sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Discutindo a Relação do Relacionamento



















Há alguns dias visitei a página que minha filha mantém na comunidade Orkut e nela li um texto (atribuído a Martha Medeiros) sobre para que deveria servir uma relação. Ao longo do texto são usadas, à exaustão, as seguintes palavras ao introduzirem uma oração: “Uma relação tem que servir para (...)”. Transcrevo o texto (não sei se está completo, me parece que não. Parece que falta a introdução e pelo menos parte do desenvolvimento.) para que se tome conhecimento e depois possamos divagar a seu respeito.

“Uma relação tem que servir para você se sentir 100% à vontade com outra pessoa, à vontade para concordar com ela e discordar dela. Para ter sexo sem "não-me-toques" ou para cair no sono logo após o jantar.
Uma relação tem que servir para você ter com quem ir ao cinema de mãos dadas. Para ter alguém que instale o som novo enquanto você prepara uma omelete. Para ter alguém com quem viajar para um país distante.
Para ter alguém com quem ficar em silêncio sem que nenhum dos dois se incomode com isso. Uma relação tem que servir para, às vezes, estimular você a se produzir, e, quase sempre, estimular você a ser do jeito que é, de cara lavada e bonita a seu modo.
Uma relação tem que servir para um e outro se sentirem amparados nas suas inquietações. Para ensinar a confiar, a respeitar as diferenças que há entre as pessoas, e deve servir para fazer os dois se divertirem demais, mesmo em casa, principalmente em casa.
Uma relação tem que servir para cobrir as despesas um do outro num momento de aperto, e cobrir as dores um do outro num momento de melancolia, e cobrirem o corpo um do outro quando o cobertor cair.
Uma relação tem que servir para um perdoar as fraquezas do outro, para um abrir a garrafa de vinho e para o outro abrir o jogo, e para os dois abrirem-se para o mundo, cientes de que o mundo não se resume aos dois.”

Bem, bem, bem... Meu espírito revolucionário, pouco afeito às coisas obrigadas, remexeu-se. Minha lógica cartesiana estremeceu. E minha inteligência mediana ficou – como direi? – intrigada: “tem que servir para”?
Hmmmm... Não consigo aceitar tal afirmação com a espontaneidade que gostaria. Há algo nela que me incomoda, como se tivesse sido escolhida exatamente para ocultar os motivos de sua utilização. Para ser mais claro, exemplificando, ela me parece uma tipóia feita para apoiar um braço amputado. Por quê? Porque tenta justificar-se sem levar em conta os motivos por que existe. Se não, vejamos a seguir.
Relacionamento não é uma entidade autônoma, cuja existência se dá a partir de si mesma e para cumprir um fim específico. Relacionamento é, ao contrário, uma entidade dependente, não espontânea e que não atende a qualquer finalidade. Um relacionamento não se dá, assim, tipo: “Ah, hoje vou me relacionar!”. Não, de maneira nenhuma. Tampouco tipo: “É, estou precisando iniciar uma relação...”. Nãããã... O relacionamento, para que exista, precisa, necessariamente, de premissa, e essa premissa é, quase sempre, amorosa.
Um relacionamento nada mais é do que um estágio que cumprem duas pessoas unidas por um interesse comum. Ele não serve para nada, nem a nada. Muito menos “deve servir”. Um relacionamento é um acontecimento que aproxima, que torna co-responsáveis, íntimos, aqueles que nele se vêem envolvidos. Todo o restante, como o que está dito no texto acima, não precisa de um relacionamento para existir. Pode estar inserido nele, mas não é o motivo de sua existência nem lhe será o alicerce, jamais.
Para que nos metemos em relacionamentos, então? Para que ficamos, namoramos, noivamos, casamos, vivemos em concubinato, por que essa loucura para ficarmos juntinhos, sempre, de uma determinada pessoa? Darwin deve ter, por certo, uma explicação lógica e biológica para isso. Já, eu, me atrevo a dizer simplesmente que é por que é bom, é gostoso, deixa a gente feliz, leve, satisfeito, bem disposto, só isso. E mais nada.
Um relacionamento não tem que servir para nada. Um relacionamento não é o início de algo (o início é o que motivou o relacionamento), não é o meio (não se chega a lugar nenhum por se estar num relacionamento) e nem o fim (o que motivou o relacionamento não está completo por se ter chegado a ele). Um relacionamento é acontecimento. Um acontecimento para ser vivido, não para ser aproveitado de forma útil e responsável.
Vivam os seus amores! Quanto mais juntinho, melhor. Mas vivam também suas vidas e guardem na memória, sempre, que estar junto não é estar dentro da vida do outro, mas ao lado.
Viajei...


