sábado, 14 de novembro de 2009

A Sabedoria de Herbert Vianna


Pois, é, todo mundo ligado nas baboseiras do Caetano Veloso e - para a sorte de todos - outras pessoas bem mais "plugadas" na vida estão abrindo a mente, o coração e a boca para pensar, sentir e dizer coisas realmente importantes - e boas. O texto abaixo me foi enviado por e-mail, portanto não tenho como assegurar que seja realmente do Herbert. Está atribuído a ele. Espero, sinceramente, que seja. Também não tenho a mínima idéia de em que contexto este texto surgiu.
De qualquer forma, sendo ou não dele, estou publicando, pois é uma fala muito boa e sensata (e sensatez, ultimamente, tem sido um artigo raro de se encontrar), com palavras que estamos mesmo precisando ouvir (ler), sobre um assunto que estamos precisando muito pensar / debater / questionar.



FALA, HERBERT VIANNA!

(Cala a boca, Caetano Veloso!)


Cirurgia de Lipoaspiração?
Pelo amor de Deus, eu não quero usar nada nem ninguém, nem falar do que não sei, nem procurar culpados, nem acusar ou apontar pessoas, mas ninguém está percebendo que toda essa busca insana pela estética ideal é muito menos lipo-as e muito mais piração?
Uma coisa é saúde, outra é obsessão. O mundo pirou, enlouqueceu. Hoje, Deus é a auto-imagem. Religião é dieta. Fé, só na estética. Ritual é malhação.
Amor é cafona, sinceridade é careta, pudor é ridículo, sentimento é bobagem.
Gordura é pecado mortal. Ruga é contravenção. Roubar pode, envelhecer, não. Estria é caso de polícia. Celulite é falta de educação. Filho da puta bem sucedido é exemplo de sucesso.
A máxima moderna é uma só: pagando bem, que mal tem?
A sociedade consumidora, a que tem dinheiro, a que produz, não pensa em mais nada além da imagem, imagem, imagem. Imagem, estética, medidas, beleza. Nada mais importa. Não importam os sentimentos, não importa a cultura, a sabedoria, o relacionamento, a amizade, a ajuda, nada mais importa.
Não importa o outro, o coletivo. Jovens não têm mais fé, nem idealismo, nem posição política. Adultos perdem o senso em busca da juventude fabricada.
Ok, eu também quero me sentir bem, quero caber nas roupas, quero ficar legal, quero caminhar, correr, viver muito, ter uma aparência legal, mas...
Uma sociedade de adolescentes anoréxicas e bulímicas, de jovens lipoaspirados, turbinados aos vinte anos, não é natural. Não é, não pode ser. Que as pessoas discutam o assunto. Que alguém acorde. Que o mundo mude.
Que eu me acalme. Que o amor sobreviva.

"Cuide bem do seu amor, seja ele quem for."

Herbert Vianna
Cantor e Compositor

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

PARA RIR (ou não. Depende do ponto de vista)

Há alguns dias, eu estava caminhando e assobiando, de mão no bolso, por uma rua, em Porto Alegre, quando, de repente, vejo algo que quase me faz parar o coração! Cheguei a ficar meio mal, mesmo. Juro! Eu não podia acreditar no que estava vendo.

Era um out-door com a seguinte propaganda (era mais ou menos assim, não lembro exatamente. Talvez nem seja assim e eu é que esteja inventando, mas a mensagem era essa.): "Você quer e agora você pode. Conclua os seus estudos. 1º e 2º graus. EJA à distância. Aprovado pelo MEC."

O QUÊEEEEEEE!!!!! QUACK! POR TUTATIS! EJA À DISTÂNCIA! SOCORRO, SENHOR!!!

O EJA já é uma matação oficializada. Professores (alguns bem preparados e intencionados, outros nem tanto, outros nem um pouquinho) já fazem o impossível dentro daquele mínimo possível para dar, assim, "uma base" ao aluno abordando o que ele teria estudado no 1º grau, ou no 2º, se tivesse feito o ensino regular; agora, vir uma instituição privada e, com a promessa de cobrar mais barato, oferecer uma matação da matação, isso para mim é demais.

No Rio Grande do Sul, onde moro, eu já acho ridículo o EJA que é aqui praticado pelo governo estadual, onde o aluno se inscreve e recebe uma apostila com o conteúdo da matéria que ele quer "eliminar". Aí, o camarada vai pra casa e "estuda" sozinho para a prova que irá prestar - quando "se sentir preparado". Caso o "aluno" julgue que precisa tirar alguma dúvida a respeito do conteúdo, basta que ligue para o local onde efetuou a inscrição e um professor estará à disposição para atendê-lo no horário agendado. Maravilhoso, né? Matação!!! JASON ATACA!!!

É por causa desses "fenômenos educacionais" que a gente está do jeito que está. E ainda pode ficar pior, não duvidem. Querem dar uma espiadinha no resultado de tanto esforço? Acompanhem o slideshow abaixo e vejam.

PARA RIR (ou não. Vai do humor de cada um)

Rir da desgraça alheia é um negócio tão comum que chega a ser "natural". Ás vezes tu vês alguém levando um tombo ou se acidentando com algum objeto que manuseia ou carrega e o teu super-ego tenta te fazer não rir da desgaça do coitado, mas vem o id e... meta-lhe gargalhada. Não dá para segurar. Depois, meio sem jeito, a gente pede desculpas para a vítima do infortúnio, tenta contemporizar mas, até nessa hora, ainda se deixa escapar algumas risadas. E quanto mais a gente tenta ficar sério, mais, ri.

Bem, se assim é a natureza do homem, então assim é a natureza humana. Na seqüência de imagens abaixo, há várias situações em que pessoas foram flagradas momentos (milhonésimos de segundos) antes de serem vítimas de algum infortúnio. Há algumas imagens que nos deixam imaginando a aflição do coitado vendo que a vida, dali a alguns instantes, se tornará uma M* tão grande que talvez fosse melhor jamais ter nascido... pelo menos não para passar por aquilo.

Acompanhem as imagens e riam se quiserem.

sábado, 10 de outubro de 2009

Improvável

Eu gosto muito desses caras. Eles são muito bons. Divirtam-se com Os Barbixas e Marco Luke!


Poesia homosexual existe?

E lá vem o Salim Muleke, a mil pelo Brasil, querendo poetar.
Então vamos deixar ele falar.
Fala Salim!

TUA BOCA

Tua boca parecia uma gaivota
voando, alta,
em busca de alimento.

Tua boca devorava
meus pensamentos - aos poucos,
toda vez que vinham à tona...

Tua boca despudoradamente exposta e bela
pousada num rosto de barba bem feita...
Ah, mas tímido e estúpido como eu era
deixei-te fugir, gaivota perfeita.

Fôsses hoje presença
e não, saudade,
minha boca seria o peixe
que devorarias à vontade!

Mas, ah, Salim! Se revelando, rapaz? É isso aí, Muleke, bota pra ferver!

Aparência é tudo!

Pois, é. O ditado fatal, determinante, definitivo: aparência é tudo. Ele ainda é apoiado por outro, menos digno: à mulher de Cézar não basta ser honesta; tem que, também, parecer honesta.
No mundo atual, da maneira como nos organizamos e conforme as exigências que nos temos imposto, a aparência, realmente, se tornou TUDO. Tudo "parece" e nunca temos certeza se é realmente. A impressão que fica é que ser "autêntico" se tornou enfastiante. Recusamos o autêntico. Damos, mesmo, mais valor ao que aparenta autenticidade. Não sei se fomos levados a este ponto ou se aqui viemos parar por nossa própria vontade, o que sei é que aqui estamos e essa verdade (a única, creio, que não é aparência, pois é facilmente constatada) é mais sedutora do que a "verdade verdadeira".
Então, neste mundo onde tudo e todos "parecem" o que são e onde somos diariamente estimulados a nos parecermos uns com os outros, fiquei a pensar seriamente: fala a verdade, você teria investido num time como esse da foto? Você lhes daria crédito ou uma bolsa-qualquer-coisa?


O Armário

Como tem gente criativa neste mundo! Sei que na hora do aperto a gente diz coisas que nem imaginava que era capaz, tira história do improvável e ainda consegue convencer, mas este cara foi longe demais!
Assistam ao vídeo e vejam se não tenho razão.

Brasileiro reclama de quê?

Navegando por aí, encontrei este texto que julguei muito apropriado para postar aqui no Ente. É meio um "mea culpa", mas acho que retrata, de alguma forma, o porquê de estarmos na lama em que estamos e de quão distante está a solução para saírmos dessa lama.

O texto e o banner foram recolhidos do saite Uhull S.A.

"Há algum tempo atrás eu li esse post e achei muito interessante mas acabei perdendo a fonte e ontem eu passando no Bicuda na Canela reencontrei e agora decidi postar. Vale a Pena!

