segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Livre Arbítrio. Como assim?




O que é livre arbítrio? Conforme o que diz o meu entendimento mediano das coisas da vida, é a faculdade que temos de decidir o que queremos para nós mesmos e o que e como fazer para realizarmos esse querer. Trabalhando com exemplos - adoro isso! - seria algo como: "Decidi que quero ser mendigo. Como eu faço para me tornar um mendigo? Começo largando o emprego. Depois abandono a casa onde moro. Me afasto de meus familiares e amigos. Deixo tudo o que me pertence. Vou morar na rua. Como farei para suprir minhas necessidades básicas de sobrevivência? Vou esmolar, pedir, suplicar. E as conseqüências? Bem, as conseqüências não posso determinar. Mas sejam quais forem, terei de suportá-las." Bingo! Palmas para mim! Agora sou mendigo. Exerci meu livre arbítrio. Será?
Há uma frase, que circula muito por aí, anunciando que "somos o resultado de nossas escolhas.", porém, o que o autor do provérbio esqueceu de dizer é que nossas primeiras escolhas são estimuladas por outros que, no final das contas, são os que escolhem por nós. "Qual a tua cor preferida?, pergunta a atendente amorosa à menininha de seis aninhos no seu primeiro dia na escolinha. "Verde", responde a mãe zelosa, "Verde", repete a menininha, "Ah, verde, muito bem. Vamos ver o que temos aqui na nossa estante que seja verde...". Não é assim? Responda com sinceridade: não é assim? A criança nem sabe o que é preferir uma coisa à outra, muito menos o que significa algo ser verde e não ser amarelo, por exemplo. No entanto, a atendente toma a resposta da mãe como sendo a autêntica expressão de uma verdade interior da criança. E a pequena infante cresce feliz acreditando que sua cor preferida é a cor verde. Quando adulta, ela comprará um vestido verde ao invés de um amarelo, como resultado de um valor que lhe foi introjetado ainda na infância. Livre arbítrio? Ah, não brinca comigo!
Passamos grande parte de nossas vidas - até os 10 ou 12 anos, mais ou menos - tolerando que escolham por nós. Desde a roupa, passando pela comida, pelo time "do coração", pelos lugares a serem ferqüentados, até o "tipo" que melhor combina conosco. Quando chegamos na pré-adolescência, começamos a fazer tudo ao contrário do que nos foi imposto ao longo do tempo até essa idade maravilhosa. Na adolescência vamos elevar a enésima potência essa rebeldia contra o sistema familiar. E quando chegarmos na idade adulta - que hoje começa lá pelos 50 anos (brincadeirinha) -, teremos passado a vida toda, até aqui, mimetizando valores, símbolos, gostos, frustrações e tantas outras coisas, todas alheias a nós. No início são os exemplos do papai e da mamãe, misturados com os exemplos de algum familiar ou pessoa próxima; logo depois são os exemplos dos que se destacam na mídia, sendo que esses exemplos vêm carregados de uma simbologia que não é apenas das pessoas retratadas, mas também daqueles que as querem retratar com o propósito de faturar algum dinheirinho com essa exposição; mais adiante vêm, além de outros exemplos, também destacados na mídia, os pais ou parentes dos amigos que fazemos, os próprios amigos, outros adultos que vem fazer parte de nossa vida, tais como professores, médicos, delegados de polícia, monitores da FASE, etc. No fim de tudo isso, o que temos em nós de autêntico? Nada. Somos o que outros foram ou aparentaram ser. Somos uma imitação. Somos uma interpretação, melhor dizendo, já que não se consegue ser igual a ninguém, nunca.
Assim, não somos o resultado de nossas escolhas. Somos o resultado das escolhas dos outros. Que por sua vez também são o resultado das escolhas de outros. E assim para trás, até o Gênesis, ou o Caos. Então, jamais poderemos decidir algo por nós mesmos, como representação de um livre arbítrio, pois fomos arbitrados ao longo de toda a vida. Tudo o que decidirmos será em função de algo que valorizamos ou apreciamos não por existir em nós, mas porque vimos existindo em outro (ou em outros), e julgamos que aquele modelo era o que melhor se adequava à nossa personalidade, e o tomamos e adaptamos. Somos, portanto, o resultado de incorporações, não de escolhas. Somos uma gigantesca Multi - uma Multipersonal. E raríssimas vezes - se é que houve alguma - optamos por incorporar algo, ou não, baseados numa livre consideração, pois estávamos atentos cotidianamente a reação dos outros àquilo que acabáramos de incorporar e expressávamos, já que nunca fizemos algo para nós mesmos, mas sempre pensando no que os outros iriam dizer, ou como iriam reagir, preocupados se seríamos aceitos, ou não. E é natural que seja assim: lembre-se de que, quando criança, tudo o que tu fazia era pensando em impressionar, positiva ou negativamente, os adultos que estivessem à tua volta. Então, tu repetires esse comportamento, agora, aos 48 anos, não é nenhuma novidade.
Ainda há os que dizem: "Ah, eu sou assim e não tô nem aí com o que os outros vão pensar.". Hmmmm... tá sim. Se não estivesses, tu estaria internado na Fundação Kinder, ou em outra semelhante, pois serias portador de alguma incapacidade mental que não te deixaria perceber os que te rodeiam, os que vivem em sociedade contigo.
Por isso, julgo que não exista o tal livre arbítrio. Acho que tudo o que decidimos é em função dos exemplos (bons ou ruins) que fomos mimetizando ao longo da vida até chegar a este ponto, quando resolvemos decidir entre uma coisa e outras tantas. Enfim, tudo o que somos, não somos. A única liberdade que temos é a de escolher quais desses tantos que absorvemos pela existência a fora, irão se manifestar e quais serão reprimidos. E mesmo essa escolha se dará não em função do que queremos ser, mas em função do que o meio aonde formos praticar nossa existência exigirá.
Concluindo, afirmo que não somos dotados de livre arbítrio. Somos, outrossim (outrossim é bom, né?), dotados de discernimento, que é a capacidade de refletir sobre nossas atitudes e manifestações, optando por aquelas que nos pareçam mais adequadas ao momento que estivermos vivendo. Discernir tem a ver com sobrevivência, e essa é a força original que nos move e nos sustenta, a mesma de que todos os outros animais que co-habitam neste planeta são dotados. O que se chama de livre arbítrio é repetição de modelos introjetados.
E há os sentimentos. E, acima de todos, o Amor. Mas isso é assunto para outra postagem.

