sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Manifesto Literário - A Trinca


Por: Ente Maldito

Versão definitiva do Manifesto Literário de lançamento do gênero poético denominado TRINCA.


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Não sei se estou propondo algo novo ou discorrendo a respeito de algo já existente e que, no entanto, ainda não havia sido percebido e analisado por mim. Entretanto, considero importante este Manifesto que ora apresento a todos com a finalidade de contribuir para esta tarefa mágica que é escrever poesia. Criar novos recursos, propor novas ferramentas aos escritores é sempre uma atitude, creio, que deve ser reconhecida e apoiada, afinal, temos objetivos comuns: melhorar a comunicação escritor-leitor, aprimorar os mecanismos de expressão individual e transformar o mundo com escritos que transformem aqueles que com eles tiverem contato.
Mas chega de conversa e mãos à obra.

OS DIFERENTES MOTIVOS DE QUEM PROCURA
Corações e mentes voam seus vôos loucos:
Aqueles, em busca de amor,
Estas, por quem lhes ouça um pouco.”
A TRINCA

A Trinca surge como um estilo poético que se apresenta na forma de um texto organizado em três versos, encabeçados por um título. A rigor, a Trinca não se atém a qualquer regra de composição, nem com relação à métrica, nem à rima; no entanto, com relação a esta última, receberá as seguintes classificações, quanto à dificuldade de composição: a) Trinca do príncipe - é aquela onde todos os versos rimam entre si; b) Trinca rica (ou casada) - é aquela onde o primeiro verso rima com o segundo e o terceiro é livre, ou o segundo rima com o terceiro e o primeiro é livre; c) Trinca pobre - é aquela onde o primeiro verso rima com o terceiro e o segundo é livre; d) Trinca natural - quando não há a presença da rima entre os versos. Há, ainda, uma forma especial de rima, que será doravante classificada como "Trinca imperial", que se dará quando o título rimar com o segundo verso e o primeiro verso rimar com o terceiro, como no caso da Trinca pobre.
Quanto ao título, é imprescindível sua presença, tendo em vista o caráter eminentemente narrativo da Trinca. É ele que informa ao leitor o tema, ou assunto, que será abordado pelo poeta nos versos que seguem. Aqui, o título não prejudica a liberdade do escritor, antes oferece a ele um fio condutor, uma linha mestra, que irá orientá-lo até o objetivo que pretende atingir.
O nome TRINCA foi adotado apoiando-se nas seguintes razões: por fazer referência a uma poesia curta, constituída de três versos; pelo caráter próprio deste tipo de poesia que, assim como os textos dissertativos, estrutura-se na tríade introdução-desenvolvimento-conclusão; finalmente, em alusão ao jogo de cartas com este nome, por "jogar", internamente, com os elementos da realidade, “embaralhando” e “reorganizando” imagens, remetendo a um nível de expressão e interpretação mais amplo do que aquele objetivamente tratado no texto poético.

SABEDORIA AO CAMINHAR
O bom sábio sabe escolher o caminho:
Quando se sai a passear com balões,
Não se vai por onde há espinhos.”

Seguindo adiante, observamos que, afora a aparente ligação que mantém com o haicai que é praticado modernamente no Brasil, a Trinca não tem com este qualquer outro ponto em comum, senão o fato de ser estruturada em três versos e trazer em seu bojo uma idéia completa. Esta questão da idéia completa diz respeito ao fato de que a Trinca não admite, em hipótese alguma, um quarto verso. O autor deve esgotar sua argumentação nos três versos que constituem o poema de forma que ao leitor não reste a impressão de que “faltou dizer alguma coisa”; por este motivo, a Trinca traz consigo, também, uma certa similitude com o aforismo, ou com a parábola, já que pretende, com um discurso definitivo, remeter a uma realidade para além daquela presente em sua narrativa/descrição.
Apesar da relativa liberdade que goza quanto à forma, traz em suas características intrínsecas um rigor que deve ser observado, a fim de que se possa avaliá-la como um estilo de manifestação artística com identidade própria que a distinguirá das outras, mesmo daquelas pertencentes ao universo do qual participa, ou seja, da poesia escrita na forma de tercetos.

OUVIR-SE
Há ventos que apenas dão voltas.
Outros os há, violentos, que tudo derrubam.
Quando falas, que vento tu sopras?”

Uma poesia em forma de terceto, então, para ser classificada como sendo uma Trinca, deve apresentar as seguintes características:
1) Antropocentrismo: sua temática é o ser humano: suas ações e reações, os objetos cuja origem pode ser determinada como devida à interferência humana ou, em outras palavras, que tragam marcados em si as mãos do Homem. Não são próprias da Trinca as temáticas relacionadas à natureza (como se dá no haicai, por exemplo, a não ser que se esteja falando da influência do ser humano sobre o ambiente ou do aproveitamento, por aquele, dos seus recursos), às questões espiritualistas, à religião, às crenças, à filosofia transcendental e outros temas ligados à elevação do espírito. Por isso, podemos dizer que a Trinca é predominantemente mundana, no sentido de que trata apenas de acontecimentos do mundo racional, aquele que pode ser apreendido pelo raciocínio e por este explicado.

O SENHOR DA GUERRA VAI AO ORIENTE
De madrugada, rufam os canhões!
E explodem centenas de pessoas
Como se explodissem apenas balões.”

2) Reflexividade: ou seja, leva o leitor a pensar, a fazer uma auto-crítica ou uma crítica sobre a realidade da qual participa. As temáticas que podem servir à Trinca são inumeráveis; assim, o poeta poderá refletir sobre os relacionamentos humanos, sobre a modernidade, sobre as cidades, sobre fobias, medos, loucura, amor, desamor, meios de transporte, poluição do ambiente, mentira, sinceridade et cetera, e levar tais reflexões ou impressões para o leitor, para que este construa as suas próprias. A Trinca tem como objetivo maior sensibilizar o ser humano (leitor), fornecendo-lhe subsídios para que assuma posturas menos destrutivas para si mesmo, para com seus semelhantes e para com o planeta que habita. No entanto, atenção!: a Trinca não é um estilo poético que se preste como veiculador de idéias de auto-ajuda, pois nela não deve estar contida qualquer intenção de convencimento em torno de verdades inquestionáveis. A Trinca, ao contrário, precisa ser instigadora, questionadora, semeadora de interrogações.

AS CRIANÇAS DE HOJE NÃO TÊM INFÂNCIA
No meio da rua, um menino, sentado,
Brincando com um balão.
E com o sorriso todo molhado.”

A fim de concluir esta breve introdução ao pré-conceito de Trinca, esquematicamente recuperamos o que foi dito até aqui: para que para se perceba se uma construção poética, estruturada em três versos, encabeçada por um título, é, segundo as bases propostas acima, realmente uma Trinca, deve-se atentar para a presença de uma característica indispensável: o poema deve passar ao leitor a sensação de completude, isto é, o leitor tem que “sentir” que estão presentes, no texto, a introdução, o desenvolvimento e a conclusão. A Trinca é um tipo de poesia “fechada”, ou seja, a argumentação ali desenvolvida deve esgotar-se no espaço do texto poético, sem, no entanto, privar o leitor de ampliar o horizonte do que ali está escrito, como acontece quando lemos uma notícia de jornal ou revista, por exemplo.
Por fim, com estas bases propostas, apresento à crítica de todos este que se pretende venha a se tornar um novo estilo de escrita poética, com estrutura enxuta, objetividade temática e características próprias que lhe conferem uma existência única e diferenciada das outras técnicas de escrita atualmente disponíveis.

AS COISAS NO LUGAR DE PESSOAS
Sozinho, um balão pequenininho
Engoliu, num grande sorriso,
A tristeza de um menininho.”

João Antônio Pereira
Porto Alegre – Rio Grande do Sul – Brasil
30 de janeiro de 2009.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Noites tristes...


Por: Ente Maldito


Tuas mentiras me fizeram medonho.
- Ah, Deus, nunca me vi tão feio!
Tuas mentiras me fizeram bisonho.
- Pareço alegria cortada ao meio.
Tuas mentiras me fizeram tristonho.
- Fiquei te esperando. Mas tu não veio.

O Dramaturgo e o Poeta


Camilo de Lélis

O mestre diante do quadro. A contemplação imersa nos quatro lados. Qual a forma da perfeição? Onde, a exatidão assimétrica? Enquadrada, a vida pousa (e se mexe) - enorme, gigantesca, sentida... quadrilátera. A visão de ti em mim. A visão que me deste. Não viste o que eu vi. És perfeita. E nem notaste... Eu... Me pondo ao quadrante Leste. (E.M.)

Pressuponha, Mestre:

Indecisão



Ao encontrar-te assim, oferecida, prestes a indicar o botão da camisa,
(a papoula na mão esquerda não te torna sonolenta, mas lasciva),
não sei se o primero beijo eu destino aos olhos (já vidram antecipados),
ou se à concha rósea da orelha, ao nariz, talvez, em seu desenho exato,
ou aos lábios (que esboçam uma chacota à minha veneração extática),
ou, quem sabe, ao mais singelo dos atributos, a covinha de teu queixo...

camilo/2009.

Dias tristes...


Por: Ente Maldito


CANSAÇO

Candelabros dos meus olhos,
iluminai-me, agora, que
em minha alma falta a luz!

Ó, adaga mortal!
Tua rubra bainha espera
palpitando em meu peito.
Porque demoras tanto?!
Por acaso não a queres?
Ah, como são felizes aqueles
que, aconchegados à terra, dormem!

Como me cansa este não findar!
Ó, adaga mortal!...

Dor de todas as dores,
tu que acendeste, em minh’alma, a luz?

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Manifesto Literário II

Esta postagem trata de modificações e aditivos ao texto original do Manifesto Literário publicado por este poeta em 29 de novembro de 2008.
As considerações são as que seguem:

1) O estilo poético definido naquele Manifesto, nomeado genericamente de TERCETO, passa a chamar-se, definitivamente, de "TRINCA". Esta denominação foi adotada tendo em vista as seguintes razões: por fazer referência a uma poesia curta, constituída de três versos; pelo caráter próprio deste tipo de poesia que, assim como os textos dissertativos, estrutura-se na tríade introdução-desenvolvimento-conclusão; finalmente, por "jogar", internamente, com os elementos da realidade, embaralhando e reorganizando imagens, remetendo a um nível de expressão e interpretação mais amplo do que aquele objetivamente tratado no texto poético.

