segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Estranhamento


Por: Ente Maldito






Cada vez estranho mais os homens e suas estranhas competições. Ouço, vindas de todos os lados, frases do tipo: "O mercado é uma guerra.", "Não se pode perder um segundo sequer, senão o concorrente nos passa a frente.", "Este não é um jogo para fracos. Somente os fortes restarão em pé.", e outras, do gênero. Isso, porém, o repetem aqueles que "já estão competindo", validados, ainda, por jornalistas que lhes fazem eco e se esforçam em convencer o mundo que vivemos tempos de intensa "competição".
Até as escolas, antes templos de formação de seres humanos multidisciplinados, preparados para viver "a vida" e nela progredir, junto dos outros seres humanos, agora tornaram-se "quartéis" onde batalhões de novos soldados são forjados para "a guerra", exaustivamente preparados para a "competição do mercado de trabalho", treinados para enfrentar a tudo e a todos e a resistir aos golpes que lhes serão desferidos pelos outros "competidores" (alguns, até, seus colegas de sala de aula), na tentativa de barrar o seu avanço. O que interessa é chegar ao topo, vencer, estar por cima.
Aí, o camarada trabalha como um condenado, estuda como um desgraçado, e sobe, sobe, sobe, sobe, sobe, e vai empurrando para baixo os que encontra pelo caminho, e continua subindo, subindo, subindo, e casa por casar, e tem filhos por ter, por que não terá tempo para estar com ninguém, mesmo, pois estará o tempo todo fixado na "guerra" (qualquer descuido pode ser fatal), e ele vai subindo, e vai subindo, e vai subindo, e sobe, sobe, sobe e, finalmente, quando chega lá em cima... Segundo um comercial de rádio do banco Itaú, agora, sim, ele terá um tempinho para jogar bola "COM OS AMIGOS". É sério! Não é para ficar com o filho, nem com a mulher... é tempo para ficar "COM OS AMIGOS". Mas, aí, eu pergunto: que amigos, bravo guerreiro? Se durante todo o caminho foram apenas batalhas e mais batalhas contra outros que também almejavam chegar onde tu estás agora. Ah, só se forem outros "competidores de sucesso", de outras áreas, que nunca entraram em embate contigo. Bem, aí, sim. Concordo. Deve ser legal. Muito bom.
O engraçado é que depois de tanto massacrar os outros, depois de tanto tempo indiferente para com os outros, depois de tanta casmurrice, o cara, no fim da vida, resolve virar filantropo.
Tem neguinho (e tem branquinho, também) que até faz visita à favela e distribui presentes, e se fantasia de papai noel, e adota uma instituição de apoio à pessoas carentes ou a portadores de alguma doença ou deficiência física incurável... É uma festa de benevolência. Mas por que não agiste assim desde o início, monstro? - "Bah, não dava, eu tava numa competição muito acirrada e não tinha tempo nem de olhar para os lados.". Sééériooo! Ah, tá brincando! Só me responda uma coisa, para eu entender: tu estavas competindo pelo quê, mesmo? Sim, tem de haver um motivo muuuiiito bom, porque para uma pessoa largar tudo e dedicar-se somente à "competição do mercado", é por que o prêmio deve ser exrtremamente recompensador, não é verdade? E aí, ganhou o quê? Dá para repartir com alguém ou vai ficar tudo contigo? Ah, ganhou dinheiro. Muuuiiito dinheiro. Que bom. Vai fazer o que, agora? Continuar ganhando, ou vai gastar um pouquinho? Sei, sei, é verdade, tem que cuidar, não dá para sair por aí torrando o que se levou uma vida inteira para conseguir. Mas, então? Tomamos mais uma?
Numa boa, só bebendo. Só bebendo para agüentar uma vida que não tem outro interesse na vida senão a si mesma. O planeta todo, com animais, vegetais e minerais vai de vento em popa, ladeira abaixo, e o zé migué não tá nem aí, isso nunca o preocupou. E ele não tem outro planeta para ir! Só este! Mas ele julga que por que tem muuiiito dinheiro, está imune, tem o corpo fechado. Ah, pára! Nem com benzedura eu aturo uma criatura assim.
Acho que estamos na competição errada. Acho que não deveríamos estar competindo uns com os outros, mas deveríamos estar competindo contra tudo o que ameaça a permanência da espécie humana. Deveríamos estar competindo contra os fenômenos naturais, que matam milhões, todos os anos. Deveríamos estar competindo contra as doenças naturais, que ceifam outros milhões de vidas, todos os dias. Deveríamos estar sempre olhando para o lado. Deveríamos ter tempo uns para os outros. Deveríamos ser todos responsáveis uns pelos outros e assumir essa responsabilidade numa boa, sem receio de que aquele que tu ajudas hoje pode vir a ser o mesmo que ajudará a te afundar amanhã. Ninguém tem que sacanear ninguém. O dinheiro poderia ser de todos. Nós precisamos de todos. Não podemos ser uma ameaça para nós mesmos.
Da maneira como estamos organizados (e pelo tanto que estamos empenhados), sei que esses pensamentos não passam de frívola utopia. "Olha o Ente Maldito romantizando a vida! Ah ah ah ah ah ah. Se liga, meu! O mundo é essa merda, mesmo, e não vai mudar! Daqui para a frente, a tendência é piorar, então temos que estar preparados para enfrentar o pior.".
E pode ter alguma coisa pior do que ter que se preparar para enfrentar o pior, sabendo que estamos contribuindo para que esse pior aumente? Nós somos os agentes! Estamos lutando contra nós mesmos. Se liga, mané! O inimigo não sou eu! Nem os outros! Não há inimigos. Estamos sozinhos neste planeta. Vamos destruí-lo por quê? Estamos nos destruindo por quê?

Eu sei a resposta, todos sabemos a resposta, só que ela é tão ridícula e incompreensível que é até difícil pronunciá-la: fazemos tudo isso (e faremos ainda mais) por dinheiro. Só por isso. Para ter muuiiito dinheiro. Putz, só temos uma vida, e a gastamos em troca de dinheiro...
Parafraseando a ironia do Raul Seixas: "Quando acabar, o maluco sou eu.". É vero.

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