O brasileiro é assim…

1. – Saqueia cargas de veículos acidentados nas estradas.
2. – Estaciona nas calçadas, muitas vezes debaixo de placas proibitivas.
3. – Suborna ou tenta subornar quando é pego cometendo infração.
4. – Troca voto por qualquer coisa: areia, cimento, tijolo, dentadura.
5. – Fala no celular enquanto dirige.
6. -Trafega pela direita nos acostamentos num congestionamento.
7. – Para em filas duplas, triplas em frente às escolas.
8. – Viola a lei do silêncio.
9. – Dirige após consumir bebida alcoólica.
10. – Fura filas nos bancos, utilizando-se das mais esfarrapadas desculpas.
11. – Espalha mesas, churrasqueira nas calçadas.
12. – Pega atestados médicos sem estar doente, só para faltar ao trabalho.
13. – Faz gato de luz, de água e de tv a cabo.
14. – Registra imóveis no cartório num valor abaixo do comprado, muitas vezes irrisórios, só para pagar menos impostos.
15. – Compra recibo para abater na declaração do imposto de renda para pagar menos imposto.
16. – Muda a cor da pele para ingressar na universidade através do sistema de cotas.
17. – Quando viaja a serviço pela empresa, se o almoço custou 10 pede nota fiscal de 20.
18. – Comercializa objetos doados nessas campanhas de catástrofes.
19. – Estaciona em vagas exclusivas para deficientes.
20. – Adultera o velocímetro do carro para vendê-lo como se fosse pouco rodado.
21. – Compra produtos piratas com a plena consciência de que são piratas.
22. – Substitui o catalisador do carro por um que só tem a casca.
23. – Diminui a idade do filho para que este passe por baixo da roleta do ônibus, sem pagar passagem.
24. – Emplaca o carro fora do seu domicílio para pagar menos IPVA.
25. – Freqüenta os caça-níqueis e faz uma fezinha no jogo de bicho.
26. – Leva das empresas onde trabalha, pequenos objetos como clipes, envelopes, canetas, lápis…. como se isso não fosse roubo.
27. – Comercializa os vales-transporte e vales-refeição que recebe das empresas onde trabalha.
28. – Falsifica tudo, tudo mesmo.. só não falsifica aquilo que ainda não foi inventado…
29. – Quando volta do exterior, nunca diz a verdade quando o fiscal aduaneiro pergunta o que traz na bagagem…
30. – Quando encontra algum objeto perdido, na maioria das vezes não devolve.

E quer que os políticos sejam honestos?

Escandaliza-se com a farra das passagens aéreas?

Esses políticos que aí estão saíram do meio desse mesmo povo… ou não?

Brasileiro reclama de quê, afinal?

Ou vai dizer que você nunca fez nada dessa lista? Heim?"

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Eu escrevi isso? (A Série)

Mais uma da série "Eu Escrevi Isso?"...

PERO, VAS

Pero, vas
Apesar da chuva
Apesar do frio
Apesar dos meus apelos...
Tomas a capa
Flexionas os artelhos
E eu grito: olha a faca!...
Pero, vas...

Pero, vas
De caninha e samburá
Pelas mãos dos orixás
Pelas barbas de Alá
Pelo amor dos meus filhinhos
Não te vás
Não te vás...
Pero, vas...

Pero, vas
Indiferente
Ouvidos moucos
Inconsciente
Não vês o precipício
Que se abre à tua frente
Pára! Nem mais um passo!
Que te perdes para sempre!...
Pero, vas...

Pero, vas...
E te esborrachas docemente.

Ente Maldito

segunda-feira, 18 de maio de 2009

HORA DE PARTIR


Por Ente Maldito

Eu vejo um barco que se lança ao mar.

Eu vejo um beijo que tenta alcançar

Um outro beijo lançado ao ar


Eu vejo acenos, ouço “ais”,

Eu vejo a saudade molhando o cais.

Eu vejo olhos que perguntam

Para alguém, mar além: “por que te vais?”


Eu vejo um coração de água e sal.

Eu vejo um coração de pedra e cal.

Quem, nessa hora, voltaria atrás?

Nem você, Lírio-Perfeito...

Nem você nem ninguém mais...

sábado, 16 de maio de 2009

As Lâminas Afiadas da Dramaturgia

EXTRA! EXTRA!

Uma entrevista "afiadíssima" com Camilo de Lélis concedida ao blog Dinossauros. Não deixe de conferir e conheça o que pensa sobre teatro (e muito, muito mais) este premiadíssimo diretor gaúcho.

Confira em Dinossauros e Afins

Por Ente Maldito

A BELEZA A SERVIÇO DA SAÚDE

Este vídeo foi indicado pelo Camilo. Trata-se de uma campanha francesa de prevenção à SIDA (AIDS). É um vídeo fantástico!!! Não deixe de assistir. Clique no link abaixo para assistir.

Sidaction - Ensemble contre le SIDA

Ente Maldito



O Dramaturgo e o Poeta


Por Camilo de Lélis

impressão ao sol poente

amarelo
quero colher-te laranja
antes que vermelho
te cubras de
cinza

camilo

babuska

dentro da menina,
tem outra menina.

se uma zanga,
outra traz água
por cima.

ela é babuska,
mas só aceita ser
a boazinha...

nessa rede de sonho,
o poeta gosta d'uma,
e d'outra,
mas só ama
a terceira.

camilo,out/07

O Dramaturgo e o Poeta


Por Camilo de Lélis




shalon salomeh bailarina da judéia
deusa kali sangrenta a decepar
nossos eus individuais
desasnando os tolos
derrubando a ponte
cortando caminhos
ao grande retorno
para no ômega
vermos o alfa
amém

camilo/2009




malha moira, bate, esfola
rompe o peito, a jóia rola

(sacrifício do fogo/camilo)

Escárnio



"Cronos, cospe sobre mim teu escarro,
meus dentes morderam o lodo do chão:

Este corpo serve de apoio aos teus pés,
descascas o fruto até a amêndoa de mim.
Todo o ódio que senti contra ti, foi inócuo;
escarnece bufão, tens do Rei a permissão"

Camilo/2009.




ignes natura regeneratum integra...

(sacrificio do fogo/imolação/camilo)

sábado, 9 de maio de 2009

A História das Coisas

Um vídeo interassante e instrutivo. Mostra toda a cadeia produtiva atualmente vigente, desde a extração até o descarte, porém de uma forma crítica, analisando não apenas a sua "fluidez", mas principalmente as suas obscuridades. Aconselho.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

