sábado, 29 de novembro de 2008

O Dramaturgo e o Poeta




Escrever é ser. Ser a si mesmo, ser outro, ser o outro, ser outra coisa, outro elemento. Escrever é fazer parte do universo. Escrever é trazer o universo para dentro si e senti-lo, compreendê-lo, ver o que, de outra forma, não conseguiríamos ver.
Escrever é dramatizar, é compreender como parte de si tudo o que existe fora. Escrever é consumir o mundo.
Tenho a honra de apresentar a vocês Camilo de Lélis, cujos textos passarão a compor o acervo do Ente Maldito. O admirável diretor teatral e dramaturgo dispensa apresentações. O que se irá mostrar aqui, neste espaço, é o admirável poeta, o surpreendente escritor cuidadoso no trato da linguagem, prolixo e cultivador de belíssimas metáforas.
Leiam e deliciem-se. Mas, atenção! Sem pressa. Leiam com calma. E prestem muuuiiita atenção no que é dito, pois nada está ali por acaso. Os textos do Camilo sempre conduzem para além de si próprios. O que está escrito, pode não ser o que se lê. O que deve ser entendido, pode estar além do que está escrito.
Boa leitura.



Influenza

Maçanilha do campo, colhida num canto qualquer do planeta. Numa planície, imagino. Quantas corolas, pétalas? E o pólen, visitado por carochinhas pintalgadas e abelhas laboriosas, quanto? Quanta diversidade e quantidade reduzidas a um saquê...Derramo água quente e você é uma oferta em dourado perfume. Quanta vida houve em ti, agora é infusão... Transfusão.
Estou só, abatido. Algo invisível me derreou. O corpo, sempre tão quieto, reclama. Dores nas costas. Fluxos extravasam em lágrimas e coriza. Imagens dissociadas dão-se as mãos numa produção confusa.
E o hermeneuta se cala.

Camilo.


David na 7ª série

A beleza das flores é para os besouros, abelhas e outros.
Nós não contamos entre os outros.
Nós damos nomes a elas...
Nós dizemos:
"Flores são belas".

Camilo.

Mundo Louco

Manifesto Literário

Então chegou o momento. Como eu havia postado há alguns dias, torno público este Manifesto Literário. Nele proponho um estilo literário a que denominei Terceto. Conto com o comentário dos visitantes a fim de discutirmos o que aqui apresento. Vale tudo: discordar, concordar, sugerir, malhar, vaiar, elogiar, acrescentar... e por aí vai.
Não sei se estou propondo algo novo ou discorrendo a respeito de algo já existente que, no entanto, ainda não havia sido percebido e analisado.
Mas chega de conversa e mãos à obra.


“OS DIFERENTES MOTIVOS DE QUEM PROCURA
Corações e mentes voam seus vôos loucos:
Aqueles, em busca de amor,
Estas, por quem lhes ouça um pouco.”

O TERCETO
Terceto é um estilo poético que se apresenta na forma de um texto organizado em três versos. A rigor, o Terceto não se atém a regras de composição, no que diz respeito à temática ou ao emprego de figuras de linguagem, no entanto, quanto à estrutura, é corrente que o terceiro verso rime com o primeiro, ficando o segundo livre, podendo rimar com os outros, ou não. Também é imprescindível a presença de um título, tendo em vista o seu caráter eminentemente narrativo. É ele que informa ao leitor o tema, ou assunto, que será abordado pelo poeta nos versos que seguem. Aqui, o título não prejudica a liberdade do escritor, antes oferece a ele um fio condutor, uma linha mestra, que irá orientá-lo até o objetivo que pretende atingir.

SABEDORIA AO CAMINHAR
O bom sábio sabe escolher o caminho:
Quando se sai a passear com balões,
Não se vai por onde há espinhos.”

Seguindo adiante, observamos que, afora a aparente ligação que mantém com o Haicai que é praticado modernamente no Brasil, o Terceto não tem com este qualquer outro ponto em comum, senão o fato de ser estruturado em três versos e trazer em seu bojo uma idéia completa. Esta questão da idéia completa diz respeito ao fato de que o Terceto não admite, em hipótese alguma, um quarto verso. O autor deve esgotar sua argumentação nos três versos que constituem o poema de forma que ao leitor não reste a impressão de que “faltou dizer alguma coisa”; por esse motivo, o Terceto traz consigo, também, uma certa similitude com o aforismo, ou com a parábola, já que pretende, com um discurso definitivo, remeter a uma realidade para além daquela presente em sua narrativa/descrição.
Apesar da relativa liberdade que goza quanto à forma, traz em suas características intrínsecas um rigor que deve ser observado, a fim de que se possa avaliá-lo como um estilo de manifestação artística com identidade própria que o distinguirá das outras, mesmo daquelas pertencentes ao universo do qual participa, ou seja, da poesia.