2) Fica alterado, em parte, o primeiro parágrafo do Manifesto, e são nele adicionadas as seguintes informações:

Texto atual:

"Terceto é um estilo poético que se apresenta na forma de um texto organizado em três versos. A rigor, o Terceto não se atém a regras de composição, no que diz respeito à temática ou ao emprego de figuras de linguagem, no entanto, quanto à estrutura, é corrente que o terceiro verso rime com o primeiro, ficando o segundo livre, podendo rimar com os outros, ou não. Também é imprescindível a presença de um título, tendo em vista o seu caráter eminentemente narrativo. É ele que informa ao leitor o tema, ou assunto, que será abordado pelo poeta nos versos que seguem. Aqui, o título não prejudica a liberdade do escritor, antes oferece a ele um fio condutor, uma linha mestra, que irá orientá-lo até o objetivo que pretende atingir."

Texto com nova redação:

"A Trinca é um estilo poético que se apresenta na forma de um texto organizado em três versos, encabeçados por título. A rigor, a Trinca não se atém a qualquer regra de composição, nem com relação à métrica, nem à rima; no entanto, com relação a esta última, receberá as seguintes classificações, quanto à dificuldade de composição: a) Trinca do príncipe - é aquela onde todos os versos rimam entre si; b) Trinca rica - é aquela onde o primeiro verso rima com o segundo e o terceiro é livre, ou o segundo rima com o terceiro e o primeiro é livre; c) Trinca pobre - é aquela onde o primeiro verso rima com o terceiro e o segundo é livre; d) Trinca natural - quando não há a presença da rima entre os versos. Há, ainda, uma forma especial de rima, que será doravante classificada como "Trinca imperial", que se dará quando o título rimar com o segundo verso e o primeiro verso rimar com o terceiro, como no caso da Trinca pobre.
Quanto ao título, é imprescindível sua presença, tendo em vista o caráter eminentemente narrativo da Trinca. É ele que informa ao leitor o tema, ou assunto, que será abordado pelo poeta nos versos que seguem. Aqui, o título não prejudica a liberdade do escritor, antes oferece a ele um fio condutor, uma linha mestra, que irá orientá-lo até o objetivo que pretende atingir."

Numa próxima postagem será publicado o Manifesto na íntegra, com a nova redação acima e com as outras alterações que se fazem necessárias ao texto original, a partir da definição do nome deste estilo poético.

O Dramaturgo e o Poeta


Camilo de Lélis

O mestre anda com a veia poética palpitando, ultimamente. Então vamos mordê-la e deixar que sangre... (E.M.)

Primo Miraculo (num zaz!)

olhos de gato:
na poça do lajeado,
um peixinho azul.

irracional,
exato, o gesto apanha-onum zaz!

em mão miúda,
na carreira pra casa,
a jóia palpita.

na barra da saia
de nossa senhora,
a vida estertora.

desapontamento:
-incompleto milagre,
menino jesus!

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eco!

da de ver
ver de dever
ver de verdade

lógica...

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Translúcido

Ordenei: - mão, não escreva!
Ela respondeu : - cabeça, não pense!
-Não me peçam para não sentir! - gritou o coração desesperado.
Mas...
Era apenas a transparência rósea de um papel celofane a flanar na calçada...

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Ave Eva

Hoje vi uma mulher como se visse um pássaro.
Nunca entendi porque os antigos faziam tal relação...
O certo é que não há como explicar
porque determinadas mulheres se parecem com certas aves.
Porém, aves não fumam...algumas harpias sim.

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ferrugem

ferrugem aflora nas folhas
no outono de porto alegre

quando uivávamos nas noites
ao que estávamos entregues?

alongadas sombras duas
nervosas sem repousar

becos ruas olhos luas
felinos vadios em ronda

asperamente unhas dentes
tantas marcas todas nuas

feridas ainda abertas
agulhas dentro do sono

na rua algumas folhas caem
ferrugem do próximo outono

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Manah

As palavras caem em pencas,
se dissolvem, algodoadas, adocicadas,
na secura de minha língua.

O sumo delas tem espírito alcoólico;
eu me afogo nesta sede insaciável...

Cuspo-as desidratadas.

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Tatoo

Bem no meio da mão vê-se um M,
para você não esquecer, Madame,
-há um meio-,
da lagarta faminta
à lépida borboleta,
há espera.

É a Morte tatuada.

camilo.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Discernimento, a palavra mágica!


Por: Ente Maldito


Esta notícia li-a no Blog de Tecnologia do IG (IG Tecnlogia - Porque a tecnologia controla o mundo) - Que frasezinha bem idiota, não acham? "Porque a tecnologia controla o mundo". Gostaria de saber quem foi o desprovido-de-neurônios que bolou esta merda. Nada controla o mundo, seu imbecil, nem nós, os seres humanos. Se algo, ou alguém, controlasse o mundo, não estaríamos vivendo o descontrole atual. E, ainda por cima, o "anarfa" faz parte da turma que se "enterte" (entretém) espancando o vernáculo: se o Porquê aqui utilizado foi com a intenção de dizer que tal coisa existe por algum motivo, causa, razão ou circunstância, deveria ter sido usado na forma "Por que", isto é, por qual (motivo, causa, razão ou circunstância), então o entendimento "óbvio" seria: o IG mantém um Blog sobre tecnologia por que a tecnologia controla o mundo. Porém, se o Porquê está exercendo uma função explicativa, isto é, a oração que o segue "esclarece", "justifica", "dá a causa" de algo afirmado anteriormente, então ele está corretamente grafado, mas fica a dúvida: cadê a afirmação anterior? Não há nada antes dessa oração que denote alguma coisa, do tipo: O ser humano parou de destruir o planeta "porque a tecnologia controla o mundo.", Só viajo a pé "porque a tecnologia controla o mundo.", Só perco o controle "porque a tecnologia controla o mundo.", e assim por diante.

Agora, se tentarmos fazer, como fizemos um pouco antes, a construção de uma frase com o entendimento possível de que dispomos, ficaria mais ou menos assim: O IG mantém um Blog porque a tecnologia controla o mundo. Impossível não questionar: ora, se a tecnologia não controlasse o mundo, o IG não teria Blog de tecnologia? O Blog só existe devido ao controle tecnológico? A frase não diz, não explica. Vamos iniciar uma campanha feroz e descontrolada: pelo ensino da língua portuguesa nas faculdades de jornalismo, publicidade e propaganda e tecnolgia da informação, do primeiro ao último semestre, porque (pois) quem terá de "traduzir" o que esses seres rupestres quiseram dizer com o que disseram, seremos todos nós - e 99% não irá conseguir.

Bem, mas retomando o assunto que me levou a iniciar esta postagem, dizia eu que lia no IG Tecnologia uma notícia, que é a seguinte (transcrevo ipsis litteris (com as mesmas letras)):


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Campus Party: coelhinha da Playboy é assediada no evento

Desde o início da Campus Party, o estande da Abril tem utilizado da presença de coelhinhas da Playboy para atrair mais “curiosos” ao seu espaço. Se, neste evento, caberia ou não tal forma de “publicidade”, não nos resta julgar, o problema, no entanto, está “mais embaixo”. Na tarde deste sábado, enquanto três coelhinhas andavam pela arena do evento, tirando fotos e distribuindo flyers, um campusero decidiu se aproveitar da garota; após o flash da foto, ele “passou a mão” na menina, deixando-a constrangida.
A reação da coelhinha foi de indignação instantânea e o rapaz revidou desconversando, fingindo que não havia feito nada. A garota, nervosa, desistiu da argumentação e foi embora com os olhos marejados.



Foto: skateonrails



Indignada com a atitude, coelhinha preferiu se retirar do que brigar

Os blogueiros e campuseros do evento reagiram com veemência à atitude do rapaz, que em seu Twitter afirmou que tudo não passava de uma aposta: “Eu fiz o que todos no evento queriam fazer, mas não tinham coragem”, se vangloriou.
O debate da ação tomou todas as mídias sociais online, entretanto, infelizmente, nenhuma atitude real foi tomada, nem pelos campuseros, nem pela organização do evento.
Assim como aconteceu com a banda Leme, a atitude de mau-gosto envergonha todos os participantes do evento. Só dá para esperar que esse tipo de coisa nunca mais aconteça na Campus Party.

Enviado por: Caio Teixera

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CARACA!

(E mais uma vez: CARACA!)

Num primeiro momento, fiquei sem saber o que dizer. Nem o que pensar sobre o episódio. Na verdade, a pergunta que se apossou de mim, e que ainda não encontrou resposta satisfatória é: de quem foi a idéia cagada de botar "coelhinhas da Playboy" num evento de tecnologia? Atrair "curiosos"? Curiosos pelo quê? Qual a curiosidade que a Abril tentava satisfazer com suas "coelhinhas"? A Abril, agora, está fazendo o papel de Mônica, dando "coelhadas" nos seus leitores?

Vamos raciocinar. Não podemos ser impulsivos. Quando se trata de comportamento humano, sair condenando uns e canonizando outros pode ser perigoso. Vamos dar uma de açougueiro e analisarmos a situação por partes.

Primeira parte - A Editora Abril, num lance de marketing agressivo, buscando atrair a atenção do público frequentador do encontro, decide colocar em seu "stand" um grupo de mulheres usando fantasias iguais àquelas usadas por um outro grupo de mulheres, cujo papel é o de promover a venda de uma revista voltada ao público masculino. O corte dessa roupa valoriza, propositalmente, a sensualidade e a sedução, prometendo ao público consumidor dessa revista momentos de prazer e lascívia.