PAIXÃO DE CRISTO NO MORRO DA CRUZ - CINQUENTA ANOS UNINDO FÉ E INCLUSÃO CULTURAL


Camilo de Lélis
Começou assim: em 1994, o saudoso padre Ângelo Costa procurou a SMC, em busca de melhorias para a representação da Paixão de Cristo no Morro da Cruz que, desde 1960, vinha sendo realizada pela comunidade. Luciano Alabarse, na época coordenador de artes cênicas, sabendo que eu trabalhava com temas épicos e eventos populares, convidou-me para dirigir o espetáculo. Aceitei.
Depois de um conversa com Padre Ângelo, partimos para os ensaios. Primeiramente, chamamos os moradores que participavam do "teatro do morro da cruz" representando determinados papéis, depois contratamos atores profissionais para completar o elenco. Quero fazer justa homenagem a dois atores que faleceram no transcurso desses anos: Leverdógil de Freitas, que fazia o papel de Herodes e Meme Meneghetti que, por muito tempo, viveu o carismático São Pedro.
Muitos episódios pitorescos ocorreram desde então; coisas que o povo do lugar traz na lembrança. Só para citar alguns: certa vez, uma das produtoras não havia comprado, com antecedência, as pombas necessárias para uma cena e, por estar o comércio especializado fechado na sexta-feira santa - viu-se obrigada a caçar as aves, de arapuca improvisada, nas praças do centro da cidade. Esse caso foi parar no Fantástico, na rede Globo de Televisão. Em outra feita, apareceram treze apóstolos na hora da Santa Ceia, mas o público, que estava atento, denunciou o furão, que saiu do palco de fininho. E o famoso milagre que ocorreu em 2005: Jesus estava suspenso na Cruz, lá no alto do Morro, quando a produção soltou um pombo para simbolizar a presença do Espirito Santo. O pássaro branco sobrevoou o público e retornou para pousar num dos braços da cruz, depois foi caminhando, tranquilo, rumo à cabeça coroada de espinhos do ator Aldacir Oliboni, ali aninhou-se, e ficou até que o corpo fosse descido para o sepultamento. O povo aclamou o milagre em alta voz e a foto da cena foi parar nos jornais.
A encenação tem três estágios, em diferentes espaços geográficos. Começa no palco em frente à igreja São José de Murialdo, onde mostra a missão, milagres, traição e julgamentos sofridos por Jesus. Depois vem a longa caminhada seguindo a cruz, com as quedas e açoitamento, que o refrão popular enfatiza:
Pobrezinho de Jesus
em seu desgosto profundo
suportou naquela cruz
o peso de todo o mundo
Claro que é um trajeto difícil. Subida íngreme. Há pessoas pagando promessas, com os filhinhos vestidos de anjo, ou subindo descalços ou, ainda, portando suas respectivas cruzes e imagens do Menino Jesus de Praga. Vê-se, aqui e ali, o povo de Umbanda ou do Batuque, que fazem honra a Oxalá, na figura do Senhor dos Passos. Ecumenismo. Brasilidade. Os moradores, da calçada, oferecem água aos penitentes, pois é hora de uma estação muito importante: vê-se a Nossa Senhora das Dores, que no seu palco, com expressão trágica, aguarda o filho flagelado. Longa pausa. É a famosa Pietá, que o cordel aponta, em rimas pobres, porém sinceras:
Mãe Maria está chorando
ferida no coração
com sete facas cortando
aumentando sua aflição
A fé empurra lomba acima. Todos querem chegar ao destino, atores e fiéis já não se distinguem, só resta a ação de cumprir o rito sagrado. Jesus é crucificado no ponto mais alto do Morro da Cruz, depois é sepultado e, após uma breve espera, a apoteose acontece: ele ressuscita e sobe aos céus a bordo de um elevador mecânico, devidamente disfarçado em nuvem. Fogos, música alegre, aplausos:
A morte não vai matar
o filho do nosso Deus
Ele veio pra salvar
a todos os filhos seus
Milhares de pessoas agora descem o Morro com uma expressão de alegria nos rostos cansados, elas sabem que no próximo ano a Paixão vai se repetir, no eterno ciclo de Viver, Morrer e Renascer.
Este ano, a procissão faz cinquenta anos, quinze com minha participação, e sempre é uma emoção nova encenar a vida, paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, no Morro da Cruz, bairro Partenon. O Evento é realizado todos os anos, na sexta-feira santa, pela Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, numa parceria com o santuário São José de Murialdo e conta com mais de duzentos integrantes entre crianças, jovens e adultos de todas as idades, que participam, unindo-se aos profissionais de teatro, num exemplo de inclusão cultural.

Camilo de Lélis.

Veja imagens da encenação clicando aqui - Fotos de Vilmar Carvalho
Veja imagens da encenação clicando aqui - Fotos de Carmem Gamba

sexta-feira, 6 de março de 2009

O Dramaturgo e o Poeta


Por Camilo de Lélis

Narciso em Cnossos


Dois espelhos confrontam-se num aposento vazio.

Por saber deles, sei de meu duplo, que habita, solitário, em seus labirintos. Ao pressentir-me em algum espaço, intangível, se agita em sua ânsia por achar-me... Então vem de encontro à imagem que julga ser a minha e, ao espelhar-me, toma impulso e salta, tentando escapar do espelho e seu reflexo, mas só o que consegue é adentrar ainda mais profundamente no corredor que se repete e afunila através da imagem da imagem da imagem sem fim.
Contrafeito, dando as costas a si mesmo, se
afasta, desorientado, convulso, para os sem fins de sua morada especular.

Camilo/Ente Maldito


Bacante




Ess
a varinha é o Tirso, encimado pela pinha,
e que olhar dissimulado
tem essa moça de boa família.
Morder a unha do dedo mínimo,
faz o incauto tomá-la por inofensiva...
O seio branco já amamentou um filhote de pan
tera,
e, no verão passado, essas mãos lívidas
esquartejaram uma novilha.
Não te aproximes, varão!
Porque, então, as vestes alvas se tornam tintas,
e os belos dentes trincam nacos de carne crua.

camilo.


Reflexões deitado em rede indígena

O vento frio no inverno e a chuva em qualquer estação produziram
a necessidade destas paredes de belos tijolos avermelhados,
e a rede pendurada nelas mantém-me distante do chão.
Não flutuo porque a gravidade é lei circunstancial mas indiscutível,
não estou deitado sobre um conceito, pois a palavra "rede" é inócua
para o efeito de sustentar.
O que me segura é o real, fluido mais líquido impossível. O algodoeiro,
plantado outrora, está aqui, florindo suas mechas brancas ao sol
incandescente de algum verão antigo, têm mãos humanas colhendo-as, tem
tecelagem, tem tinturaria e cada uma das cores, pois a rede é
listrada, contém vejetais e minerais diversos em sua composição. Estou
vendo, tateando e cheirando essa realidade que me balança ternamente,
enquanto outro fluxo corre pelos tecidos do meu corpo em sutis
transformações e um rio de idéias acompanha o sangrar intermitente da
tinta da caneta.
Agora recordo de porque pensamos: nos beliscamos com os conceitos
para acordarmos numa consciência subjetiva, do contrário esse amálgama
de realidades nos sugaria e absorveria em suas víceras eternas, sem
orifícios de entrada e de saída. Sem perímetros para o experimento,
sem o tato que é o supremo sentido - sem sensação - seríamos essência
apenas, sem existência.
Isso é o real,assustador. Lembro-me de uma professora desenhando
círculos num quadro negro. A vida é a ação de absorver e excretar...

camilo (na rede).

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Melhor Assim?


Por Ente Maldito

Há pessoas que escrevem como se assobiassem uma canção singela, simples, fácil (extremamente fácil). Sou daqueles que se apaixonam fácil por pessoas que tem uma visão de mundo de uma humanidade tão flagrante, que se parece com um espelho que reflete a mesma imagem que outro, que lhe ladeia, porém com novos matizes. Pessoas que encontram novos caminhos, novos entendimentos, muitas vezes óbvios, mas que nós, com os olhos embaçados pela pressa cotidiana, por preguiça ou por ignorância, não conseguimos perceber.
Gosto quando alguém pega um conceito e o coloca num certo contexto de tal maneira, que aquilo que antes se avaliava por uma certa ótica - estabelecida, aprovada e aceita por todos -, ganha ares de novidade e abre novos horizontes para o que antes era apenas um ponto cinza perdido no infinito inalcançável.
Isto é o que salta aos olhos no texto que transcrevo abaixo. Foi escrito por Cínthya Verri, médica e psicoterapeuta, e publicado na página 15, do jornal Zero Hora, no dia 31/01/2009.
O que me levou a vôos por alturas inalcançáveis foi a maneira como, diante de um fato real, ela trabalhou os conceitos de luto e melancolia, o que acabou por fazer com que este texto se tornasse, praticamente, uma lição de vida, um empurrão aos que se sentem fracos demais para seguir adiante, um cutucão naqueles que estão acomodados demais no seu mundinho por puro medo das conseqüências advindas de suas possíveis transformações.
São apenas algumas impressões. Minhas, exclusivamente. O texto de Cínthya proporciona muitas mais. Leiam. É muuuiiito bom. E necessário.
Ah, não posso esquecer: Cínthya também é poeta, compositora e cronista, ou seja, nasceu para praticar a medicina!

"Melhor assim?

Recebi a notícia sobre Mariana Bridi Costa na fila do supermercado. Vazou do meu iPod. No jornal, a modelo capixaba de 20 anos teve as extremidades amputadas, estava em choque séptico e poderia morrer.

O primeiro pensamento veio de relance: agora é melhor que essa menina morra. Imaginei-me acordando no leito de hospital, debilitada, com cotos ao final dos antebraços e pernas. Modelo? Viveria de quê? Fiquei assustada com minha morbidez.

Numa cascata natural, fui serenando. Mais animada. Pensei na americana Kellie O’Farrell, que sofreu queimaduras aos dois anos no rosto e que fez campanhas pelo mundo. Lembrei-me da modelo surda-muda Brenda Costa, hoje vivendo na França, aprendendo a ouvir com seu implante coclear, e de CariDee English, a modelo que teve 70% do seu corpo coberto por psoríase na adolescência e que venceu um dos maiores concursos de beleza da televisão. Eu, que naquele momento inaugurei Mariana em mim, antes de me despedir, transitei pelo luto.

No luto, podemos até ter dúvidas, mas no fundo sabemos que a dor vai passar. Ficamos desanimados, pesados, a vontade de fazer qualquer atividade fica abafada, é quando nos distanciamos do amor. Mas luto não é uma doença: a confiança existe e seguiremos adiante assim que for possível.

Se Mariana acordasse, talvez não fizesse um luto. Talvez tivesse melancolia. A diferença entre eles é que adoecemos quando sacrificamos a confiança. Sofrer uma perda com melancolia é não perder. Experimentamos a ilusão de que o tempo não se despede. A melancolia reprisa: Mariana perderia as mãos e os pés todos os dias. Não encontramos maneiras de avançar. Não acreditamos num porvir, numa sequência. Quando estamos melancólicos, não existimos sem o que perdemos. Somos a parte perdida e não o que resta.