OUVIR-SE
Há ventos que apenas dão voltas.
Outros os há, violentos, que tudo derrubam.
Quando falas, que vento tu sopras?”

O Terceto, então, para assim ser reconhecido como tal, deve apresentar as seguintes condições intrínsecas:

1) Antropocentrismo: sua temática é o ser-humano: suas ações e reações, os objetos cuja origem pode ser determinada como devida à interferência humana ou, em outras palavras, que tragam marcados em si as mãos do Homem. Não são próprias do terceto as temáticas relacionadas à natureza (a evocação a elementos da natureza, por exemplo, tomados isoladamente, a não ser que se esteja falando da influência do ser-humano sobre o ambiente ou do aproveitamento dos recursos naturais), às questões espiritualistas, à religião, às crenças, à filosofia transcedental, à meta-física e outros temas ligados à elevação do espírito. Por isso, podemos dizer que o Terceto é mundano, no sentido de que trata apenas de acontecimentos do mundo racional, aquele que pode ser apreendido pelo raciocínio e por este explicado;

O SENHOR DA GUERRA VAI AO ORIENTE
De madrugada, rufam os canhões!
E explodem centenas de pessoas
Como se explodissem apenas balões.”

2) Reflexividade: ou seja, leva o leitor a pensar, a fazer uma auto-crítica ou uma crítica sobre a realidade da qual participa. As temáticas que podem servir ao Terceto são inumeráveis; assim, o poeta poderá refletir sobre os relacionamentos humanos, sobre a modernidade, sobre as cidades, sobre fobias, medos, loucura, amor, desamor, meios de transporte, poluição do ambiente, mentira, sinceridade et cetera, e levar tais reflexões ou impressões para o leitor, para que este construa as suas próprias. O Terceto tem como objetivo maior sensibilizar o ser-humano (leitor), fornecendo-lhe subsídios para que assuma posturas menos destrutivas para si mesmo, para com seus semelhantes e para com o planeta que habita. No entanto, atenção!: o Terceto não é um estilo poético que se preste como veiculador de idéias de auto-ajuda, pois nele não deve estar contida qualquer intenção de convencimento em torno de verdades inquestionáveis. O Terceto, ao contrário, precisa ser instigador, questionador, semeador de interrogações.

AS CRIANÇAS DE HOJE NÃO TÊM INFÂNCIA
No meio da rua, um menino, sentado,
Brincando com um balão.
E com o sorriso todo molhado.”

A fim de concluir esta breve introdução ao pré-conceito de Terceto, temos ainda a acrescentar que para se perceber se uma construção poética, estruturada em três versos, encabeçada por um título, é, segundo as bases propostas acima, realmente um Terceto, deve-se atentar para a presença de uma característica indispensável: o poema deve passar ao leitor a sensação de completude, isto é, o leitor tem que “sentir” que estão presentes, no texto, a introdução, o desenvolvimento e a conclusão. O Terceto é um tipo de poesia “fechada”; a argumentação ali desenvolvida deve esgotar-se no espaço do texto poético, sem, no entanto, privar o leitor de ampliar o horizonte do que ali está escrito, como acontece quando lemos uma notícia de jornal ou revista, por exemplo.

Por fim, com estas bases propostas, apresento à crítica de todos este que se pretende venha a se tornar um novo estilo de escrita poética, com estrutura enxuta, objetividade temática e características próprias que lhe conferem uma existência única e diferenciada das outras técnicas de escrita atualmente disponíveis.

AS COISAS NO LUGAR DE PESSOAS
Sozinho, um balão pequenininho
Engoliu, num grande sorriso,
A tristeza de um menininho.”