Segunda parte - A Editora Abril dá ordem para que essas mulheres circulem pelo espaço da feira, oferecendo-se para posar para fotos junto com os que assim desejarem, passando a imagem de que aqueles com quem estão, as "seduziram". Para valorizar o instantâneo fotográfico, fazem caras, bocas e poses denotadoras de que "algo pode rolar". Além disso, distribuem flyers de produtos da Editora Abril.

Terceira parte - Homens. Muitos homens. Homens com destinos traçados pela testosterona, que circula em grande quantidade nos seus corpos, conferindo-lhes características físicas e psíquicas que os diferenciam daquelas encontradas nas "coelhinhas". Uma destas características é o efeito que a visão de uma mulher seminua provoca. Socialmente, os homens reagem com risadinhas "amarelas", fazendo o papel de que estão fazendo parte daquele teatrinho e entendendo que tudo não passa de uma brincadeirinha (ha hi ho hi hu hi ha). Internamente, porém, os seus corpos e suas mentes não se comportam assim, e passam a trabalhar em conjunto a fim de prover a melhor maneira de abordar aquela fêmea, seduzí-la e conduzí-la à alcôva, não para outros fins, senão os libidinosos. Acelera-se a produção de sêmem e esperma, aumenta o batimento cardíaco e surge um leve descontrole muscular acompanhado de entumescimento e enrigecimento do membro viril, vulgo pênis.

Quarta parte - O contato físico proporcionado pelo ato de posar para a foto. Bem... Aqui começa o perigo. A grande maioria dos homens, devido ao bombardeio de exigências que lhes são impostas, aliadas a ameaças legais variadas, mantém o controle sobre seus impulsos. Mas alguns... ah, alguns... alguns, simplesmente, não conseguem se segurar! Aliás, seguram-se ao máximo, avaliam a situação, as conseqüências, a problemática da solucionática e, geralmente, optam por ficar na sua. Este caso, no entanto, reveste-se de uma característica especial: a moça está caracterizada para "seduzir" e não para "brincar". Além disso, a vestimenta escolhida remete a uma revista que repete constantemente a mesma mensagem para os homens: nossas mulheres são escolhidas "à dedo" somente para proporcionar prazer.

Quinta parte - A mão boba. E agora? A moça se sente "desrespeitada", "agredida", "violada", afinal ela não consentiu com aquela atitude, sequer pensava nisso quando aconteceu, estava apenas cumprindo seu papel, é só trabalho, mais nada, além disso ela não tinha como avaliar o que a sua roupa provocava no sexo oposto (nem sempre só no sexo oposto); aliás, por ser mulher, não tem a mínima idéia do que acontece ao sexo oposto e, tampouco, tem condições de saber, pois são coisas que jamais sentiu, nunca irá sentir e o que sente é exatamente o oposto do que o oposto sente, então...

Sexta parte - A mão boba. E agora? O cara acha que a moça não vai se importar, supõe que uma "avançadinha no sinal" será interpretada como parte da brincadeira, é tudo só um "joguinho", ela faz de conta que não sabe o que provoca, e ele faz de conta que faz aquilo por mero descuido. Não vai dar em nada, ele não tem a ilusão de que irá conquistá-la para algo mais "sério", é uma brincadeira, faz parte (ha hi ho hi hu hi ha). Ele ainda argumenta, mais tarde, que o ato teria sido motivado por uma aposta feita com amigos: então temos "tarados" de plantão, voyers, que se deliciam em ver um outro fazer o que eles gostariam, no seu lugar.

Sétima parte - A hipocrisia. Um monte de gente se levanta recriminando a imoralidade e a desfaçatez da atitude do "monstro da Campus Party". Muitos ameaçam bater nele até a morte. A moça chora. Porém... vamos às conclusões.

Oitava parte - Conclusão. Atire a primeira pedra o cara que nunca cometeu uma besteira dessas (não precisa ser igual, pode ser semelhante, como um carinho no rosto ou no cabelo, uma seguradinha no braço, um abraço "inocente" por trás, uma roçadinha de braço ou de mão). Agora, saem por aí chamando de tarados a todos os que fazem o mesmo, dando uma de moralistas e bastiões dos bons constumes. Atire a primeira pedra, também, a cara que nunca passou por uma situação constrangedora (ou "difícil") e teve que "dar uma volta" para se livrar da encrenca. Estava tudo bem e, de repente, aquilo. Bah, e agora? O cara que eu julgava ser o meu melhor amigo se insinuando pra mim... Ou: Estava tudo bem e, de repente, aquilo. Bah, e agora? A cara que eu julgava ser uma grande amiga se insinuando pra mim... Vou ou não vou? Ah, pára! Vai dizer que não pensou, por um átimo de segundo, na possibilidade de topar. Hmmmm... Sei... Então, tá.
Todo mundo vive testando todo mundo. A energia sexual move homens e mulheres 24 horas por dia. Vamos parar de fazer tempestade em copo d'água e sermos realistas: o cara tentou. Não deu. Foi só.
Como disse uma amiga: "É claro que agride! Mas também depende de quem é o dono da mão. Daí..."


É tudo, caros amigos, uma questão de discernimento. A Abril não tinha nada que colocar mulheres seminuas e provocantes no seu "stand", nesse evento. A moça sem-noção, não tinha nada que topar sair desfilando seminua no meio de um monte de homens, fazendo que não sabia o que a sua (falta) de roupa provocava. O rapaz sem-noção, não tinha nada que passar a mão na bunda da moça, ferindo-lhe a dignidade, como se isso fizesse parte de um "direito natural" seu tendo em vista o fato de a moça estar pouco vestida. Os organizadores do evento (pelo jeito, os mais sem noção dentre todos) deveriam ter avaliado o impacto daquilo que permitiram que se realizasse nas dependências do encontro. Faltou a todos uma coisica básica, que é o que impede que façamos o que quisermos, com quem quisermos, no momento em que quisermos: discernimento. Discernimento sobre o local, a atividade, as pessoas, a situação, o ambiente. Sou capaz de apostar como se isso tivesse ocorrido numa partida de futebol, numa festa rave, numa festa de senhores abastados, num festival de cinema, numa visita promocional das coelhinhas ao Bairro Rubem Berta (em Porto Alegre), não causaria a menor repercussão.

Faltou discernimento. Também, hoje em dia, quem pensa?

- Eu?

- Eu não!

Estranhamento


Por: Ente Maldito






Cada vez estranho mais os homens e suas estranhas competições. Ouço, vindas de todos os lados, frases do tipo: "O mercado é uma guerra.", "Não se pode perder um segundo sequer, senão o concorrente nos passa a frente.", "Este não é um jogo para fracos. Somente os fortes restarão em pé.", e outras, do gênero. Isso, porém, o repetem aqueles que "já estão competindo", validados, ainda, por jornalistas que lhes fazem eco e se esforçam em convencer o mundo que vivemos tempos de intensa "competição".
Até as escolas, antes templos de formação de seres humanos multidisciplinados, preparados para viver "a vida" e nela progredir, junto dos outros seres humanos, agora tornaram-se "quartéis" onde batalhões de novos soldados são forjados para "a guerra", exaustivamente preparados para a "competição do mercado de trabalho", treinados para enfrentar a tudo e a todos e a resistir aos golpes que lhes serão desferidos pelos outros "competidores" (alguns, até, seus colegas de sala de aula), na tentativa de barrar o seu avanço. O que interessa é chegar ao topo, vencer, estar por cima.
Aí, o camarada trabalha como um condenado, estuda como um desgraçado, e sobe, sobe, sobe, sobe, sobe, e vai empurrando para baixo os que encontra pelo caminho, e continua subindo, subindo, subindo, e casa por casar, e tem filhos por ter, por que não terá tempo para estar com ninguém, mesmo, pois estará o tempo todo fixado na "guerra" (qualquer descuido pode ser fatal), e ele vai subindo, e vai subindo, e vai subindo, e sobe, sobe, sobe e, finalmente, quando chega lá em cima... Segundo um comercial de rádio do banco Itaú, agora, sim, ele terá um tempinho para jogar bola "COM OS AMIGOS". É sério! Não é para ficar com o filho, nem com a mulher... é tempo para ficar "COM OS AMIGOS". Mas, aí, eu pergunto: que amigos, bravo guerreiro? Se durante todo o caminho foram apenas batalhas e mais batalhas contra outros que também almejavam chegar onde tu estás agora. Ah, só se forem outros "competidores de sucesso", de outras áreas, que nunca entraram em embate contigo. Bem, aí, sim. Concordo. Deve ser legal. Muito bom.
O engraçado é que depois de tanto massacrar os outros, depois de tanto tempo indiferente para com os outros, depois de tanta casmurrice, o cara, no fim da vida, resolve virar filantropo.
Tem neguinho (e tem branquinho, também) que até faz visita à favela e distribui presentes, e se fantasia de papai noel, e adota uma instituição de apoio à pessoas carentes ou a portadores de alguma doença ou deficiência física incurável... É uma festa de benevolência. Mas por que não agiste assim desde o início, monstro? - "Bah, não dava, eu tava numa competição muito acirrada e não tinha tempo nem de olhar para os lados.". Sééériooo! Ah, tá brincando! Só me responda uma coisa, para eu entender: tu estavas competindo pelo quê, mesmo? Sim, tem de haver um motivo muuuiiito bom, porque para uma pessoa largar tudo e dedicar-se somente à "competição do mercado", é por que o prêmio deve ser exrtremamente recompensador, não é verdade? E aí, ganhou o quê? Dá para repartir com alguém ou vai ficar tudo contigo? Ah, ganhou dinheiro. Muuuiiito dinheiro. Que bom. Vai fazer o que, agora? Continuar ganhando, ou vai gastar um pouquinho? Sei, sei, é verdade, tem que cuidar, não dá para sair por aí torrando o que se levou uma vida inteira para conseguir. Mas, então? Tomamos mais uma?
Numa boa, só bebendo. Só bebendo para agüentar uma vida que não tem outro interesse na vida senão a si mesma. O planeta todo, com animais, vegetais e minerais vai de vento em popa, ladeira abaixo, e o zé migué não tá nem aí, isso nunca o preocupou. E ele não tem outro planeta para ir! Só este! Mas ele julga que por que tem muuiiito dinheiro, está imune, tem o corpo fechado. Ah, pára! Nem com benzedura eu aturo uma criatura assim.
Acho que estamos na competição errada. Acho que não deveríamos estar competindo uns com os outros, mas deveríamos estar competindo contra tudo o que ameaça a permanência da espécie humana. Deveríamos estar competindo contra os fenômenos naturais, que matam milhões, todos os anos. Deveríamos estar competindo contra as doenças naturais, que ceifam outros milhões de vidas, todos os dias. Deveríamos estar sempre olhando para o lado. Deveríamos ter tempo uns para os outros. Deveríamos ser todos responsáveis uns pelos outros e assumir essa responsabilidade numa boa, sem receio de que aquele que tu ajudas hoje pode vir a ser o mesmo que ajudará a te afundar amanhã. Ninguém tem que sacanear ninguém. O dinheiro poderia ser de todos. Nós precisamos de todos. Não podemos ser uma ameaça para nós mesmos.
Da maneira como estamos organizados (e pelo tanto que estamos empenhados), sei que esses pensamentos não passam de frívola utopia. "Olha o Ente Maldito romantizando a vida! Ah ah ah ah ah ah. Se liga, meu! O mundo é essa merda, mesmo, e não vai mudar! Daqui para a frente, a tendência é piorar, então temos que estar preparados para enfrentar o pior.".
E pode ter alguma coisa pior do que ter que se preparar para enfrentar o pior, sabendo que estamos contribuindo para que esse pior aumente? Nós somos os agentes! Estamos lutando contra nós mesmos. Se liga, mané! O inimigo não sou eu! Nem os outros! Não há inimigos. Estamos sozinhos neste planeta. Vamos destruí-lo por quê? Estamos nos destruindo por quê?

