sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Enquanto as horas passavam...

A ÚNICA E VERDADEIRA E FANTÁSTICA HISTÓRIA DE JONAS BROWN

(Rascunho para a introdução de um livro que pretendo - algum dia - escrever)

As horas passavam e, conforme a noite ia se estabelecendo e tomando assento, impondo seu reinado até que o sol viesse novamente requerer o trono, o bar ia enchendo cada vez mais. De repente, nem a música do som ambiente, que ainda há pouco se podia ouvir com clareza, conseguia se sobressair ao burburinho das vozes que se elevavam, numa busca quase desesperada para serem ouvidas.

Mesmo em meio de tamanha algazarra ele não conseguia deixar de sentir-se só, apartado do mundo, alheio ao que se passava ao redor. A cada gole, a solidão que sentia levava-o para mais longe, para um lugar qualquer, desabitado, esquecido ou desconhecido de todos e por todos. Um lugar como uma ilha – inóspita, virgem, inalcançável. Tão inalcançável que era como se ele nunca mais pudesse voltar de tal lugar, apesar de lá ter chegado facilmente. "A dor é um navio que nos leva a viagens só de ida", pensou. Ficaria naquele estado-lugar para sempre. Nem a morte viria até aí para lhe reclamar o corpo; nem Deus, ou o Diabo, para lhe cobrar a alma. Estava só. E no mar de gente a sua volta, ninguém havia que lhe pudesse tirar desse estado. Tampouco aliviá-lo.

Não era somente a vida que o tempo tomava e não devolvia, eram também os sonhos, as expectativas, o que poderia vir a ser. Os acontecimentos estão interligados por situações tão efêmeras e delicadas que, uma vez rompida uma ou mais destas ligações, não é possível reconstruir o presente como assim está. O tempo que passa e leva a vida, a vida que passa e não é vivida, não deixa sequer memória. Sem memória não há passado; sem passado, o presente é obscuro; obscurecido o presente, o futuro se torna uma ansiada busca pelo passado – para que o agora e o devir adquiram significado, façam sentido. Como se sente vazio aquele para quem a vida se parece com uma viagem que poderia ter feito e não fez. Para que viver, então? Melhor seria morrer. Mas que sentido teria morrer para alguém que sequer sente-se vivo?

Chamou o garçom e pediu mais uma cerveja. Ficou observando enquanto ele se afastava para providenciar seu pedido e pensou: "qual o sentido de ser garçom?"

* * *

Já estava quase amanhecendo quando girou a chave na fechadura da porta do apartamento – “Mais uma noite, menos um dia”, pensou. Entrou, bateu a porta atrás de si e atirou-se no sofá velho, único móvel existente na sala. A janela estava fechada, apenas uma claridade muito tênue conseguia iluminar o ambiente. Pegou uma almofada e colocou embaixo da cabeça, para fazer as vezes de travesseiro. Apoiou o ante-braço esquerdo na testa e tentou dormir. Antes de dormir, no entanto, lembrou-se de colocar o rádio-relógio para despertar. ‘Tem que ser às nove, tem que ser às nove! Senão não dá tempo nem de tomar um cafezinho, na corrida. Às 10 horas tem a entrevista com o Pai-de-Santo. Preciso estar inteiro. Essa conversa pode se revelar muito produtiva. Ele era uma pessoa muito próxima do Jonas Brown, sabe detalhes da sua vida desde a infância. Como posso ser assim, tão irresponsável? O que há, dentro de mim, que me leva sempre para onde não quero ir? O que é isso que me faz ficar pensando, pensando, pensando? Pensando em quê, cacete?! Eu nunca penso em nada! Nunca cheguei a uma conclusão sequer,! Nunca tive uma iluminação, qualquer coisa que me dissesse: vá por aqui, este é o caminho. Merda! Merda!” Logo já estava dormindo. Um sono pesado, sem sonhos. E sem pesadelos.

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