João Antônio Pereira
Porto Alegre – Rio Grande do Sul – Brasil
13 de novembro de 2008.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Escrever para crianças

Escrever para crianças é um exercício fantástico! E terrível! Quando ficamos adultos, por algum motivo ainda não muito bem explicado, perdemos completamente nossas referências infantis, de tal maneira que temos grandes dificuldades, inclusive, para criarmos nossos filhos. É comum depararmo-nos com pessoas que tratam seus filhos como 'pequenos adultos', a exigir deles comportamentos e compreensões completamente incompatíveis com a fase de desenvolvimento em que se encontram.
Porque isso nos acontece? Porque nossa sensibilidade para com essa fase da vida nos sobra completamente embotada? Alguns dizem: "Ah, mas eu me lembro muito bem da minha infância. Inclusive de coisas que me aconteceram quando eu estava ainda no útero!" Fantástico! De repente se levantam, se encaminham solertes em direção ao filho pequeno, que acabou de quebrar um vaso que pertencia à família há uns 150 anos, e... BATEM NELE!...
Fomos crianças, nos lembramos de termos sido crianças, mas não sabemos mais o que é ser criança. É uma pena. E podemos solidificar nossos argumentos quando apontamos não apenas pais que maltratam seus filhos, tanto fazendo uso da violência física quanto da psicológica, mas também aqueles que os abandonam, que não querem saber deles! Será que não lembramos do que necessitávamos quando tínhamos 1, 2, 3, 4 anos?
Acho que, na real, mantemos a memória visual e perdemos completamente a memória emocional, ou sensível. O Alzheimer emocional é devastador, e quem sofre as conseqüências (repararam no uso do trema? - Eu sou brasileiro, e o brasileiro não desiste nunca!) não somos nós, pois nós somos a conseqüência (ó, de novo! Mas, baaaahhh...) dessa "doença" inevitável e incurável; então, há outros, outros menores do que nós, outros "crianças", e que são os que, efetivamente, sofrem com a nossa "desensibilização".

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Enquanto as horas passavam...

A ÚNICA E VERDADEIRA E FANTÁSTICA HISTÓRIA DE JONAS BROWN

(Rascunho para a introdução de um livro que pretendo - algum dia - escrever)

As horas passavam e, conforme a noite ia se estabelecendo e tomando assento, impondo seu reinado até que o sol viesse novamente requerer o trono, o bar ia enchendo cada vez mais. De repente, nem a música do som ambiente, que ainda há pouco se podia ouvir com clareza, conseguia se sobressair ao burburinho das vozes que se elevavam, numa busca quase desesperada para serem ouvidas.

Mesmo em meio de tamanha algazarra ele não conseguia deixar de sentir-se só, apartado do mundo, alheio ao que se passava ao redor. A cada gole, a solidão que sentia levava-o para mais longe, para um lugar qualquer, desabitado, esquecido ou desconhecido de todos e por todos. Um lugar como uma ilha – inóspita, virgem, inalcançável. Tão inalcançável que era como se ele nunca mais pudesse voltar de tal lugar, apesar de lá ter chegado facilmente. "A dor é um navio que nos leva a viagens só de ida", pensou. Ficaria naquele estado-lugar para sempre. Nem a morte viria até aí para lhe reclamar o corpo; nem Deus, ou o Diabo, para lhe cobrar a alma. Estava só. E no mar de gente a sua volta, ninguém havia que lhe pudesse tirar desse estado. Tampouco aliviá-lo.

Não era somente a vida que o tempo tomava e não devolvia, eram também os sonhos, as expectativas, o que poderia vir a ser. Os acontecimentos estão interligados por situações tão efêmeras e delicadas que, uma vez rompida uma ou mais destas ligações, não é possível reconstruir o presente como assim está. O tempo que passa e leva a vida, a vida que passa e não é vivida, não deixa sequer memória. Sem memória não há passado; sem passado, o presente é obscuro; obscurecido o presente, o futuro se torna uma ansiada busca pelo passado – para que o agora e o devir adquiram significado, façam sentido. Como se sente vazio aquele para quem a vida se parece com uma viagem que poderia ter feito e não fez. Para que viver, então? Melhor seria morrer. Mas que sentido teria morrer para alguém que sequer sente-se vivo?

Chamou o garçom e pediu mais uma cerveja. Ficou observando enquanto ele se afastava para providenciar seu pedido e pensou: "qual o sentido de ser garçom?"