Eu sei a resposta, todos sabemos a resposta, só que ela é tão ridícula e incompreensível que é até difícil pronunciá-la: fazemos tudo isso (e faremos ainda mais) por dinheiro. Só por isso. Para ter muuiiito dinheiro. Putz, só temos uma vida, e a gastamos em troca de dinheiro...
Parafraseando a ironia do Raul Seixas: "Quando acabar, o maluco sou eu.". É vero.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O Porquê dos Porquês


Por: Ente Maldito


Dúvidas quanto ao emprego correto dos termos da língua, todos temos. E teremos muitas, quanto mais escrevermos. Apesar de lidarmos com a Língua cotidianamente, seja em leituras, seja escrevendo, cometemos deslizes corriqueiros.
Creio que uma das grandes dúvidas que nos surgem sempre é o emprego correto dos porquês. Eu, pelo menos, volta e meia me deparo com uma frase aonde preciso usar um porquê e acabo embatucando: "E agora? Como é que escrevo? Qual deles emprego?". Então volto a boa e velha gramática e leio, pela milésima vez, o que nunca consigo aprender.
Por isso, estou postando aqui no blog esta matéria, retirada do site Brasil Escola, pois acredito que poderá ser útil para muita gente.

Por que, Por quê, Porque ou Porquê?

O uso dos porquês é um assunto muito discutido e traz muitas dúvidas. Com a análise a seguir, pretendemos esclarecer o emprego dos porquês para que não haja mais imprecisão a respeito desse assunto.

Por que

O por que tem dois empregos diferenciados:

Quando é a junção da preposição por + pronome interrogativo ou indefinido que tem o significado de “por qual razão” ou “por qual motivo”:

Exemplo: Por que você não vai ao cinema?
Não sei por que não quero ir.

Quando é a junção da preposição por + pronome relativo que tem o significado de “pelo qual” e poderá ter as flexões: pela qual, pelos quais, pelas quais.

Exemplo: Sei bem por que motivo permaneci neste lugar.

Por quê

Quando vier antes de um ponto, seja final, interrogativo, exclamação, o porquê deverá vir acentuado e continuará com o significado de “por qual motivo”, “por qual razão”.

Exemplos: Vocês não comeram tudo? Por quê?
Andar cinco quilômetros, por quê? Vamos de carro.

Porque

É conjunção causal ou explicativa, com valor aproximado de “pois”, “uma vez que”, “para que”.

Exemplos: Não fui ao cinema porque tenho que estudar para a prova.
Não vá fazer intrigas porque prejudicará você mesmo.

Porquê

É substantivo e tem significado de “o motivo”, “a razão”. Vem acompanhado de artigo, pronome, adjetivo ou numeral.

Exemplo: O porquê de não estar conversando é porque quero estar concentrada.
Diga-me um porquê para não fazer o que devo.


Por Sabrina Vilarinho
Graduada em Letras
Equipe Brasil Escola

Depois que tu foste embora...


Por: Ente Maldito


“Para ti,
ó, estrela do meu último céu,
que me viu derramar
as lágrimas mais doloridas.”


A FALTA

Eu não sei por que, mas outro dia, de repente, de um momento para outro, assim, do nada, percebi como sinto a falta de você. De uma hora para outra, eu comecei a ver como as coisas ficam sem graça quando não estou com você, como fica sem sentido caminhar pela cidade e saber que não vou te encontrar; saber que vou chegar a algum lugar e você não vai estar lá, me esperando; saber que estou indo e você não está vindo.
Sabe essa coisa que dá quando a falta começa a doer? Cada vez eu sinto mais a falta de você. E como dói toda a vez. Qualquer dia eu vou pedir para você ficar, para você parar de doer. Qualquer dia eu vou pedir... E tomara que você me abrace, tomara que você não ria, tomara que você fique... Mas, mesmo se você não ficar, eu quero olhar bem dentro dos teus olhos; bem, bem, bem fundo, lá dentro dos teus olhos... E tomara que você me olhe, tomara que a minha voz não falte... porque eu quero te falar o que eu queria muito, mas muito mesmo, desde o outro dia, te dizer: “Ah, como dói a falta que eu sinto de você.”

Eu escrevi isso? (A Série)

Pois é. Nem sempre quem escreve está a fim de escrever algo que faça algum sentido, ou que, pelo menos, denote algum sentido. Algumas vezes a gente quer escrever bobagens. Brincar com coisa séria. Falar só por falar. Dizer um monte de abobrinhas. Encher lingüiça (eu não vou deixar de usar o trema, mesmo que me chamem de analfabeto! Além do que, eu não me chamo beto, chamo-me (ou assim me chamam) João. Então, me chamem de analfaJOÃO, assim sinto-me melhor identificado).
Foi por isso que resolvi criar esta série, a qual estou dando início hoje. Toda a vez que minha cabeça estiver somente a pensar besteira ou só conseguir produzir idiotices, publicarei as porcarias todas sob o guarda-chuva deste título: "Eu escrevi isto?". Fácil, né? Assim fico com as mãos bem limpinhas (Dá-lhe, Pilatos, meu rei!).
Então tá. Para mim está tudo combinado. Vamos começar com este "troço"...

Cruzando o céu,
vindo do espaço infinito,
o primeiro cavaleiro de Deus
traz, bem segura na mão,
a carta, da qual é guardião,
sob cujo selo se esconde o implacável arbítrio.

A espada em linha reta,
apontada para o horizonte,
divide o firmamento ao meio
com um corte flamejante.

Do ultimo círculo do céu,
subido em seu trono celestial,
acompanha, Deus, o seu mensageiro
em sua derradeira missão.
Soa pelos ares o som
das incontáveis trombetas agelicais.
É chegada a hora!
Treme a terra. Aterrorizam-se os mortais.
Com sua espada, o anjo traça,
um círculo do tamanho do sol.
Ergue a carta amaldiçoada e...

- Atenção, atenção. Aeronave não identificada.
Aqui é SINDACTA 1. Identifique-se, por favor. Câmbio.

Com essa, o anjo não contava!
Interrompendo o gesto,
busca pela voz misteriosa.

- Atenção, aeronave, câmbio.
Você está em espaço aéreo brasileiro.
Identifique-se. Câmbio.

Atônito, o anjo diminui o passo.
Volta o olhar para o céu e diz:
- E agora, Senhor, o que faço?

- Aeronave não identificada,
este é o último aviso.
Identifique-se ou a força aérea será acionada.
Copiou? Câmbio.

No trono, remexe-se, Deus,
inquieto com a demora.
Esperou por quase uma eternidade
e logo isso, agora?

- Atenção, aeronave não identificada,
câmbio. Você está em muito baixa altitude.
Corrija, por favor. Corrija. Câmbio.

Novamente o anjo pergunta,
abrindo os braços, ao céu:
- E agora, o que faço, meu Deus?

- Aeronave! Aeronave! Lagacy a seis horas!
Repito. Legacy a seis horas! Câmbio.
Suba! Suba! Copiou? Câmbio.

O cavaleiro está parado.
Bem no meio do azul.
Onde se encontram os quatro ventos
que sopram de leste, oeste, norte e sul.
E agitando novamente os braços,
cada vez mais nervoso,
pergunta outra vez ao Todo-Poderoso:
- E então, meu Senhor, o que faço?

E Deus, do alto de sua infinita onipotência,
finalmente diz:
- O quê?
- O que que eu faço?
- O quê? Não consigo ouvir nada
com essa zorra! Jacó! Jácó!
Manda os anjos pararem com essa porra!

Na terra, perplexos, sem nada entender,
a massa dos homens espera
o momento infausto de perecer.

- Aeronave! Aeronave! O lagacy!
Suba! Suba! Vocês vão bater!
Suba! Sub...

CA-TA-PLOUMMMMM!

Gira o cavaleiro no dorso
do cavalo, pelo avião, decepado.
Cai vertiginosamente
- e completamente desequipado -.
A carta voa-lhe da mão.
A espada lhe escapa por outro lado.
E o corpo angélico despenca
despedaçando-se no chão condenado.

- Jacó! Jacó! - Grita, Deus,
já com a infinita paciência
posta de lado.

Diante do imprevisto espetáculo,
vibra a multidão inebriada.
Falarão do acontecido por séculos,
e ainda exibirão a carta e a espada.

