamor, meios de transporte, poluição do ambiente, mentira, sinceridade et cetera, e levar tais reflexões ou impressões para o leitor, para que este construa as suas próprias. A Trinca tem como objetivo maior sensibilizar o ser humano (leitor), fornecendo-lhe subsídios para que assuma posturas menos destrutivas para si mesmo, para com seus semelhantes e para com o planeta que habita. No entanto, atenção!: a Trinca não é um estilo poético que se preste como veiculador de idéias de auto-ajuda, pois nela não deve estar contida qualquer intenção de convencimento em torno de verdades inquestionáveis. A Trinca, ao contrário, precisa ser instigadora, questionadora, semeadora de interrogações.

AS CRIANÇAS DE HOJE NÃO TÊM INFÂNCIA
No meio da rua, um menino, sentado,
Brincando com um balão.
E com o sorriso todo molhado.”

A fim de concluir esta breve introdução ao pré-conceito de Trinca, esquematicamente recuperamos o que foi dito até aqui: para que para se perceba se uma construção poética, estruturada em três versos, encabeçada por um título, é, segundo as bases propostas acima, realmente uma Trinca, deve-se atentar para a presença de uma característica indispensável: o poema deve passar ao leitor a sensação de completude, isto é, o leitor tem que “sentir” que estão presentes, no texto, a introdução, o desenvolvimento e a conclusão. A Trinca é um tipo de poesia “fechada”, ou seja, a argumentação ali desenvolvida deve esgotar-se no espaço do texto poético, sem, no entanto, privar o leitor de ampliar o horizonte do que ali está escrito, como acontece quando lemos uma notícia de jornal ou revista, por exemplo.
Por fim, com estas bases propostas, apresento à crítica de todos este que se pretende venha a se tornar um novo estilo de escrita poética, com estrutura enxuta, objetividade temática e características próprias que lhe conferem uma existência única e diferenciada das outras técnicas de escrita atualmente disponíveis.

AS COISAS NO LUGAR DE PESSOAS
Sozinho, um balão pequenininho
Engoliu, num grande sorriso,
A tristeza de um menininho.”

João Antônio Pereira
Porto Alegre – Rio Grande do Sul – Brasil
30 de janeiro de 2009.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Prezado visitante, seja bem-vindo. Os comentários aqui postados não são moderados, por isso, conto com a sua moderação.

Plugin Artigos Relacionados para WordPress, Blogger, ...