Se Mariana acordasse, poderia viver além da perda. Sonhei que faria catálogos de botas e luvas, calçaria órteses magníficas, perduraria longamente, alcançaria a biocibernética no futuro.

Mas Mariana veio a falecer. O que me entristeceu é que o meu primeiro pensamento, absolutamente normal, foi o último pensamento da maioria das pessoas que acompanhou o caso. Escutei de muitos amigos: melhor assim. Vejo o quanto tendemos a fraquejar. Preferimos esnobar a vida a fazer com que aconteça diferente do que imaginamos.

Morrer não é uma injustiça. Muito menos um alívio."

Cinthya Verri

Não deixe de visitar os Blogs da Cínthya. Procure e clique nos links que disponibilizo na coluna da direita, na retranca VISITE TAMBÉM...

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O Ensino e as Mentes Embotadas II


Por Ente Maldito

Na postagem anterior esqueci de acrescentar algumas considerações que julgo importantes, então o faço agora.
A secretária Mariza Abreu (a boca pra dizer besteira), ao insistir em adotar o método da empresa privada na manutenção do emprego dos professores estaduais, esquece-se (talvez propositadamente) de mencionar que um empregado de escola particular, ao ser demitido, fará jus à indenização, a férias proporcionais, a décimo-terceiro proporcional, às horas-extras, ao aviso-prévio e fundo de garantia. Já o empregado público tem direito aos dias trabalhados no mês em que se der a demissão e ao décimo-terceiro proporcional, ou seja, é mandado embora com uma mão na frente e outra atrás. Imagine-se um professor com vinte anos de carreira, na rua, sem direito a nada! Vinte anos não são vinte dias! Se uma pessoa, com vinte anos de serviços prestados a uma empresa particular, vier a ser demitida, com o dinheiro que receberá adquirirá a casa própria, um carro e ainda sobrará bastante para se manter por algum tempo. Já o funcionário público...
Então, se se admite a possibilidade de demitir um funcionário público, penso que se deveria estender a este os "privilégios" dos funcionários da empresa privada, não acham?
Outro detalhe: os empregados de escola particular têm um foro ao qual recorrer no caso de divergências com seu ex-patrão: a justiça do trabalho. Já o funcionário público não tem mediador. Ele deve recorrer ao próprio ex-patrão. Sacanagem, não é, não? Aí, se o ex-patrão disser: "fica mantida a demissão.", o próximo (e único) passo é procurar a justiça comum, sabe por quê? Por que funcionário público não tem direitos trabalhistas! Só direitos civis!
Tu nunca vais ouvir falar de um funcionário público requerendo o pagamento de suas horas-extras na justiça do trabalho. Só no tribunal de justiça. E, caso ganhe a causa, sabe como é que ele vai ser pago? Com carta precatória... Ééééé, meu amigo, com carta precatória, ou seja, com um papel onde vem escrito que o governo reconhece que tem uma dívida com esse trabalhador e pagará quando puder (quiser).
Assim, secretária, fica muito fácil, não acha? A pessoa batalha para ser aprovada num concurso público, concorrendo com outros 1.000 por vaga; depois se sujeita a trabalhar num ambiente insalubre, por um salário miserável, para uma população que tem mínimos traços de civilidade; e então, ao fim de quinze anos, um pai (ou uma mãe) vai à diretora da escola e faz uma reclamação contra aquele professor; é aberto, então, um inquérito administrativo e, dependendo de muuuiiitas coisas (precisamos considerar, também, neste escopo, que o "comportamento político" do funcionário certamente será levado em conta na hora de beneficiá-lo ou sacaneá-lo), ao fim, se poderá concluir que este professor não está mais apto a trabalhar na escola pública e então é demitido. E aí? Quem arca com esse problema social? "Eu não", apressa-se em dizer a dona Mariza. Pois, é. É isso aí: "Eu não". E "eu não" dirão todos, e esses mesmos "todos" continuarão a abrir a boca para reclamar da falta de professores e dizer que aqueles que se acham mal pagos, "que vão procurar outro emprego". Se isso viesse realmente a acontecer, o que essa gente burra não vê é que seus filhos (e os filhos dos outros) não teriam professores dispostos a ensiná-los e que a única forma de fazer essa gente retornar para a sala de aula, seria oferecer-lhes melhores salários e melhores condições de trabalho. Então, por que não fazer isso agora, já, ao invés de ficar massacrando uma classe inteira de trabalhadores? Não foi essa mesma secretária que defendeu a senhôra governadôra quando esta reclamou aumento salarial para si e para o seu secretariado sob o argumento de que melhores salários atraem os melhores profissionais? Não foi essa mesma secretária que disse que tal argumento era óbvio e justo, e que, tanto a senhôra governadôra quanto seus confiados, mereciam realmente um salário a altura da importância da função que desempenham? E qual a importância da função desempenhada por um professor? A secretária, a senhôra governadôra e os outros secretários se retirarão do nosso convívio logo, logo, e serão águas passadas, já os professores, não. Eles permanecem nas nossas vidas, mesmo depois de dela terem se retirado. Segundo a minha ótica de valorização das funções desempenhadas pelos agentes públicos, os professores vêm antes da senhôra governadôra, dos seus secretários e dos parlamentares que a apóiam ou se opõem a ela. Mas esta é a minha visão. Não sou dono da verdade e não vivo em terra de cegos, portanto não sou rei.
Indo além: o que essa gente ignorante não percebe, é que o professor é um profissional; um profissional que gosta de sua profissão, como o administrador gosta de administrar, o engenheiro de projetar e construir, o jogador de futebol de jogar bola (todos estes, aliás, formados por professores) e que tem o direito de exigir respeito e valorização ao trabalho que desempenha, pelo investimento digno na sua pessoa, por aquele que o contrata. Ou, me diga: tu lutas para te formares em direito, passar na prova da OAB e, mais tarde, por não concordar com o salário que lhe será pago num órgão público qualquer para cujo cargo tenha concorrido, decide que vai vender cachorro-quente na frente da igreja. Isso é valorização pessoal? "Eu não me vendo por qualquer trocado.". Bah!... Papo furado! Toda a pessoa quer atuar na área com a qual mais se identifica, pois trabalho também é realização pessoal e não apenas punição infinita pelo pecado original cometido pelo patricarca da raça humana e trabalho não se presta apenas para ganhar dinheiro, mas também reconhecimento, dignidade, satisfação.
Não há sociedade que consiga atingir um mínimo de civilidade sem o ensino. E reparem que digo "ensino" e não "educação", pois distingo um termo do outro, já que, no meu entendimento, educação é dada em casa, na família, na rua, no bairro; escola é lugar de aprendizagem, de apreensão da cultura; professora não é mãe, e professor não é pai, ambos são mestres e como tais devem ser referidos.
Então, secretária estadual de educação (pfffff...), pense bem nos seus argumentos, pese-os nanometricamente, e veja se o que a senhora pretende não é o avesso do que a sociedade precisa.