- Jacó! Jacó! Não consigo ouvir nada!
Jácó, seu desgraçado,
aposto que a tua mãe morreu apedrejada!

- Atenção, comando. Aqui SINDACTA 1.
Câmbio. A águia caiu. Repito. A águia caiu.
Câmbio.

Sobre a terra, um grande silêncio
se instaura.
Nenhum vento, nenhuma brisa sopra.
A natureza inteira parece morta.
Alguém, então, só de brincadeira,
estala, no pandeiro, a primeira nota.
Logo atrás vem os outros.
Ruge a bateria.
Requebram milhões de mulatas
na mais pura e suada alegria.
Explode o carnaval!
Fervem os corações
no mágico caldeirão da fantasia.
A folia toma conta do Juizo Final.

De seu trono iluminado,
a contemplar aquela festa,
apoiando em ambas as mãos
a divina testa,
resmunga Deus para os seus:
- Puta que o pariu!
Pra acabar com esse povo
nem se eu mandasse
um exército de bestas!

- Atenção, comando, câmbio. Aqui SINDACTA 1.
O legacy pousou. Repito. O legacy pousou.
Câmbio.

Ente Maldito, 21/01/09

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Não sei se foi a posição das estrelas (continuação)


(Capa original do livro de HILDEBRAND, Aracy, Ed. Cia. Nacional, Sâo Paulo, 1955, 9ª Edição)

Dando continuidade à postagem anterior, quando me referi ao fato de ter um poema selecionado para participar de uma coletânea de poesias, gostaria de apresentar a vocês o trabalho selecionado e falar um pouco sobre ele, sobre como surgiu.

Acho que todos os que cultivam o hábito da leitura (mesmo que esporádico), ao se depararem com a obra de alguém, e que lhes caia no gosto, sempre ficam a perguntarem-se "mas de onde é que ele tirou isto?". Alguns escritos parecem que contam a nossa história, tal a maneira como se encaixam na nossa vida em determinado momento. Outras vezes ficamos curiosos querendo saber: "será que o autor vivenciou isto que ele está narrando? Porque parece que ele está falando de uma experiência pessoal, tal a maneira como ele domina o assunto.".

"Deusdios" tempos da faculdade de Letras, aprendemos, "deusdio" primeiro semestre, que não se busca a pessoa do autor retratada naquilo que escreve. A história que está sendo entregue ao leitor não é uma autobiografia, portanto o autor é um narrador (mesmo quando alguma personagem fala em primeira pessoa), apenas, de uma outra história que não a sua. Mas, convenhamos, é muito difícil nos retirarmos completamente do texto que escrevemos. Alguma parte, pelo menos, reflete nossa maneira de pensar, de entender o mundo, ou, então, refere-se a algum momento real de nossa história de vida.

A poesiaminha que foi selecionada chama-se "NÃO SEI SE FOI A POSIÇÃO DAS ESTRELAS" e foi escrita como uma forma de resolver uma profunda frustração ligada a necessidade de matar um sonho. Um grande sonho.

"Deusdique" conheci a mulher que amo, sempre sonhei em ter com ela um filho. Nossa história de amor, entretanto, não nos foi favorável, sendo ponteada por vários e lastimáveis afastamentos. Como resultado, construímos vidas próprias - cada um a sua. E tivemos nossos filhos: eu tive uma menina e um menino, ela teve uma menina. Constituímos famílias e coisa e tal.

De uns anos para cá, porém, nos aproximamos inexorávelmente. Entretanto, devido a nossa "idade avançada", mesmo que, desta vez, venhamos a ficar juntos definitivamente, já não nos será mais possível termos um filho, justamente por já estar ela num período da vida em que uma gravidez passa a ser um processo de alto risco. Então, em face dessa realidade imposta pela natureza humana, tive de matar um sonho. E o sofrimento, ao matá-lo, foi muito grande. A fim de poder lidar com a realidade desfavorável, fiz este poema. Uma forma de desabafar, de dar um grande suspiro, de deixar que o morto morra em paz.

Eis o poema. Espero que agrade aos leitores. Se possível, gostaria de ter algum retorno daqueles que o lerem, até para antecipar os planos de um futuro voo mais alto, mais arriscado. "Deusdijá", agradeço.

Não sei se foi a posição das estrelas


(Capa original do livro de HILDEBRAND, Aracy, Ed. Cia. Nacional, Sâo Paulo, 1955, 9ª Edição)

E então aconteceu. Dois anos e um mês depois de publicar meu primeiro poema aqui neste blog (foi a primeira vez que trouxe a público um escrito meu), este Ente Maldito foi selecionado, entre vários poetas de todo o Brasil, para participar de uma coletânea de novos autores, com o intuito de homenagear a inesquecível poetisa Cecilia Meireles (sempre me declarei um Ceciliano, tendo em vista a grande influência estilística que os textos dessa autora exerceram sobre mim).

A coletânea será lançada pela Editora Baraúna Ltda, com sede em São Paulo, sob o título "O Efêmero e o Eterno - Coletânea de Poesias". Não ganharei nada por esta participação, pelo contrário, ainda terei que pagar, porém minha vibração prende-se ao fato de ter sido selecionado entre tantos que enviaram seus textos e de ter a oportunidade de ver, pela primeira vez, uma poesia minha publicada em papel, no formato livro.

Quando lembro da minha timidez e da pouca confiança que tinha no meu trabalho, há pouco mais de dois anos, fico admirado com a velocidade com o que se descortina agora, aconteceu. O meu grande amor (sempre ela) foi a impulsionadora deste processo e, por isso, quero compartilhar com ela da colheita e do desfrute deste primeiro fruto da minha árvore. Enquanto eu inventava milhões de motivos (desculpas) para não mostrar a minha arte, ela os ia derrubando, um a um, com seus argumentos de valorização e reconhecimento. E isso não é de agora. Desde que nos conhecemos (há 23 anos) é assim. Quando eu ainda escrevia arremedos de poesia (umas coisas bem "rupestres", na verdade) e ela os achava lindos, fantásticos, maravilhosos, incomparáveis (o amor é cego, mesmo! Bah!), já me dizia que eu deveria publica "aquilo". E eu, apertando o fígado para disfarçar o mal-estar, lhe dizia que ainda tinha muito o que melhorar antes de publicar algo. E havia também as músicas. Até hoje não sei se aquelas manifestações dela eram de apreço, de reconhecimento, por amor, ou pura loucura mesmo, sabe? Daquelas brabas! Genéticas! Que não tem cura nem com células-tronco. E ela insistia, insistia: "Ah, grava um disco." (na época ainda não havia os CDs, eram só os discos de vinil - que, graças à tecnologia, estão voltando com tudo!), "Te inscreve num concurso, toca num barzinho...", e por aí coisa ia.

Nunca segui seus conselhos, sempre enclausurado num medo horroroso de expor meu trabalho à crítica. Mas aí vieram os "enta" (já passei dos quarenta) e as barreiras que eu impunha começaram a ceder. Criei este blog, comecei a participar de um grupo de discussão literária chamado "Saindo da Gaveta", declamei pela primeira vez minhas poesias em público durante o evento "PortoPoesia / 2007", comecei a ir a saraus e mostrar meus poemas, até que, enfim, me inscrevi numa seleção. E não é que deu! Atualmente ninguém mais me segura: entreguei um conjunto de poesias minhas para um editor, criei o estilo poético a que denominei, provisoriamente, de Tercetos, cujo manifesto de lançamento pode ser encontrado aqui no Blog, sou sócio-fundador de uma Associação Cultural, pretendo organizar e ministrar, a partir de março, na sede dessa associação, uma oficina regular de haicai, e estou elaborando um projeto de um pocket-show envolvendo declamação poética, grafite e música cuja intenção é levar para todo o Brasil e, se possível, a alguns países da América Latina, a poesia "joanina" aos moldes dos menestréis.

Vejam só a criatura que essa moça libertou! Obrigado, meu lindo amor!Mas, já que estamos nos agradecimentos, não posso me esquecer de agradecer a um grande incentivador e divulgador e cicerone e amigo: Rafael Trombetta, da MaisQNada Produtora Cultural. Foi ele quem me apresentou ao "Saindo..." e me abriu a portas para que eu pudesse participar do 1º PortoPoesia. Também foi ele o primeiro a me dar um horizonte de possibilidades plausíveis para a edição e publicação de um livro de poemas.A seguir vem os meus grandes amigos Águias, o casal Roberto Jung e Carmelina, que me fizeram, definitivamente, acreditar no meu potencial artístico e deixar, de uma vez por todas, a falsa modéstia de lado.

Por fim, um agradecimento especial a todos aqueles que leram meus poemas e me retornaram alguma palavra de incentivo, ou de apreço. Muitas dessas pessoas continuam anônimas na minha vida, isto é, sei delas apenas o seu apelido na internet, porém, suas observações, comentários, elogios, foram fundamentais para que eu passasse a acreditar mais em mim e a botar mais fé no meu taco, dando-me a certeza de que produzia uma obra de boa qualidade e digna de publicação.

Muito obrigado, meus amigos. O primeiro fruto veio. Que frutifique a árvore toda, para o deleite de todos nós.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

"O Fim do amor" ou "Será que terminou mesmo?"