Fui. Reajam! Digam que estou errado, que pirei de vez. Falem alguma coisa. Não posso estar falando/escrevendo apenas para um monte de fios e circuítos elétricos. Espero estar me comunicando com pessoas.

OBS.: Hoje eu estava prolixo (ou pro-lixo, como talvez pensem alguns). E olha que eu nem fumei...

PS.: erros de ortografia, sintaxe e estrutura textual são tolerados neste Blog, tendo em vista que os artigos são escritos, assim, "a la loca", com revisão em tempo real. Eu não escrevo e depois reviso. Eu escrevo e vou revisando. Só que tudo daquele jeito. Ainda mais a esta hora da madrugada.

PS do PS.: Agora, sim, fui que a cama tá me chamando.

Um comentário:

  1. querido poeta...vou sentir falta de passar pela porta de tua sala e conferir se estás ali de corpo presente com as longas madeixas estilo guru indiano...não sei se sempre, mas, seguramente, esse é um caso que prova a inexistência de livre-arbítrio, não foi escolha minha, juro...no entando quero, nesse momento, tornar meu agradecimento ao teu carinho um ato voluntário, i.é. livre... claro que tenho quase certeza de que gostar de alguém dificilmente há de ser uma escolha, mas no meu caso com relação à sua amizade houve de minha parte bastante investimento...é isso, vc é a primeira pessoa a demonstrar, assim, publicamente, que admira meus poemas, e, para mim, fica confirmada a sensação de que valeu a pena minha insistência pela tua atenção...ARIGATÔ!!!POETA JOÃO DO CORAÇÃO!!!

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