E tenho dito.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

O Ensino e as mentes embotadas


Por Ente Maldito

E aqui estamos, mais uma vez, a falar do ensino. Desta vez voltados à realidade do Estado do Rio Grande do Sul, que é onde vivo.
Recentemente a nossa esforçada e vocacionada secretária estadual de educação, Mariza Abreu ("a boca para dizer bobagem"), em entrevista à rádio gaúcha, de Porto Alegre, voltou a afirmar que enviará, ainda no primeiro semestre de 2009, um projeto para ser votado na Assembléia Legislativa do RS, que trata, entre outros assuntos, da regulamentação da possibilidade de demitir professores por mal desempenho em suas atividades (esta previsão consta de Emenda Constitucional recentemente aprovada, atingindo a todos os funcionários públicos).
A fim de justificar tal ação, a secretária citou o que ocorre na iniciativa privada, onde trabalhadores que não atingem determinadas metas propostas pela instituição, ou são alvo de constantes reclamações de alunos, pais ou colegas, são livremente demitidos. Ou, então, em situações em que a instituição precisa ajustar seus gastos à receita, é realizada uma redução no número de trabalhadores, mantendo-se o mínimo indispensável para não parar as atividades.
A secretária salientou que, atualmente, apesar da previsão constitucional, para que se consiga demitir um funcionário público é necessário um rito longo e demorado, que envolve a abertura de inquérito administrativo e a ampla defesa ao funcionário que se pretende demitir.
A secretária quer agilidade, quer respostas positivas, em última análise, quer "a espada em suas mãos". Ficou impressionada com o baixo desempenho dos alunos nos últimos testes nacionais de avaliação do aprendizado. E, claro, jogou tudo nas costas largas dos professores.
O que a secretária não disse é que, na escola privada, os professores recebem material e local adequados para desempenhar suas funções, a disciplina dentro da escola é bastante exigida e os pais não têm ingerência direta sobre os professores, como na escola pública, onde chegam, mesmo, à temeridade de ameaçá-los de morte.
A secretária também não disse que a freguesia de um e outro, público e privado, é completamente diferente, pois os alunos da escola privada não vão para o colégio na esperança de comer alguma coisa, de ter a oportunidade de ter contato com um computador ou no acalanto de poder sair de casa um pouco e ficar longe de algum familiar disturbiado ou de uma família conturbada. Também, enquanto o um não tem problemas com o material escolar, outro, muitas vezes, não tem sequer um caderno e um lápis, ou seja, o básico para praticar seus estudos.
A secretária, obviamente, não comentou nada a respeito de que, muitas e muitas vezes, o material que é usado em sala de aula, que deveria ser fornecido pelo Estado, é adquirido pelo próprio professor. Até mesmo uma simples cópia eletrostática (xerox, no dito popular) vira um recurso quase inalcançável na escola pública. Papel higiênico nos banheiros? Giz? Encontros com escritores, oficinas de teatro, dança, música, línguas estrangeiras, reforço em matérias especiíficas, monitores para acompanhar os alunos durante os intervalos? Mas que absurdo! Esses "professorezinhos" estão querendo demais. Sabe o que eles irão receber? Nada.
Os professores são "jogados" em salas de aula onde 40, ou mais, alunos os aguardam, preocupados com a barriga vazia, com mães que estão viciadas em craque, com pais que não param de beber, com tios que os vem assediando, com a ganguezinha da outra rua que os quer massacrar, com a secretária de educação que não tá nem aí para ninguém a não ser com o seu status e com o "bom nome" que julga ter e pelo qual quer zelar a qualquer custo, desde que não seja o seu custo.
E a secretária quer resultados. Pensa que, tendo nas mãos mais um poder "dissuador", dará um "jeito" no ensino público estadual.
Então que tal trazer para dentro das escolas, também, o Ministério Público, o Judiciário, a Secretaria de Cultura, A Secretaria da Saúde, a Secretaria do Trabalho e Ação Social, a Secretaria de Obras, a Secretaria de Educação?
A secretária é mulher de planilhas, a secretária consulta linhas e quer ver números em azul nas colunas.
Porém, eu não sou do ramo. Isso, é claro, não me impede de ter opinião. Minhas opiniões baseio-as no que ouço de professores que conheço e em boas leituras que ocasionalmente me caem às mãos, como este artigo que indico aos freqüentadores deste Blog. Ele foi publicado no jornal Zero Hora (eu sei, eu sei, é difícil confiar em algo ali publicado, mas garanto que este vale a pena) e foi escrito pela Professora de História, Renata Ferreira Rios. Se alguém souber como, por favor, indique-o à secretária de educação e a seus "pares" na Assembléia. Quem sabe, alguma mente obtusa se ilumine e disponha-se a evitar que "A Patrola" arrase de vez com o pouco de boa vontade que ainda resta, por parte de nossos mestres, para continuar exercendo essa digna e honrada atividade que é ensinar pessoas.

Clique no título do artigo pra lê-lo: A ESCOLA PÚBLICA É A GENI

Mudanças...


Por Ente Maldito

Pois é, resolvi dar uma mudadinha em algumas cores do Blog. De repente, o fundo escuro começou a ficar pesado demais, difícil de sustentar. E o conteúdo deste saite não é tão pesado assim, nem tão trágico. Apesar do nome...
Espero que tenha ficado ao gosto do freguês. Resolvi colocar um contador de visitas, também. Isso me dá um retorno quanto ao acesso e interfere na motivação para continuar escrevendo ou para parar de vez. Enfim, como já disse alguém: "Não estamos sós.", quero ver se isso realmente é verdade.

MOTIVOS

Não é à toa
Que meus olhos dançam
Quando te vêem,
E tropeçam um no outro
Para te acompanharem:
Tens a formosura dos cisnes
Em lago de água cristalina,
E tua voz é como o canto
Do rouxinol pela colina.

Não é à toa
Que meus olhos sorriem
Quando te olham.
E saboreiam a doçura
Dos teus movimentos:
Tens a graça das princesas
Em bailes de casamento,
E a determinação do arqueiro
De encetar o seu intento.

Não é à toa
Que meus olhos choram
Quando te perdem,
E aninham-se quietos
Sob as pálpebras:
Deixas saudades espalhadas
Pelo centro, pelos cantos.
Deixas a vida suspensa,
Presa ao teu retorno.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

FAST SCHOOL - This is the way!!!


Por Ente Maldito

A cada dia que passa assistimos à deterioração do nosso sistema de ensino. Mais e mais oportunistas, "tubarões" capitalistas, se infiltram no disputado "comércio" de escolas, cursos para jovens e adultos, cursos de graduação e pós-graduação, et cetera.
O ensino virou mercadoria que dá lucro. Parte-se de um conceito simples: o salário na iniciativa privada é cada vez menor, e as necessidades de consumo aumentam cada vez mais, portanto, mais e mais pessoas tornam-se disponíveis, dispostas a sacrificar mais um tempo de sua vida com a honrosa ocupação de ganhar dinheiro. O cidadão trabalha o dia todo como administrador numa empresa qualquer e, à noite, para complementar o minguado salário que lá recebe, atua como professor. E, já que o segundo emprego é uma complementação (um bico), nem se preocupa em exigir um salário condizente com o que seria pago a alguém que atua profissionalmente na área. Desta maneira, o afortunado empresário do ensino consegue um trabalhador mal pago e que não reclama, antes, dá-se por muito satisfeito por ter "conseguido essa boquinha".
De outra parte, trabalhadores especialiazados em ensino vêem-se à mercê de uma concorrência desleal que lhes tolhe as vagas de emprego e o salário, que se torna irrisório. Aqueles que conseguem, tal qual os primeiros, um emprego, muitas vezes têm de trabalhar em vários turnos, em vários centros de ensino, a fim de conseguirem, ao final do mês, um ganho condizente com a dignidade de um ser humano que se preparou por muito tempo para exercer a carreira do magistério.
Este o drama humano dos profissionais que atuam na área do ensino. Mas há outro drama, tão importante quanto o anterior, que diz respeito ao tempo necessário para que um aluno seja certificado como formado em determinado nível escolar. O período de permanência numa instituição de ensino é cada vez menor. Em seis meses uma pessoa conclui(?) o segundo grau. Em um ano, concluem-se(?) os (agora) nove anos do primeiro. Em dois anos, forma-se um administrador, um contador, um técnico da informação. É RIDÍCULO!!!
Tudo isso em função de abastecer "o mercado" com pessoas "tituladas", o que confere às empresas a possibilidade de obter junto a órgãos internacionais de avaliação, certificados disputadíssimos que abrem as portas a novos mercados e maior lucratividade. As certificações empresariais da série ISO são as mais cobiçadas. E um dos ítens levados em conta para se ter acesso a essa certificação é... (tcham tcham tcham tchaaammmm): o nível de escolaridade dos funcionários da empresa que se candidata a obter um certificado dessa série. Quanto mais rápido uma empresa puder suprir seus quadros de funcionários com níveis de escolaridade mais elevados, melhor. O mercado tem pressa. O dinheiro circula rápido. Vai de um lugar a outro em segundos. Nas bolsas de valores, megaespeculadores quebram uma empresa na Bulgária e levantam uma no Brasil num apertar de tecla. Ninguém tem tempo a perder com preparação adequada. Não se precisa de seres humanos formados, precisa-se de peças de reposição. E tudo cada vez mais rápido. O mercado não pára de girar e "avançar" (para onde, ninguém sabe, ninguém diz).
E o que dizer de um governo (um, não, vários, pois este processo vem de muito tempo) que apóia essa prática escandalosa. Daqui há trinta anos estaremos importando estagiários de segundo grau de outros países, pois os nossos não terão competência sequer para redigir uma carta. Se o déficit de mão de obra especializada no Brasil, atualmente, é enorme, aguardem, pois ainda vai aumentar. O "canudo" fácil tem seu preço. Não para aquele que o conquistou, mas para os outros que serão diretamente atingidos pelo mal preparo deste.
Sobre isso, há uma instituição de ensino superior de São Paulo (Faculdade Cantareira) que vem fazendo uma campanha publicitária bem humorada a cerca desse tema. A campanha foi criada, produzida e encenada por uma companhia de humor chamada Cia. Barbixa's de Humor. Achei que viria bem a calhar exibir alguns vídeos dessa campanha, aqui, no Ente Maldito. É um assunto palpitante. E, já que não o temos levado à sério mesmo, vamos rir um pouco. Será bom rir - enquanto pudermos.









sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Eu Escrevi Isso? (A série)


Por Ente Maldito

A saga continua. Desta vez a bobagem vem na forma de um diálogo completamente nonsense. Credo! Eu custo a acreditar que tenha escrito esse negócio!...