Este fim de semana, lendo o jornal, me deparei com um texto que me chamou muito a atenção, de cujo final anotei duas frases que, para mim, soaram bem estranhas: "Às vezes é melhor uma rendição do que fugir de um amor que não foi vivido até o fim." (...) "não antecipe o término do que ainda não acabou, espere a relação chegar até a rapa, e aí sim.".
Fiquei um tempão matutando (até este momento, em que escrevo): "esperar chegar ao fim... esperar chegar ao fim...". Sei lá, entende? Não entendi. Ou entendi de uma meneira própria minha que não tinha muito a ver com os argumentos contidos no texto.
Explico. Já me separei três vezes (Ah, ééééé!!!! Trêêês!!!! Mas que cachorro!!!) e os momentos que anteciparam cada separação nunca foram muito, assim, conscientes se era o momento certo ou não. Porque milhões de coisas passam pela nossa cabeça quando decidimos cair fora. E nesses momentos nem é tanto o que decidimos o que nos paralisa, mas como os outros vão reagir, o que vão pensar. Sim, pois quando um relacionamento acaba, parece que o mundo todo a nossa volta se sente traído. "Mas, como!!! Vocês pareciam tão bem! Até estavam fazendo planos de adquirir uma casa nova, mudar de ares! E a viagem de que tanto falavam?", et cetera, et cetera, e tal. E os que mais se sentem assim são os pais. O pais do "separando ativo" argumentando que vão morrer de vergonha com aquela atitude tresloucada ("Tu só pode ser bipolar! Só pode ser bipolar! Ah, meu Deus!"); os pais do "separando passivo", que vão morrer de vergonha pela sombra de dúvida que irá pairar na cabeça das outras pessoas imaginando porque o outro o teria deixado ("Começou com aquela viagem a Salvador, lembra? E o que era aquela roupa feita só de fitinhas de Nosso Senhor do Bom Fim?."). E pedem, imploram, suplicam que pensemos melhor, que temos um futuro todo pela frente, que não podemos fazer isso, que pensemos em tudo o que estamos deixando, que estamos perdendo. Logo em seguida vem as ameaças: "E agora? O que que tu vai fazer? Não espera contar com a nossa ajuda! A nossa vida tá muito bem organizada do jeito que está!", e lero lero lero lero lero...
Aqueles que já passaram por uma separação, certamente já ouviram coisas semelhantes. Bem, mas prosseguindo meu raciocínio... Quando tu te decides a dar um fim a um relacionamento, tu nunca sabes ao certo se é bem a hora de terminar. Sempre pesa sobre nossa cabeça aquela espada pontiaguda e afiadíssima do dito popular: "Depois que se perde é que se dá valor. Mas aí já é tarde.". Nessa hora é que a gente vê o quanto é importante a maturidade. Não a maturidade advinda com a idade, mas a maturidade emocional: "isso eu quero, isso eu não quero, e estou pronto para arcar com as conseqüências.".
Pois é. Pensando bem, tudo gera conseqüências, porém, sempre, uma coisa é certa: perde-se ganhando e ganha-se perdendo.
Pensem comigo: apenas observando a natureza, o que mais salta aos olhos? Não é o equilíbrio que há em tudo? Pois na nossa vida também funciona assim. A vida nos ensina desde cedo que não podemos ter tudo. Que só podemos ter uma coisa (ou algumas, vá lá) de cada vez. Que para avançarmos, temos de nos desfazer de algo, pois mesmo aquilo que angariamos até este ponto, não poderá seguir conosco quando a nossa mais nova aquisição vier tomar o seu lugar. Assim, enquanto vamos perdendo "coisas" pelo caminho, vamos recolhendo outras. E tudo se dá pelo singelo motivo natural do equilíbrio. Ninguém, mas ninguém mesmo, conseguiria viver uma existência plena de felicidade, nem plena de frustração. É preciso que haja um bom balenceamento entre as duas, pois dessas duas experiências tiramos grandes ensinamentos. E na falta de uma, ou da outra, não nos desenvolveremos plenamente.
Entretanto, sou forçado a reconhecer que deixar algo é muito difícil. E atirar-se ao desconhecido também. No geral, optamos sempre pela segurança. Apesar de nunca sabermos ao certo o que quer dizer essa "segurança", na medida em que, se algo vai mal e não estamos fazendo nada para melhorá-lo, a única segurança que temos é a de que ainda pode piorar. E piora. Bastante.
Neste momento, equilíbrio é a palavra. Até aqui, estou pensando na força de vontade que deve prevalecer naquele que percebe quando um amor acabou - em si, no outro, ou em ambos - para que tome, enfim, uma atitude positiva, ou seja, passe do pensar ao agir. Apoiado em algumas considerações um tanto óbvias, mas que muitas vezes nos fogem nesses momentos de cegueira.
Mas vamos prosseguir. Passemos, agora, aos questionamentos. Adiante...
Como ter certeza de que chegamos à "rapa do tacho"? Como ter certeza de que o amor em que estamos metidos não dará mais qualquer fruto, a árvore secou, não dará mais sementes? Não há como ter certeza, é o que respondo. Quando percebemos em nós que não nutrimos mais aquele sentimento intenso que antes tinhamos pelo outro, nunca conseguimos localizar exatamente quando isso começou a acontecer. Há alguns que arriscam: "Ah, mas eu sei bem o momento quando deixei de amar fulano. Foi aquele dia, na casa da Claudinha, lembram?", "Lembro, mas, se não me engano, uns dias antes tu nos disseste que achavas que algo em ti estava morrendo. Pelo menos foram essas palavras que tu usaste.", "É... Eu disse... Ou eu acho que disse, não sei, tenho andado tão esquecida ultimamente.". E está instaurada a dúvida na depoente: "Será mesmo que eu já venho sentindo isso há mais tempo?...".
É impossível apontar o momento exato em que o amor se retirou do nosso convívio. Como é impossível definir o melhor momento de cair fora. Viver um amor até o fim pode ser muito arriscado, afinal quem decide o fim somos nós, então... Geralmente, aquele que pensa em se separar passa por um sentimento de culpa gigantesco, enquanto o que não quer se separar, sofre por um sentimento de injustiça irreparável. Muitas e muitas vezes, ficam arrastando essa situação sem solução (um não vai, para não fazer o outro sofrer; o outro não vai por que quer ficar mesmo e, de qualquer maneira, não queria que o outro fosse) por muito e muito tempo, até chegarem a um estresse tão intenso, que acabam quase se matando dentro de casa com acusações mútuas de incompreensão e despeito. E aí começa o sufocamento. A sensação de falta de espaço, de ar. Será que isso é "a rapa do tacho"? Mas por que temos de chegar até aí para termos certeza de que vivemos um amor "até o fim"? É corrente ouvirmos as pessoas falarem de outras que estão no auge de suas carreiras de que esse é o melhor momento para encerrá-las, quando estão por cima, pois assim serão lembradas nesse estágio bem sucedido. E um relacionamento? Não seria melhor terminar quando se percebesse que ele já deu o que tinha que dar, que não temos mais vontade nem forças para melhorá-lo e, assim, sem alarde, sem "sufoco", terminar por cima, com elegância, mesmo sabendo que ambos irão sair com a impressão de que ainda é cedo?
No fim, o que podemos fazer por nós e por quem está ao nosso lado é sermos honestos e sensíveis. Não é preciso "esperar" o momento de sair de uma relação, o que é preciso é admitir que esse momento chegou (quando chegar) e arcar com as conseqüências. Nunca sairemos ilesos nem impunes. Creio que o melhor não é esperarmos para reconhecermos o fim, mas reconhecermos que o fim que esperávamos, chegou (olha, Camilo, uma paranomásia, he he he he).



sábado, 17 de janeiro de 2009

SAUDADE!

Pois, é... Tô com saudade... Muita saudade... Saudade do quê? Não é "do quê", é "de quem". Saudade do meu grande amor. Sim, incrédulos, vivo um grande e (como não poderia deixar de ser) doloridíssimo amor. Putz, é f*&%@#! E, entre encontros e desencontros, chegamos a incalculável cifra de 23 anos de paixão e impossibilidades!
(Quem aposta R$ 1,00 que chegaremos aos 24?)
Não sei por que que grande amor dói tanto. Nâo era para ser assim. Quando estamos juntos, a vida fica toda fácil, cor de rosa, descomplicada... até o SPC (Seu Personal Controller) me esquece... O Banco Central me dá talão de cheques! (Cliente VIP - Very Insistent Person)... O mundo se torna todo maravilhoso. É como se todo mundo fosse parar de brigar, de se xingar, de se odiar, só porque nós existimos - e estamos juntos.
Só que a realidade não segue o nosso ritmo. A realidade, na real, não tá nem aí pra nóis. Nóis que se f@#$! O tempo não para! "Quer, quer; se não quer, tem quem quer!" E nóis querendo, querendo, querendo...
Mas, apesar de todos os contratempos, nóis temos seguido adiante. Se iremos conseguir, ou não, só o futuro dirá. Por enquanto, faço poesia.
Mais uma, para o meu lindo e único amor...

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O Dramaturgo e o Poeta

Meu, eu não desisto desse cara. Ele é muito bom!
Tá pensando que eu tô falando de dramaturgia?
Não, meu amigo, tô falando de poesia.
Qual poesia?
Esta, meu caro, logo aqui, abaixo.
Visualizou?
Achou o que eu acho?
Não?
Então, leia.
Depois discutimos.
Se isto é texto ou é rio;
se é canção ou vento;
se é contemplação ou movimento;
se é... (entendeu?)...
Quem chorou não riu!



Mignon Pensive

Enxergo Mignon num filme monocromo,
a mão direita sobre a esquerda segura
um desejo, por certo preso ao peito,
e no rosto um queixume quase aflora.

À sinistra está sombria, à destra iluminada,
mas há no íntimo uma luz trêmula, singela,
que o ocre das vestes pesadas dissimula,
da flor do coração, bem pouco se revela.

Seus lábios pedem um beijo,
um pousar sutil de mariposa,
que viesse provar o sabor
do campo, numa framboesa.

Jóias negras são seus olhos,
de outros brincos não precisa,
enfim, percebo em que medita,
inventa meu sonho, pensativa.

Camilo/01/09.

Intão nóis goza...

Pois é, finalmente Ele se vai. Já não era sem tempo. E ainda saiu dizendo que se diz convencido de, durante sua gestão, ter contribuído para "deixar o mundo um pouco mais seguro e em paz". Que cara de pau! Sabem de quem estou falando? Bem, vou deixar que as imagens abaixo falem por mim. Escolhi essas imagens pelo simples motivo de que eu, tal qual milhões de outras pessoas neste planeta, não posso mandar "prender, bater, arrebentar" tal criatura. Diante disso, tal qual outras tantas pessoas neste planeta, presto-me a tirar um sarro desse bizonhento-filho-do-capeta-que-se-julga-um-enviado-de-Deus. (E ainda tem certos 'colunistas', 'jornalistas', 'comentaristas', 'articulistas' e outros 'istas' da seríssima e sempre-comprometida-com-a-verdade imprensa brasileira, que dizem que o nosso presidente é que é tosco.)
Eis a galeria de fotos - retiradas de vários sítios na internet - do elemento:



E tem também umas animações bem legais, só para zoar com o (mal)dito.












