sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Discutindo a Relação do Relacionamento



















Há alguns dias visitei a página que minha filha mantém na comunidade Orkut e nela li um texto (atribuído a Martha Medeiros) sobre para que deveria servir uma relação. Ao longo do texto são usadas, à exaustão, as seguintes palavras ao introduzirem uma oração: “Uma relação tem que servir para (...)”. Transcrevo o texto (não sei se está completo, me parece que não. Parece que falta a introdução e pelo menos parte do desenvolvimento.) para que se tome conhecimento e depois possamos divagar a seu respeito.

“Uma relação tem que servir para você se sentir 100% à vontade com outra pessoa, à vontade para concordar com ela e discordar dela. Para ter sexo sem "não-me-toques" ou para cair no sono logo após o jantar.
Uma relação tem que servir para você ter com quem ir ao cinema de mãos dadas. Para ter alguém que instale o som novo enquanto você prepara uma omelete. Para ter alguém com quem viajar para um país distante.
Para ter alguém com quem ficar em silêncio sem que nenhum dos dois se incomode com isso. Uma relação tem que servir para, às vezes, estimular você a se produzir, e, quase sempre, estimular você a ser do jeito que é, de cara lavada e bonita a seu modo.
Uma relação tem que servir para um e outro se sentirem amparados nas suas inquietações. Para ensinar a confiar, a respeitar as diferenças que há entre as pessoas, e deve servir para fazer os dois se divertirem demais, mesmo em casa, principalmente em casa.
Uma relação tem que servir para cobrir as despesas um do outro num momento de aperto, e cobrir as dores um do outro num momento de melancolia, e cobrirem o corpo um do outro quando o cobertor cair.
Uma relação tem que servir para um perdoar as fraquezas do outro, para um abrir a garrafa de vinho e para o outro abrir o jogo, e para os dois abrirem-se para o mundo, cientes de que o mundo não se resume aos dois.”

Bem, bem, bem... Meu espírito revolucionário, pouco afeito às coisas obrigadas, remexeu-se. Minha lógica cartesiana estremeceu. E minha inteligência mediana ficou – como direi? – intrigada: “tem que servir para”?
Hmmmm... Não consigo aceitar tal afirmação com a espontaneidade que gostaria. Há algo nela que me incomoda, como se tivesse sido escolhida exatamente para ocultar os motivos de sua utilização. Para ser mais claro, exemplificando, ela me parece uma tipóia feita para apoiar um braço amputado. Por quê? Porque tenta justificar-se sem levar em conta os motivos por que existe. Se não, vejamos a seguir.
Relacionamento não é uma entidade autônoma, cuja existência se dá a partir de si mesma e para cumprir um fim específico. Relacionamento é, ao contrário, uma entidade dependente, não espontânea e que não atende a qualquer finalidade. Um relacionamento não se dá, assim, tipo: “Ah, hoje vou me relacionar!”. Não, de maneira nenhuma. Tampouco tipo: “É, estou precisando iniciar uma relação...”. Nãããã... O relacionamento, para que exista, precisa, necessariamente, de premissa, e essa premissa é, quase sempre, amorosa.
Um relacionamento nada mais é do que um estágio que cumprem duas pessoas unidas por um interesse comum. Ele não serve para nada, nem a nada. Muito menos “deve servir”. Um relacionamento é um acontecimento que aproxima, que torna co-responsáveis, íntimos, aqueles que nele se vêem envolvidos. Todo o restante, como o que está dito no texto acima, não precisa de um relacionamento para existir. Pode estar inserido nele, mas não é o motivo de sua existência nem lhe será o alicerce, jamais.
Para que nos metemos em relacionamentos, então? Para que ficamos, namoramos, noivamos, casamos, vivemos em concubinato, por que essa loucura para ficarmos juntinhos, sempre, de uma determinada pessoa? Darwin deve ter, por certo, uma explicação lógica e biológica para isso. Já, eu, me atrevo a dizer simplesmente que é por que é bom, é gostoso, deixa a gente feliz, leve, satisfeito, bem disposto, só isso. E mais nada.
Um relacionamento não tem que servir para nada. Um relacionamento não é o início de algo (o início é o que motivou o relacionamento), não é o meio (não se chega a lugar nenhum por se estar num relacionamento) e nem o fim (o que motivou o relacionamento não está completo por se ter chegado a ele). Um relacionamento é acontecimento. Um acontecimento para ser vivido, não para ser aproveitado de forma útil e responsável.
Vivam os seus amores! Quanto mais juntinho, melhor. Mas vivam também suas vidas e guardem na memória, sempre, que estar junto não é estar dentro da vida do outro, mas ao lado.
Viajei...


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