* * *

Já estava quase amanhecendo quando girou a chave na fechadura da porta do apartamento – “Mais uma noite, menos um dia”, pensou. Entrou, bateu a porta atrás de si e atirou-se no sofá velho, único móvel existente na sala. A janela estava fechada, apenas uma claridade muito tênue conseguia iluminar o ambiente. Pegou uma almofada e colocou embaixo da cabeça, para fazer as vezes de travesseiro. Apoiou o ante-braço esquerdo na testa e tentou dormir. Antes de dormir, no entanto, lembrou-se de colocar o rádio-relógio para despertar. ‘Tem que ser às nove, tem que ser às nove! Senão não dá tempo nem de tomar um cafezinho, na corrida. Às 10 horas tem a entrevista com o Pai-de-Santo. Preciso estar inteiro. Essa conversa pode se revelar muito produtiva. Ele era uma pessoa muito próxima do Jonas Brown, sabe detalhes da sua vida desde a infância. Como posso ser assim, tão irresponsável? O que há, dentro de mim, que me leva sempre para onde não quero ir? O que é isso que me faz ficar pensando, pensando, pensando? Pensando em quê, cacete?! Eu nunca penso em nada! Nunca cheguei a uma conclusão sequer,! Nunca tive uma iluminação, qualquer coisa que me dissesse: vá por aqui, este é o caminho. Merda! Merda!” Logo já estava dormindo. Um sono pesado, sem sonhos. E sem pesadelos.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

A vida dos outros

Tem gente que encontra na própria vida um exemplo a ser oferecido para os outros. Há pessoas que encontram em si algo de bom para compartilhar com o mundo. São pessoas que entendem que todos estamos intimamente ligados pela nossa humanidade. Não somos nem estamos sós. Se não importássemos uns aos outros, não faria sentido vivermos em sociedade, não é mesmo?
Por isso, convido os navegantes que por aqui passarem a assistirem a este vídeo onde Steve Jobs (ele mesmo, o fundador/criador da Apple) aparece num discurso a formandos na universidade de Stanford. Vale realmente a pena dispensar algum tempinho para assistir e refletir.

Parte I



Parte II

Exercício de Haicai II

Não canso de me apaixonar por esta forma de poesia. É fantástico o que se pode dizer em apenas três versos. Trago para o conhecimento de vocês um haicai de um grande poeta brasileiro chamado Guilherme de Almeida:

Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chama-se "Agora".

Bah, mas eu não poderia deixar de citar o insuperável haicaísta Paulo Leminsky. Tem este que é lindo:

hoje à noite
até as estrelas
cheiram a flor de laranjeira

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

TERCETOS

Você sabe o que são Tercetos? E Tercetos Maledetos? Então, Tercetos são...

Bem, vamos ficar assim por enquanto. Na próxima postagem estarei divulgando um manifesto onde pretendo apresentar conceitualmente algo que classifiquei como um "estilo poético". Aguardem...

Enquanto isso...

"Na esquina reconheço o rosto que passa.
Meu coração dispara! Não adianta acenar.
Ela não me verá. Maldita fumaça!"

domingo, 9 de novembro de 2008

Exercício de Haicai

Bem, estamos estudando sobre haicais. É muuuuiiiito interessante. No entanto, quanto mais me aprofundo no assunto, mais difícil fica definir o que é um haicai: não basta a forma, não basta o tema, não basta a sintaxe, não basta a esquematização, não basta nada: a última que li é que o poema, para ser um haicai, tem que ter "sabor" de haicai - ai, ai, ai... complicou.
De qualquer forma, a gente se mete a tentar fazer de tudo um pouco e aventurar-se em terreno tão pantanoso até que é legal. Atualmente discute-se muito haicais e há correntes haicaistas, umas valorizando mais esta ou aquela característica, outras, aquelas outras. É perigoso tomar posição. Como sou ainda um amador, fico à vontade para deixar que aquilo que me parece haikai, que pulsa em mim apresentando-se como um haicai, saia.
Então, escrevi isto. Caso alguém que entenda do assunto leia esta postagem, por favor, deixe seu recado. Gostaria de saber se o que escrevi pelo menos "cheira" a haikai. Se tem "gosto" de, bem... vamos deixar a massa no forno por mais algum tempo.

Sob a ponte,
passa o Guaíba - imenso! -
arrastando ilhas.
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