PLIM! Desejo realizado, amo.O crepúsculo de um ídolo...

















E não podiam faltar as montagens. Aqui estão algumas que são, na minha opinião, bem engraçadas.
















sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Hamas


O Hamas (em árabe: حماس, transl. Ḥamās, acrónimo de حركة المقاومة الاسلامية, Ḥarakat al-Muqāwamat al-Islāmiyyah, cujo significado é "Movimento de Resistência Islâmica") é uma organização paramilitar e partido político sunita palestino que tem a maioria dos assentos no conselho legislativo da Autoridade Nacional Palestina[1].
O Hamas está ligado à luta pela formação do Estado Palestiniano, e pela desocupação dos territórios palestinianos ocupados por Israel, durante a Guerra dos Seis Dias.
(Fonte: www.wikipedia.org)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Mais sobre o Iraque




Se tu estiveres a fim de assistir a um vídeo sério sobre os antecedentes à declaração de guerra ao Iraque, feita pelos Estados Unidos, visite o site Leading to War (Prelúdio da Guerra).
Há uma versão legendada em português, que tanto pode ser assistida on-line quanto pode ser baixada. Também há um arquivo com cenas adicionais, que da mesma forma tanto pode ser assistido on-line, quanto pode ser baixado.
Se tu decidires baixar, saiba que ele tem 405Mb e o arquivo adicional, 92Mb. Ambos estão no formato .MOV, que é o formato Apple QuickTime. Este formato de arquivo, no entanto, roda também no MediaPlayer Classic, que pode ser baixado do Superdownloads.

Insisto para que assistam. São vídeos para lá de esclarecedores.

Ficha Técnica:

Título Original: Leading to War
Ano: 2005/2006
Duração: 72 minutos
Idioma: Inglês (USA)
Direção: BARRY J. HERSHEY
Edição: MARC GROSSMAN
Produção: LEWIS D. WHEELER
Co-Produção: ELLIE LEE
Observação: Legendado (PT-BR)

Título Original: Leading to War "Additional Scenes"
Ano: 2005/2006
Duração: 16 minutos
Idioma: Inglês (USA)
Direção: BARRY J. HERSHEY
Edição: MARC GROSSMAN
Produção: LEWIS D. WHEELER
Co-Produção: ELLIE LEE
Observação: Legendado (PT-BR)

Um pouco sobre o Iraque

Como se sabe (pelo menos nós sabemos), brasileiro faz piada com tudo, mesmo das piores tragédias. Neste vídeo, o grupo Cia. Teatral Os Melhores do Mundo apresenta uma cena de um imaginário Sargento Deny que teria se oferecido voluntariamente para ir ao Iraque, junto com um grupo de soldados brasileiros, auxiliar na captura e apreensão de Sadam Hussein. Ao mesmo tempo hilário e contestador, esta cena é bem reveladora do que foi e é praticado naquele país pelas tropas invasoras, protagonistas das mais diversas aberrações terroristas de que um ser humano é capaz de infligir a outro, mas traz também um lado catártico ao imaginar um desenlace que reflete bem o que gostaríamos que acontecesse àqueles "fanfarrões", para usar expressão tomada ao livro "O Caçador de Pipas".

Espero que o vídeo proporcione boas risadas a todos.

O Dramaturgo e o Poeta




Tchêêêê...! Olha só o que o Camilo enviou desta vez.

Sem palavras, Mestre...

Balada para o irmão de meu amigo.

Quatro horas da manhã.
Acordo num sobressalto de lucidez,
no convés de um navio abandonado.
Pela vidraça da escotilha,
dentro da cabine do irmão de meu amigo,
vejo mapas espalhados pelo chão,
e, sobre a mesa, iluminada por uma vela que ainda arde,
vislumbro seu poema inacabado :

" A luz da vela
passando permanece
ninguém se torna velho
ninguém amadurece
por ter duas pontas
essa agulha não costura
a distância entre a terra e a lua
está numa lágrima
que a língua do sol enxuga..."

Uma brisa repentina folheia as páginas do diário,
a luz amarela do lume tremula mas persiste,
projetando nas paredes imagens vagas
de ruinas e maremotos, que ofuscam
outra imagem anterior, esmaecida,
de uma família acenando adeus
em um porto remoto.

"...cortaram a corda da âncora
e a nave vagueia às escuras
embarcação que não aporta
agulha que não costura..."

Agora recordo dos outros, meus companheiros.
Toda aquela tripulação intrépida está agora alhures,
perseguindo-se pelo botim de velhas piratarias.
Não sabem, não lembram, que permaneço só,
último guardião desse navio antigo.
E o inventário daquela aventura
que todos eles procuram,
está no diário de bordo
do irmão de meu amigo.

camilo, 2006.

Livre Arbítrio. Como assim?




O que é livre arbítrio? Conforme o que diz o meu entendimento mediano das coisas da vida, é a faculdade que temos de decidir o que queremos para nós mesmos e o que e como fazer para realizarmos esse querer. Trabalhando com exemplos - adoro isso! - seria algo como: "Decidi que quero ser mendigo. Como eu faço para me tornar um mendigo? Começo largando o emprego. Depois abandono a casa onde moro. Me afasto de meus familiares e amigos. Deixo tudo o que me pertence. Vou morar na rua. Como farei para suprir minhas necessidades básicas de sobrevivência? Vou esmolar, pedir, suplicar. E as conseqüências? Bem, as conseqüências não posso determinar. Mas sejam quais forem, terei de suportá-las." Bingo! Palmas para mim! Agora sou mendigo. Exerci meu livre arbítrio. Será?
Há uma frase, que circula muito por aí, anunciando que "somos o resultado de nossas escolhas.", porém, o que o autor do provérbio esqueceu de dizer é que nossas primeiras escolhas são estimuladas por outros que, no final das contas, são os que escolhem por nós. "Qual a tua cor preferida?, pergunta a atendente amorosa à menininha de seis aninhos no seu primeiro dia na escolinha. "Verde", responde a mãe zelosa, "Verde", repete a menininha, "Ah, verde, muito bem. Vamos ver o que temos aqui na nossa estante que seja verde...". Não é assim? Responda com sinceridade: não é assim? A criança nem sabe o que é preferir uma coisa à outra, muito menos o que significa algo ser verde e não ser amarelo, por exemplo. No entanto, a atendente toma a resposta da mãe como sendo a autêntica expressão de uma verdade interior da criança. E a pequena infante cresce feliz acreditando que sua cor preferida é a cor verde. Quando adulta, ela comprará um vestido verde ao invés de um amarelo, como resultado de um valor que lhe foi introjetado ainda na infância. Livre arbítrio? Ah, não brinca comigo!
Passamos grande parte de nossas vidas - até os 10 ou 12 anos, mais ou menos - tolerando que escolham por nós. Desde a roupa, passando pela comida, pelo time "do coração", pelos lugares a serem ferqüentados, até o "tipo" que melhor combina conosco. Quando chegamos na pré-adolescência, começamos a fazer tudo ao contrário do que nos foi imposto ao longo do tempo até essa idade maravilhosa. Na adolescência vamos elevar a enésima potência essa rebeldia contra o sistema familiar. E quando chegarmos na idade adulta - que hoje começa lá pelos 50 anos (brincadeirinha) -, teremos passado a vida toda, até aqui, mimetizando valores, símbolos, gostos, frustrações e tantas outras coisas, todas alheias a nós. No início são os exemplos do papai e da mamãe, misturados com os exemplos de algum familiar ou pessoa próxima; logo depois são os exemplos dos que se destacam na mídia, sendo que esses exemplos vêm carregados de uma simbologia que não é apenas das pessoas retratadas, mas também daqueles que as querem retratar com o propósito de faturar algum dinheirinho com essa exposição; mais adiante vêm, além de outros exemplos, também destacados na mídia, os pais ou parentes dos amigos que fazemos, os próprios amigos, outros adultos que vem fazer parte de nossa vida, tais como professores, médicos, delegados de polícia, monitores da FASE, etc. No fim de tudo isso, o que temos em nós de autêntico? Nada. Somos o que outros foram ou aparentaram ser. Somos uma imitação. Somos uma interpretação, melhor dizendo, já que não se consegue ser igual a ninguém, nunca.
Assim, não somos o resultado de nossas escolhas. Somos o resultado das escolhas dos outros. Que por sua vez também são o resultado das escolhas de outros. E assim para trás, até o Gênesis, ou o Caos. Então, jamais poderemos decidir algo por nós mesmos, como representação de um livre arbítrio, pois fomos arbitrados ao longo de toda a vida. Tudo o que decidirmos será em função de algo que valorizamos ou apreciamos não por existir em nós, mas porque vimos existindo em outro (ou em outros), e julgamos que aquele modelo era o que melhor se adequava à nossa personalidade, e o tomamos e adaptamos. Somos, portanto, o resultado de incorporações, não de escolhas. Somos uma gigantesca Multi - uma Multipersonal. E raríssimas vezes - se é que houve alguma - optamos por incorporar algo, ou não, baseados numa livre consideração, pois estávamos atentos cotidianamente a reação dos outros àquilo que acabáramos de incorporar e expressávamos, já que nunca fizemos algo para nós mesmos, mas sempre pensando no que os outros iriam dizer, ou como iriam reagir, preocupados se seríamos aceitos, ou não. E é natural que seja assim: lembre-se de que, quando criança, tudo o que tu fazia era pensando em impressionar, positiva ou negativamente, os adultos que estivessem à tua volta. Então, tu repetires esse comportamento, agora, aos 48 anos, não é nenhuma novidade.
Ainda há os que dizem: "Ah, eu sou assim e não tô nem aí com o que os outros vão pensar.". Hmmmm... tá sim. Se não estivesses, tu estaria internado na Fundação Kinder, ou em outra semelhante, pois serias portador de alguma incapacidade mental que não te deixaria perceber os que te rodeiam, os que vivem em sociedade contigo.
Por isso, julgo que não exista o tal livre arbítrio. Acho que tudo o que decidimos é em função dos exemplos (bons ou ruins) que fomos mimetizando ao longo da vida até chegar a este ponto, quando resolvemos decidir entre uma coisa e outras tantas. Enfim, tudo o que somos, não somos. A única liberdade que temos é a de escolher quais desses tantos que absorvemos pela existência a fora, irão se manifestar e quais serão reprimidos. E mesmo essa escolha se dará não em função do que queremos ser, mas em função do que o meio aonde formos praticar nossa existência exigirá.
Concluindo, afirmo que não somos dotados de livre arbítrio. Somos, outrossim (outrossim é bom, né?), dotados de discernimento, que é a capacidade de refletir sobre nossas atitudes e manifestações, optando por aquelas que nos pareçam mais adequadas ao momento que estivermos vivendo. Discernir tem a ver com sobrevivência, e essa é a força original que nos move e nos sustenta, a mesma de que todos os outros animais que co-habitam neste planeta são dotados. O que se chama de livre arbítrio é repetição de modelos introjetados.
E há os sentimentos. E, acima de todos, o Amor. Mas isso é assunto para outra postagem.

