sábado, 29 de novembro de 2008

Manifesto Literário

Então chegou o momento. Como eu havia postado há alguns dias, torno público este Manifesto Literário. Nele proponho um estilo literário a que denominei Terceto. Conto com o comentário dos visitantes a fim de discutirmos o que aqui apresento. Vale tudo: discordar, concordar, sugerir, malhar, vaiar, elogiar, acrescentar... e por aí vai.
Não sei se estou propondo algo novo ou discorrendo a respeito de algo já existente que, no entanto, ainda não havia sido percebido e analisado.
Mas chega de conversa e mãos à obra.


“OS DIFERENTES MOTIVOS DE QUEM PROCURA
Corações e mentes voam seus vôos loucos:
Aqueles, em busca de amor,
Estas, por quem lhes ouça um pouco.”

O TERCETO
Terceto é um estilo poético que se apresenta na forma de um texto organizado em três versos. A rigor, o Terceto não se atém a regras de composição, no que diz respeito à temática ou ao emprego de figuras de linguagem, no entanto, quanto à estrutura, é corrente que o terceiro verso rime com o primeiro, ficando o segundo livre, podendo rimar com os outros, ou não. Também é imprescindível a presença de um título, tendo em vista o seu caráter eminentemente narrativo. É ele que informa ao leitor o tema, ou assunto, que será abordado pelo poeta nos versos que seguem. Aqui, o título não prejudica a liberdade do escritor, antes oferece a ele um fio condutor, uma linha mestra, que irá orientá-lo até o objetivo que pretende atingir.

SABEDORIA AO CAMINHAR
O bom sábio sabe escolher o caminho:
Quando se sai a passear com balões,
Não se vai por onde há espinhos.”

Seguindo adiante, observamos que, afora a aparente ligação que mantém com o Haicai que é praticado modernamente no Brasil, o Terceto não tem com este qualquer outro ponto em comum, senão o fato de ser estruturado em três versos e trazer em seu bojo uma idéia completa. Esta questão da idéia completa diz respeito ao fato de que o Terceto não admite, em hipótese alguma, um quarto verso. O autor deve esgotar sua argumentação nos três versos que constituem o poema de forma que ao leitor não reste a impressão de que “faltou dizer alguma coisa”; por esse motivo, o Terceto traz consigo, também, uma certa similitude com o aforismo, ou com a parábola, já que pretende, com um discurso definitivo, remeter a uma realidade para além daquela presente em sua narrativa/descrição.
Apesar da relativa liberdade que goza quanto à forma, traz em suas características intrínsecas um rigor que deve ser observado, a fim de que se possa avaliá-lo como um estilo de manifestação artística com identidade própria que o distinguirá das outras, mesmo daquelas pertencentes ao universo do qual participa, ou seja, da poesia.

OUVIR-SE
Há ventos que apenas dão voltas.
Outros os há, violentos, que tudo derrubam.
Quando falas, que vento tu sopras?”

O Terceto, então, para assim ser reconhecido como tal, deve apresentar as seguintes condições intrínsecas:

1) Antropocentrismo: sua temática é o ser-humano: suas ações e reações, os objetos cuja origem pode ser determinada como devida à interferência humana ou, em outras palavras, que tragam marcados em si as mãos do Homem. Não são próprias do terceto as temáticas relacionadas à natureza (a evocação a elementos da natureza, por exemplo, tomados isoladamente, a não ser que se esteja falando da influência do ser-humano sobre o ambiente ou do aproveitamento dos recursos naturais), às questões espiritualistas, à religião, às crenças, à filosofia transcedental, à meta-física e outros temas ligados à elevação do espírito. Por isso, podemos dizer que o Terceto é mundano, no sentido de que trata apenas de acontecimentos do mundo racional, aquele que pode ser apreendido pelo raciocínio e por este explicado;

O SENHOR DA GUERRA VAI AO ORIENTE
De madrugada, rufam os canhões!
E explodem centenas de pessoas
Como se explodissem apenas balões.”

2) Reflexividade: ou seja, leva o leitor a pensar, a fazer uma auto-crítica ou uma crítica sobre a realidade da qual participa. As temáticas que podem servir ao Terceto são inumeráveis; assim, o poeta poderá refletir sobre os relacionamentos humanos, sobre a modernidade, sobre as cidades, sobre fobias, medos, loucura, amor, desamor, meios de transporte, poluição do ambiente, mentira, sinceridade et cetera, e levar tais reflexões ou impressões para o leitor, para que este construa as suas próprias. O Terceto tem como objetivo maior sensibilizar o ser-humano (leitor), fornecendo-lhe subsídios para que assuma posturas menos destrutivas para si mesmo, para com seus semelhantes e para com o planeta que habita. No entanto, atenção!: o Terceto não é um estilo poético que se preste como veiculador de idéias de auto-ajuda, pois nele não deve estar contida qualquer intenção de convencimento em torno de verdades inquestionáveis. O Terceto, ao contrário, precisa ser instigador, questionador, semeador de interrogações.

AS CRIANÇAS DE HOJE NÃO TÊM INFÂNCIA
No meio da rua, um menino, sentado,
Brincando com um balão.
E com o sorriso todo molhado.”

A fim de concluir esta breve introdução ao pré-conceito de Terceto, temos ainda a acrescentar que para se perceber se uma construção poética, estruturada em três versos, encabeçada por um título, é, segundo as bases propostas acima, realmente um Terceto, deve-se atentar para a presença de uma característica indispensável: o poema deve passar ao leitor a sensação de completude, isto é, o leitor tem que “sentir” que estão presentes, no texto, a introdução, o desenvolvimento e a conclusão. O Terceto é um tipo de poesia “fechada”; a argumentação ali desenvolvida deve esgotar-se no espaço do texto poético, sem, no entanto, privar o leitor de ampliar o horizonte do que ali está escrito, como acontece quando lemos uma notícia de jornal ou revista, por exemplo.

Por fim, com estas bases propostas, apresento à crítica de todos este que se pretende venha a se tornar um novo estilo de escrita poética, com estrutura enxuta, objetividade temática e características próprias que lhe conferem uma existência única e diferenciada das outras técnicas de escrita atualmente disponíveis.

AS COISAS NO LUGAR DE PESSOAS
Sozinho, um balão pequenininho
Engoliu, num grande sorriso,
A tristeza de um menininho.”

João Antônio Pereira
Porto Alegre – Rio Grande do Sul – Brasil
13 de novembro de 2008.

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