O TETO (ou A importância das Referências)

Na igreja lotada de convidados, o padre ultima a benção a fim de consagrar mais um feliz matrimônio. Os noivos, ajoelhados à sua frente, já não contém a felicidade e mal conseguem disfarçar a expectativa. Querem que a cerimônia termine logo. O padre, então, profere as palavras rituais:
[Padre] Se houver alguém, neste recinto, que saiba de algo que possa impedir este casamento, que fale agora ou cale-se para sempre.
[Homem 1] Eu padre!
[Padre para Homem 1] O senhor o quê?
[Homem 1 para Padre] Eu sou contra este casamento!
[Padre para Homem 1] Mas... Mas... Por quê?
[Homem 1 para Padre] Este casamento não pode se realizar porque... porque... eles são irmãos!!!
[Convidados] Ohhhhhhh
[Padre] (entre dentes) Puta que o pariu!
[Padre para Homem 1] Você tem alguma prova do que diz?
[Homem 1 para Padre] Tenho! Eis as certidões de nascimento originais de ambos. Eles são irmãos!
[Convidados] Ohhhhhhh
[Padre para Todos] Mas... mas... eu não posso suspender este casamento. Eles até já pagaram! E olha que foi um bom dinheirinho para nossa querida santa madre igreja...
[Homem 1 para Padre] Se o senhor levar adiante esta cerimônia, estará cometendo um grave erro. Estará cometendo pecado!
[Convidados] Ohhhhhhh
[Homem 2] Pois eu digo que este casamento pode e deve continuar!
[Padre para Homem 2] E quem é você?
[Homem 2 para Padre, depois para Todos] Eu sou o verdadeiro pai da noiva, e posso assegurar que ela nunca teve irmãos!
[Convidados] Ohhhhhhh
[Homem 3 para Todos] Não! Não é verdade! O verdadeiro pai da noiva está morto!
[Padre para Noiva] O seu pai está morto?
[Noiva para Ninguém e para Todos] Eu não sei! Eu não sei! Eu não sei mais no que acreditar! Ó, meu Deus!
[Padre para Homem 3] Então, quem é o senhor? Se bem me lembro, foi o senhor que acompanhou a moça até o altar, se apresentando como se fosse o pai dela. Como pode dizer que o senhor está morto se o senhor está aqui, na presença de todos?
[Homem 3 para Padre] Na verdade, eu era somente o jardineiro que cuidava da praça próxima à casa onde ela morava. Um certo dia, o pai dela resolveu ir embora e pediu que eu ficasse no seu lugar. Como eu o considerava muito, concordei. A menina já era órfã de mãe!...
[Mulher 1 para Homem 3] Como assim “órfã de mãe”?!
[Noiva para o Homem 3] Pai! Você... então... não é meu pai?
[Homem 3 para Noiva] Não.
[Noivo para Homem 3] Você não é o meu sogro?
[Homem 3 para Noivo] Não. Eu sou seu tio, mas somente por parte de mãe.
[Convidados] Ohhhhhhh
[Noivo para Homem 3] Como assim?!
[Homem 3 para Noivo] A sua mãe teve um caso com meu irmão antes de seus pais se mudarem para cá, e desse romance fortuito... bem, o resto você pode deduzir por si mesmo.
[Noivo] NÃO!!!!!
[Padre] (entre dentes) Ihhh, esse negócio tá ficando enrolado...
[Homem 4 para Todos] Talvez sejam!
[Homem 1 para Homem 4] Quem é o senhor?
[Homem 4 para Homem 1] Sou um primo distante, que ele nunca conheceu.
[Homem 2 para Homem 4] Por que você diz “talvez sejam”?
[Homem 4 para Homem 2, depois para Padre, depois para Noivo e Noiva] Porque o pai dele era amigo do meu pai, e os dois tinham um caso secreto com a verdadeira mãe dela.
[Padre] Mas quem é a mãe dela afinal?!
[Mulher 1] Eu sou a mãe!
[Convidados] Ohhhhhhh
[Homem 5 para Mulher 1] Não é possível! Eu nunca tive filhos com você!
[Padre para Homem 5] Quem é você?
[Homem 5 para Padre] Eu sou o pai dela. O verdadeiro.
[Convidados] Ohhhhhhh
[Padre para Todos] Mais um?
[Mulher 1 para Homem 5] Ora, é claro que não tivemos filhos! Eu sequer o conheço! Mas ela é minha filha, sim!
[Mulher 2 para Mulher 1] Não! A sua filha sou eu!
[Mulher 1 para Mulher 2] Quem é você?
[Mulher 2 para Mulher 1, depois para Noiva] Eu sou a irmã da noiva, mas apenas por parte de tio.
[Convidados] Ohhhhhhh
[Homem 3 para Mulher 2] Como é que pode isso?
[Mulher 2 para Homem 3] Eu sou a filha perdida dele (aponta para Homem 2). Ele teve um caso com a mãe dela, que engravidou e me abandonou num orfanato.
[Mulher 1 para Todos] Eu tive um caso com esse daí? Tá louca, menina?
[Mulher 2 para Mulher 1, depois para Noiva] Não, eu não estou louca. Eu quase enlouqueci, mas consegui me segurar. Venha cá, minha irmã, me dê um abraço! Ó, meu Deus!...
[Convidados] Ohhhhhhh
[Noiva para Todos, depois para Noivo] Eu... eu... eu também tenho algo a dizer. Eu não sou eu. Eu fingi ser quem estou sendo. A sua verdadeira noiva é outra. Eu tomei o lugar dela porque...
[Mulher 3 para Noiva] NÃO SE ATREVA! CALE-SE! Se você disser mais uma palavra, juro que este casamento se transformará num funeral!
[Padre para Mulher 3] Mas... quem é você, minha filha?
[Mulher 3 para Padre] Eu sou prima dela e... irmã dele! (aponta para Homem 4)
[Homem 4] NÃÃÃÃOOOO! Você devia estar morta! Minha mãe jurou que a tinha matado!!!
[Convidados] Ohhhhhhh
[Noivo para Padre] Padre... Padre... Por favor... me ajude... o que está acontecendo? Ninguém é ninguém, e todos são todos... Padre... Por favor... Padre...
[Padre para Todos] IRMÃOS! PAREM! Parem todos com essas blasfêmias! Não se esqueçam que estamos na casa do Senhor!
(Nisso, desaba o teto)
[Todos] Ohhhhhhh

(Fecha o pano rápido)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Às trincas!


Por: Ente Maldito

Publico uma trinca recentemente composta. É meio dolorida e despeitada. Mas, enfim...


Ah, eu não sei do que tu tá falando...
Te falo coisas e não entendes.
Sonho um amor que não pretendes.
Dou os starts e dás os ends.

Ente Maldito

O Dramaturgo e o poeta - e o felino Valentino


Por: Camilo de Lélis

hai-kai

luvas de veludo
flagelo dos passarinhos
gato valentino

camilo

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A Vida na Memória


Por: Ente Maldito

Esta é uma animação de extrema sensibilidade e beleza. Chama-se "The Piano" (O Piano) e é criação de Aidan Gibbons, tendo sido indicada para o prêmio de "Melhor Animação", no "Festival Bradford de Animação", em 2005 (as informações sobre a animação foram retiradas do saite Smelly Cat, de Carlos Merigo e Bruna Calheiros).
Um homem velho toca ao piano a música "Comptine D'Un Autre Été- L'Après Midi", de Yann Tiersen, que faz parte da trilha sonora composta para o filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” (Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain, França, 2001 - baixe o disco aqui). Enquanto toca, ela o conduz a uma viagem ao passado, tranzendo-lhe lembranças que lhe "aparecem" e vem compartilhar a vida com ele. O amor, a dor, a surpresa, a alegria, a perda, a saudade, a renovação, a esperança, tudo se mistura nestes poucos minutos da vida presente.
Este vídeo me levou a uma reflexão. A vida passada é irrecuperável. Podemos apenas lembrá-la, senti-la de alguma maneira, mas não podemos mais gozá-la, não podemos mais interferir sobre ela, não podemos mais vivê-la. Nunca mais. A vida passada, passou.
E você? Vai lembrar de quê? E quem vai lembrar de você? Assistam ao vídeo. Espero que gostem.