Fui. Reajam! Digam que estou errado, que pirei de vez. Falem alguma coisa. Não posso estar falando/escrevendo apenas para um monte de fios e circuítos elétricos. Espero estar me comunicando com pessoas.

OBS.: Hoje eu estava prolixo (ou pro-lixo, como talvez pensem alguns). E olha que eu nem fumei...

PS.: erros de ortografia, sintaxe e estrutura textual são tolerados neste Blog, tendo em vista que os artigos são escritos, assim, "a la loca", com revisão em tempo real. Eu não escrevo e depois reviso. Eu escrevo e vou revisando. Só que tudo daquele jeito. Ainda mais a esta hora da madrugada.

PS do PS.: Agora, sim, fui que a cama tá me chamando.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Uma Pessoa "Tri"

No ano de 2007 participei de um grupo de discussão literária, aqui em Porto Alegre, chamado "Saindo da Gaveta". Era um grupo que agregava vários escritores dos mais diversos estilos: contistas, cronistas, dramaturgos, poetas, romancistas, etc. (apesar de eu nunca ter sido apresentado a nenhum et cetera).
Neste grupo conheci várias Pessoas - dito e escrito assim, mesmo, com pê maiúsculo. Dentre essas Pessoas estava o Bruno Paiva.
O Bruno é um desses tipos de caras a quem podemos chamar de "tri". O Bruno é "tri". Poeta sensível, Pessoa acolhedora. O Bruno é "muito tri". Nele, "a anatomia ficou louca" e transformou-o em "todo, mas todo coração".
É do Bruno que vem a contribuição a seguir. Leiam e se deliciem com a poesia delicada e instigadora deste moço.

Ao texto...

O APERTO

O aperto

aperta

no malogro

do silêncio

indócil

e

cauteloso.


Bruno B. Paiva

O Dramaturgo e o Poeta




















Haicai (ou haikai ou haiku) é um estilo poético instigante. Desde que chegou ao Brasil, por volta do final do século XIX, especialmente em livros de viagens, o haicai provocou nos poetas de língua portuguesa brasileira as mais variadas reações. Desde aqueles que tentavam manter-se fiéis à métrica japonesa, seguindo-lhe milimetricamente a forma, até os que já começavam a descortinar um jeito "abrasileirado" de tratar o novo estilo.
De lá para cá, muita água rolou e, atualmente, o haicai brasileiro já tem o seu próprio estilo. Apesar de respeitar a forma original não está mais preso a cânones, usufruindo de liberdade especialmente quanto à metrificação e ao uso ou não do termo da estação (kigo).
Mas os poetas são incansáveis e imprevisíveis, e, principalmente, não têm limites. Foi essa a constatação que tive ao receber de Camilo de Lélis o que me parece ser - não tenho maiores informações a respeito - o primeiro haicai escrito em (pasmem!)... Guarani!
Pois é, maluco! O cara me escreve um haicai em Guarani!

Chega de papo. Leiam isto:

yauaretê açu
caapor añangá pitã
yacy tupancy

"onça grande
diabo vermelho do mato
luar mãe de deus"

Conforme o que conversei com o Camilo, restam algumas dúvidas, nele, sobre a questão de pronúncia das palavras utilizadas a fim de verificar se fecham, quanto à métrica, com a métrica japonesa. Porém, conforme já discorri anteriormente, que diferença faz? Também há algumas dúvidas quanto à tradução (feita pelo autor). Mas vamos reparar no ineditismo, no desbravamento de um novo campo de ação poética, isto, sim, é o maravilhoso que se destaca neste exercício (acho que podemos chamar assim, por enquanto).
Eu, particularmente, fiquei muito empolgado com a possibilidade de escrever haicais em Guarani, tendo em vista que seus termos lingüísticos, aparentemente, poderiam guardar uma relação mais próxima com a língua japonesa, no que se refere a divisão silábica, e, assim, serem mais fáceis de trabalhar em busca de uma poesia com métrica idêntica àquela praticada pelos japoneses.
Não sei o porquê, também, de tanta ambição em se igualar aos mestres originários. Mas creio que não é por ambição. Acredito que é, antes, pelo desafio mesmo, pelo gosto de aventurar-se no terreno da construção poética. E agora esta: criar haicais em Guarani!!! Isto é fantástico.
Por favor, caso alguém saiba de prática semelhante, escreva-me, seria interessantíssimo trocar conhecimentos a respeito.

Bem, mas abandonando um pouco o campo das novíssimas novidades, vamos aproveitar um pouco mais a visita deste maravilhoso escritor.

O POETA PROFISSIONAL (sátira)

O poeta profissional
diz estar cansado, não quer mais saber de poesia.

Se, ao dobrar a esquina, tropeça num verso vivo e torce o pé,
diz palavrão.
Brisa leve, céu azul, é tédio de todo o dia.
Brilho em olho de menina é reflexo da luz.
Sentimento é superstição.

O poeta profissional está ocupado com a genética
das palavras, quer acasalá-las num novo poema,
joga o jogo-da-velha com as letras,
agá com dois erres, xis com cê e agá, repete certos sons,
cria aliterações.

-Tudo é matemática em teus versos, poeta. Cadê o coração?

Me ouviu e ficou roxo,
contraiu o plexo, espumou e...
regurgitou uma paranomásia
verde-abacate.

camilo.


Até a próxima Mestre...

ORIENTE-SE

















Eu ando com muita vontade de escrever sobre o genocídio que vem sendo praticado por israelenses contra palestinos nos últimos dias. Sinto-me tentado, assim como muitas outras pessoas espalhadas pelo mundo, a lançar um grito de BASTA! contra as atrocidades cometidas. Os israelenses dizem que estão usando do direito de defesa contra os ataques constantes que partem do lado palestino. No entanto, na prática, estão fazendo como uma pessoa adulta que, ao receber um chute na canela, desferido por uma criança, pega-a e passa a cortá-la com estilete ao longo de todo o corpo e, logo a seguir, despeja álcool e depois sal sobre as feridas. Tudo isso para que ela "aprenda de uma vez por todas" que não deve lhe dar chutes. Porém, também não sou burro para admitir ao agredido o "direito natural" de revidar ao seu agressor tentando ferí-lo tanto, ou mais, do que foi ferido.
O que me causa náusea, igualmente, é perceber a inoperância de entidades representativas internacionais, como a ONU (palco, aliás, onde se proclamou o direito à existência de um estado judeu, hoje Israel. Naquele tempo, os judeus precisavam dela - e dos ingleses - para atingirem seus objetivos. Hoje, eles simplesmente não reconhecem a ONU e desdenham dela - como o fazem seus atuais protetores e mantenedores, os Estados Unidos.), que não é capaz sequer de propor a formação de uma força-tarefa internacional a fim de intermediar o conflito e garantir que o extremismo, de ambos os lados, não prevaleça.
Ainda pretendo escrever um bom artigo sobre esse conflito que perdura para muito além do humanamente tolerável. No entanto, antes, preciso continuar estudando e me informando a fim de evitar falar muita besteira e fazer o papel do foguista: só colocar lenha na caldeira.
Aqueles que quiserem sugerir leituras, visitas, conversas, vídeos, músicas, por favor, estejam à vontade, serão todos bem-vindos.
Por fim, gostaria de esclarecer que não sou de ficar em cima do muro, sempre tomo uma posição a respeito de qualquer tema. Neste caso específico, sou simpatizante e apoiador da causa palestina. Entendo-a como tão justa quanto era a israelense, quando da fundação do seu Estado (e o quanto ainda é, no tocante ao seu direito de existir, continuamente ameaçado por malucos de várias estirpes que os rodeiam.). Mas não sou um extremista. Acredito na soberania e auto-determinação dos povos e é essa crença que me move na direção da intifada palestina. Pelo menos que seja assim, até que nos tornemos humanos e capazes de banir essa incompreensível divisão geo-política que instituímos com a intenção de nos separarmos, sabe-se lá sob que argumentos. Também até que consigamos banir deuses e escrituras da cultura mundial. Na região conflagrada do Oriente Médio (em outros pontos do planeta, também, é verdade), muito ódio se funda na questão do "sagrado": "Este solo é sagrado para o meu povo.", dizem uns; "Não, não é.", dizem outros, e completam: "Este solo é sagrado para o meu povo.", ao que os primeiros replicam: "Deus nos prometeu esta terra, e morreremos por ela se for preciso, malditos infiéis.", e então treplicam os segundos: "Pois nós também estamos dispostos a morrer por este solo. E infiéis são vocês, seus infiéis.". E de infiel em infiel, de goy em goy, um mar vermelho - de sangue - vai se formando.
Quando começou? Quando terminará? NÓS podemos responder a essa pergunta. Mas só se quisermos. Só se NÓS quisermos. Não Deus.

(Continua...)

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