"The Piano" - Aidan Gibbons

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Eu Escrevi Isso? (A Série)


Por: Ente Maldito

Mais uma da série de escritos inacreditáveis. Cada vez me convenço mais de que, quando a cabeça estiver vazia, o melhor é manter afastados o papel e a caneta. Não sei como posso pensar tanta bobagem. E o que é pior: passar isso para o papel!
Bem, mas vamos lá. Fazer o quê? Só, por favor, não se esqueçam de tomar uma caneca de Plasil antes da leitura.

Você pensa que dor
incomoda mais que coceira?
Eu tinha uma dor no pé
e uma coceira no pau.
A dor no pé, com o tempo, curei.
A coceira no pau, só aumentou.
Tanto que, numa bela manhã, incomodado,
sem pena, nem dó, o cortei!

Agora, quando está para chover,
fica fácil de adivinhar,
pois a cicatriz começa a doer
e o pé... principia a coçar.
Mas antes que vá você
achar que o pé eu pretenda extirpar,
apresso-me a esclarecer:
ainda o prefiro aqui,
aonde eu o possa alcançar,
do que fazer como eu fiz
com o outro, desgraçado,
que me dói só de lembrar.

(26/04/2007)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Declaração de Amor (I)


Por: Ente Maldito

Declaração de Amor (I)

Sempre quando acordo, a primeira coisa que sinto é a falta de ti.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Recém chegado da praia


Por: Ente Maldito

Recém chegado da praia, com as dores, ainda, do sol na pele, escrevi isto:

ISTO

Olho, ao longe, o deslocamento das nuvens
Tentando perceber a direção dos ventos.
São eles os fortes braços que empurram
Para o continente, as naves, ou para o mar a dentro.

(Sonho que sinto em meu rosto,
Como corcéis dispersos das tormentas de agosto,
Ah, os tão benfazejos ventos favoráveis!
Deus, como é louca a minha vontade!
Que, cega, enxerga no que as ondas trazem,
Os sinais de tua vinda e nem percebe
Que ao mar sequer te lançaste.)

Brilham meus olhos na noite deserta,
Acompanhando as luzes que da praia passam ao longe.
Vibram meus olhos e não vêem que a destra
Se agarra à sinistra protegendo o que resta de um sonho disforme...

A nau não virá. É hora de apagar as tochas.
Sem vento, jogado, deixo o puído estandarte.
Teus pés firmes te mantém a salvo do mar...
E de amar... o amor que juras, destarte...

O Dramaturgo, o Poeta e a Delicadeza



esse sou eu, essa é tatá uma menina adorável, o mundo é mais dela do que meu, esse é um poeminho (infantil?), que critica as opiniões do achômetro coletivo, precisamos de mais precisão, para agir sobre a realidade e melhorá-la...

co-achar

água passada não movimenta o moinho
sem acrescentar lenha o fogo se apaga
na beira do rio, o sapinho coaxa: eu eu
eu eu eu-responde em coro a sapaiada

ass:(eu)

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Obrigado, Mestre.

Ass.: E.M.
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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Manifesto Literário - A Trinca


Por: Ente Maldito

Versão definitiva do Manifesto Literário de lançamento do gênero poético denominado TRINCA.


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Não sei se estou propondo algo novo ou discorrendo a respeito de algo já existente e que, no entanto, ainda não havia sido percebido e analisado por mim. Entretanto, considero importante este Manifesto que ora apresento a todos com a finalidade de contribuir para esta tarefa mágica que é escrever poesia. Criar novos recursos, propor novas ferramentas aos escritores é sempre uma atitude, creio, que deve ser reconhecida e apoiada, afinal, temos objetivos comuns: melhorar a comunicação escritor-leitor, aprimorar os mecanismos de expressão individual e transformar o mundo com escritos que transformem aqueles que com eles tiverem contato.
Mas chega de conversa e mãos à obra.

OS DIFERENTES MOTIVOS DE QUEM PROCURA
Corações e mentes voam seus vôos loucos:
Aqueles, em busca de amor,
Estas, por quem lhes ouça um pouco.”
A TRINCA

A Trinca surge como um estilo poético que se apresenta na forma de um texto organizado em três versos, encabeçados por um título. A rigor, a Trinca não se atém a qualquer regra de composição, nem com relação à métrica, nem à rima; no entanto, com relação a esta última, receberá as seguintes classificações, quanto à dificuldade de composição: a) Trinca do príncipe - é aquela onde todos os versos rimam entre si; b) Trinca rica (ou casada) - é aquela onde o primeiro verso rima com o segundo e o terceiro é livre, ou o segundo rima com o terceiro e o primeiro é livre; c) Trinca pobre - é aquela onde o primeiro verso rima com o terceiro e o segundo é livre; d) Trinca natural - quando não há a presença da rima entre os versos. Há, ainda, uma forma especial de rima, que será doravante classificada como "Trinca imperial", que se dará quando o título rimar com o segundo verso e o primeiro verso rimar com o terceiro, como no caso da Trinca pobre.
Quanto ao título, é imprescindível sua presença, tendo em vista o caráter eminentemente narrativo da Trinca. É ele que informa ao leitor o tema, ou assunto, que será abordado pelo poeta nos versos que seguem. Aqui, o título não prejudica a liberdade do escritor, antes oferece a ele um fio condutor, uma linha mestra, que irá orientá-lo até o objetivo que pretende atingir.
O nome TRINCA foi adotado apoiando-se nas seguintes razões: por fazer referência a uma poesia curta, constituída de três versos; pelo caráter próprio deste tipo de poesia que, assim como os textos dissertativos, estrutura-se na tríade introdução-desenvolvimento-conclusão; finalmente, em alusão ao jogo de cartas com este nome, por "jogar", internamente, com os elementos da realidade, “embaralhando” e “reorganizando” imagens, remetendo a um nível de expressão e interpretação mais amplo do que aquele objetivamente tratado no texto poético.

SABEDORIA AO CAMINHAR
O bom sábio sabe escolher o caminho:
Quando se sai a passear com balões,
Não se vai por onde há espinhos.”

Seguindo adiante, observamos que, afora a aparente ligação que mantém com o haicai que é praticado modernamente no Brasil, a Trinca não tem com este qualquer outro ponto em comum, senão o fato de ser estruturada em três versos e trazer em seu bojo uma idéia completa. Esta questão da idéia completa diz respeito ao fato de que a Trinca não admite, em hipótese alguma, um quarto verso. O autor deve esgotar sua argumentação nos três versos que constituem o poema de forma que ao leitor não reste a impressão de que “faltou dizer alguma coisa”; por este motivo, a Trinca traz consigo, também, uma certa similitude com o aforismo, ou com a parábola, já que pretende, com um discurso definitivo, remeter a uma realidade para além daquela presente em sua narrativa/descrição.
Apesar da relativa liberdade que goza quanto à forma, traz em suas características intrínsecas um rigor que deve ser observado, a fim de que se possa avaliá-la como um estilo de manifestação artística com identidade própria que a distinguirá das outras, mesmo daquelas pertencentes ao universo do qual participa, ou seja, da poesia escrita na forma de tercetos.

OUVIR-SE
Há ventos que apenas dão voltas.
Outros os há, violentos, que tudo derrubam.
Quando falas, que vento tu sopras?”

Uma poesia em forma de terceto, então, para ser classificada como sendo uma Trinca, deve apresentar as seguintes características:
1) Antropocentrismo: sua temática é o ser humano: suas ações e reações, os objetos cuja origem pode ser determinada como devida à interferência humana ou, em outras palavras, que tragam marcados em si as mãos do Homem. Não são próprias da Trinca as temáticas relacionadas à natureza (como se dá no haicai, por exemplo, a não ser que se esteja falando da influência do ser humano sobre o ambiente ou do aproveitamento, por aquele, dos seus recursos), às questões espiritualistas, à religião, às crenças, à filosofia transcendental e outros temas ligados à elevação do espírito. Por isso, podemos dizer que a Trinca é predominantemente mundana, no sentido de que trata apenas de acontecimentos do mundo racional, aquele que pode ser apreendido pelo raciocínio e por este explicado.

O SENHOR DA GUERRA VAI AO ORIENTE
De madrugada, rufam os canhões!
E explodem centenas de pessoas
Como se explodissem apenas balões.”

2) Reflexividade: ou seja, leva o leitor a pensar, a fazer uma auto-crítica ou uma crítica sobre a realidade da qual participa. As temáticas que podem servir à Trinca são inumeráveis; assim, o poeta poderá refletir sobre os relacionamentos humanos, sobre a modernidade, sobre as cidades, sobre fobias, medos, loucura, amor, desamor, meios de transporte, poluição do ambiente, mentira, sinceridade et cetera, e levar tais reflexões ou impressões para o leitor, para que este construa as suas próprias. A Trinca tem como objetivo maior sensibilizar o ser humano (leitor), fornecendo-lhe subsídios para que assuma posturas menos destrutivas para si mesmo, para com seus semelhantes e para com o planeta que habita. No entanto, atenção!: a Trinca não é um estilo poético que se preste como veiculador de idéias de auto-ajuda, pois nela não deve estar contida qualquer intenção de convencimento em torno de verdades inquestionáveis. A Trinca, ao contrário, precisa ser instigadora, questionadora, semeadora de interrogações.

AS CRIANÇAS DE HOJE NÃO TÊM INFÂNCIA
No meio da rua, um menino, sentado,
Brincando com um balão.
E com o sorriso todo molhado.”

A fim de concluir esta breve introdução ao pré-conceito de Trinca, esquematicamente recuperamos o que foi dito até aqui: para que para se perceba se uma construção poética, estruturada em três versos, encabeçada por um título, é, segundo as bases propostas acima, realmente uma Trinca, deve-se atentar para a presença de uma característica indispensável: o poema deve passar ao leitor a sensação de completude, isto é, o leitor tem que “sentir” que estão presentes, no texto, a introdução, o desenvolvimento e a conclusão. A Trinca é um tipo de poesia “fechada”, ou seja, a argumentação ali desenvolvida deve esgotar-se no espaço do texto poético, sem, no entanto, privar o leitor de ampliar o horizonte do que ali está escrito, como acontece quando lemos uma notícia de jornal ou revista, por exemplo.
Por fim, com estas bases propostas, apresento à crítica de todos este que se pretende venha a se tornar um novo estilo de escrita poética, com estrutura enxuta, objetividade temática e características próprias que lhe conferem uma existência única e diferenciada das outras técnicas de escrita atualmente disponíveis.

AS COISAS NO LUGAR DE PESSOAS
Sozinho, um balão pequenininho
Engoliu, num grande sorriso,
A tristeza de um menininho.”

João Antônio Pereira
Porto Alegre – Rio Grande do Sul – Brasil
30 de janeiro de 2009.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Noites tristes...


Por: Ente Maldito


Tuas mentiras me fizeram medonho.
- Ah, Deus, nunca me vi tão feio!
Tuas mentiras me fizeram bisonho.
- Pareço alegria cortada ao meio.
Tuas mentiras me fizeram tristonho.
- Fiquei te esperando. Mas tu não veio.

O Dramaturgo e o Poeta


Camilo de Lélis

O mestre diante do quadro. A contemplação imersa nos quatro lados. Qual a forma da perfeição? Onde, a exatidão assimétrica? Enquadrada, a vida pousa (e se mexe) - enorme, gigantesca, sentida... quadrilátera. A visão de ti em mim. A visão que me deste. Não viste o que eu vi. És perfeita. E nem notaste... Eu... Me pondo ao quadrante Leste. (E.M.)

Pressuponha, Mestre:

Indecisão



Ao encontrar-te assim, oferecida, prestes a indicar o botão da camisa,
(a papoula na mão esquerda não te torna sonolenta, mas lasciva),
não sei se o primero beijo eu destino aos olhos (já vidram antecipados),
ou se à concha rósea da orelha, ao nariz, talvez, em seu desenho exato,
ou aos lábios (que esboçam uma chacota à minha veneração extática),
ou, quem sabe, ao mais singelo dos atributos, a covinha de teu queixo...

camilo/2009.

Dias tristes...


Por: Ente Maldito


CANSAÇO

Candelabros dos meus olhos,
iluminai-me, agora, que
em minha alma falta a luz!

Ó, adaga mortal!
Tua rubra bainha espera
palpitando em meu peito.
Porque demoras tanto?!
Por acaso não a queres?
Ah, como são felizes aqueles
que, aconchegados à terra, dormem!

Como me cansa este não findar!
Ó, adaga mortal!...

Dor de todas as dores,
tu que acendeste, em minh’alma, a luz?

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Manifesto Literário II

Esta postagem trata de modificações e aditivos ao texto original do Manifesto Literário publicado por este poeta em 29 de novembro de 2008.
As considerações são as que seguem:

1) O estilo poético definido naquele Manifesto, nomeado genericamente de TERCETO, passa a chamar-se, definitivamente, de "TRINCA". Esta denominação foi adotada tendo em vista as seguintes razões: por fazer referência a uma poesia curta, constituída de três versos; pelo caráter próprio deste tipo de poesia que, assim como os textos dissertativos, estrutura-se na tríade introdução-desenvolvimento-conclusão; finalmente, por "jogar", internamente, com os elementos da realidade, embaralhando e reorganizando imagens, remetendo a um nível de expressão e interpretação mais amplo do que aquele objetivamente tratado no texto poético.

2) Fica alterado, em parte, o primeiro parágrafo do Manifesto, e são nele adicionadas as seguintes informações:

Texto atual:

"Terceto é um estilo poético que se apresenta na forma de um texto organizado em três versos. A rigor, o Terceto não se atém a regras de composição, no que diz respeito à temática ou ao emprego de figuras de linguagem, no entanto, quanto à estrutura, é corrente que o terceiro verso rime com o primeiro, ficando o segundo livre, podendo rimar com os outros, ou não. Também é imprescindível a presença de um título, tendo em vista o seu caráter eminentemente narrativo. É ele que informa ao leitor o tema, ou assunto, que será abordado pelo poeta nos versos que seguem. Aqui, o título não prejudica a liberdade do escritor, antes oferece a ele um fio condutor, uma linha mestra, que irá orientá-lo até o objetivo que pretende atingir."

Texto com nova redação:

"A Trinca é um estilo poético que se apresenta na forma de um texto organizado em três versos, encabeçados por título. A rigor, a Trinca não se atém a qualquer regra de composição, nem com relação à métrica, nem à rima; no entanto, com relação a esta última, receberá as seguintes classificações, quanto à dificuldade de composição: a) Trinca do príncipe - é aquela onde todos os versos rimam entre si; b) Trinca rica - é aquela onde o primeiro verso rima com o segundo e o terceiro é livre, ou o segundo rima com o terceiro e o primeiro é livre; c) Trinca pobre - é aquela onde o primeiro verso rima com o terceiro e o segundo é livre; d) Trinca natural - quando não há a presença da rima entre os versos. Há, ainda, uma forma especial de rima, que será doravante classificada como "Trinca imperial", que se dará quando o título rimar com o segundo verso e o primeiro verso rimar com o terceiro, como no caso da Trinca pobre.
Quanto ao título, é imprescindível sua presença, tendo em vista o caráter eminentemente narrativo da Trinca. É ele que informa ao leitor o tema, ou assunto, que será abordado pelo poeta nos versos que seguem. Aqui, o título não prejudica a liberdade do escritor, antes oferece a ele um fio condutor, uma linha mestra, que irá orientá-lo até o objetivo que pretende atingir."

Numa próxima postagem será publicado o Manifesto na íntegra, com a nova redação acima e com as outras alterações que se fazem necessárias ao texto original, a partir da definição do nome deste estilo poético.

O Dramaturgo e o Poeta


Camilo de Lélis

O mestre anda com a veia poética palpitando, ultimamente. Então vamos mordê-la e deixar que sangre... (E.M.)

Primo Miraculo (num zaz!)

olhos de gato:
na poça do lajeado,
um peixinho azul.

irracional,
exato, o gesto apanha-onum zaz!

em mão miúda,
na carreira pra casa,
a jóia palpita.

na barra da saia
de nossa senhora,
a vida estertora.

desapontamento:
-incompleto milagre,
menino jesus!

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eco!

da de ver
ver de dever
ver de verdade

lógica...

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Translúcido

Ordenei: - mão, não escreva!
Ela respondeu : - cabeça, não pense!
-Não me peçam para não sentir! - gritou o coração desesperado.
Mas...
Era apenas a transparência rósea de um papel celofane a flanar na calçada...

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Ave Eva

Hoje vi uma mulher como se visse um pássaro.
Nunca entendi porque os antigos faziam tal relação...
O certo é que não há como explicar
porque determinadas mulheres se parecem com certas aves.
Porém, aves não fumam...algumas harpias sim.

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ferrugem

ferrugem aflora nas folhas
no outono de porto alegre

quando uivávamos nas noites
ao que estávamos entregues?

alongadas sombras duas
nervosas sem repousar

becos ruas olhos luas
felinos vadios em ronda

asperamente unhas dentes
tantas marcas todas nuas

feridas ainda abertas
agulhas dentro do sono

na rua algumas folhas caem
ferrugem do próximo outono

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Manah

As palavras caem em pencas,
se dissolvem, algodoadas, adocicadas,
na secura de minha língua.

O sumo delas tem espírito alcoólico;
eu me afogo nesta sede insaciável...

Cuspo-as desidratadas.

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Tatoo

Bem no meio da mão vê-se um M,
para você não esquecer, Madame,
-há um meio-,
da lagarta faminta
à lépida borboleta,
há espera.

É a Morte tatuada.

camilo.
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