domingo, 21 de dezembro de 2008

O Amor nos Tempos do Cólera


Há algum tempo fui ver o filme "O Amor nos tempos do cólera", baseado no livro homônimo de Gabriel García Márquez.
Confesso que fiquei decepcionado. Não lembrava mais do livro - que havia lido há muitos anos -, mas, de saída, já não gostei do fato do filme ser falado em inglês: "pô, um texto espanhol, rodado num país da América do Sul, onde se fala espanhol, e todo falado em inglês? Tem alguma coisa errada nisso.", pensei. Além disso, dava para notar que as situações de encontro e desencontro entre Florentino Ariza e Fermina Daza estavam muito longe da espontaneidade. A coisa toda era meio forçada, maniqueísta, como se se quisesse atingir um objetivo de qualquer maneira.
Fiquei com a impressão de que o diretor do filme teria ficado inconformado com o destino daquele amor que ele acreditava ser o centro do livro.
Ledo engano. Saí do cinema disposto a reler G. G. Márquez. E reli. Com imensa satisfação, pois o texto é maravilhoso.
O livro não trata do amor entre duas pessoas. Trata do amor que há nas pessoas. O amor que leva as pessoas a fazerem coisas que, se não fossem movidas por amor, jamais fariam. O amor que leva a abrir mão de sonhos, de desejos, de quereres.
São muitas as formas de amar, narradas no livro. Infelizmente o diretor prendeu-se a apenas uma delas e, com isso, deixou de fora um cabedal (cabedal é bom, né?) de manifestações amorosas extremamente representativas, pois é pouco provável que alguém não tenha passado por pelo menos uma daquelas representações de amor possíveis.
Ao insistir para que a história de Florentino e Fermina seguisse os mesmos passos de outra, muito conhecida, a de Romeu e Julieta, o diretor acabou por disturbiar a personalidade ambiciosa de Fermina e a discrição de Florentino.
Fiquei revoltado. Não aconselho ninguém a assistir ao filme. Leiam o livro e tenham um encontro fantástico com a vida e suas possibilidades.
Depois da releitura, influenciado por ela, terminei emocionado com a persistência do personagem Florentino Ariza. Amar por uma vida inteira... Esperar por uma vida inteira... Mas, e daí? Isso é amor, não é? Cada um tem o seu jeito de vivê-lo, e é importante que o viva; é imprescindível, na verdade.

Koca & Kafalar (de novo)...

Tá, só mais um (ou dois) videozinhos desses malucos. Eu os acho muito bons e tô querendo saber a opinião de vocês. Se tiver algum viajante passando por aqui que saiba traduzir o que eles falam, poderíamos fazer uma parceria: alguém traduz e eu boto as legendas no filme e republico. Tenho certeza que muita gente por essse brasilzão a fora iria curtir muito.
Bom, agora começou a avacalhação. Neste filme eles invadem o cinema e apresentam a sua própria versão de Matrix 2. Pelo que entendi, em determinado momento o personagem vilão (não lembro mais os nomes dos personagens) mostra que pode, pelo poder da sugestão, fazer com que uma moça próxima fique com vontade de fazer xixi. Ele começa a fazer aquele chiadinho que fazemos quando queremos estimular uma criança a fazer pipi.
Assistam, assistam. É bem engraçado.

Koca Kafalar em Matrix 2




Neste segundo vídeo eles pegam um boneco e fazem horrores com ele. Ha-ha-ha-ha!!! Esta versão está em inglês.

Koca Kafalar em Ferdinand, the yoga master

Só para descontrair...

Koca & Kafalar

Eu gostaria de entender turco só para saber o que esses caras estão falando, pois só de olhar a cena a gente já rola de rir. O trabalho deles é muito bom. O sincronismo que eles conseguem ao sobrepor imagens gravadas de si, posteriomente, sobre vídeos originais é algo de fantástico! Notem como até mesmo os gestos, nos filmes originais, combinam com as expressões faciais que eles assumem.
Bem, mas chega de conversa

Koca (lê-se "Coja") Kafalar em Halter

O Dramaturgo e o Poeta

De novo o dramaturgo poeteia. Não me canso de ler os escritos poéticos deste cara. Ele é muito bom.
Saboreiem comigo mais um naco de Camilo de Lélis:

Onicofagia.

Unhas minhas,
nervosa autofagia, dia a dia.
Comer-se, enfim, pelas extremidades,
onde ressurge a casca da agonia.

camilo,2007.







Tangentes

-Merda!
Isso não é um grito.
Grafar palavras não é dizê-las,
dizê-las não é pensá-las,
pensá-las não é sabê-las,
sabê-las não é possui-las.
O saber é despossuido:
-Merda!
Isso é um rugido.

camilo.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A Realidade Real

Ás vezes eu quase desisto. Quando olho para o que se tornou o dia-a-dia, atualmente, juro que eu quase desisto. A violência gratuita parece que se apossou das pessoas de tal forma que poucos são, ainda, os que, diante de uma situação de confronto iminente, conseguem enxergar que tem pela frente um ser humano.
Com o pensamento embotado pelo sangue que jorra das telas das TVs, das telas dos cinemas, das páginas dos jornais, das telas do PCs, das telas dos video-games, a maioria das pessoas tem como primeiro impulso "eliminar", "destruir", "bater até matar".
Mais tarde, quando questionadas por que chegaram a tal extremo, respondem laconicamente: "ah, ele tava me incomodando, daí eu matei."
Não há qualquer respeito pela vida alheia, nenhum sentimento de remorso, parece que é normal, parece que tirar a vida de alguém não é nada. É como se nos víssemos todos como criaturas sozinhas no mundo: ninguém se interessa por nós, ninguém nos ama, ninguém nos espera. Acabar com a vida de uma pessoa é só isso: acabar com a vida de uma pessoa só. Ninguém vai chorar por ela, ninguém vai sentir a sua falta, o sofrimento causado não atingirá a outros.
Eu, sinceramente, não consigo entender como chegamos a tanto. Se alguém souber me explicar, agradeço, de coração, pois gostaria, mesmo, de entender. Não que eu pudesse fazer alguma coisa para modificar o caos assassino e sádico que se instalou, mas pelo menos eu saberia o que pensar quando a onda sanguinolenta me atingisse.
É foda!!! (Não é nada. Se fosse foda, seria bom. Provavelmente é falta de foda.)












REALIDADE

Legisladores omissos,
Juízes promíscuos,
Governantes submissos,
Imprensa a serviço,
Políticas de artifício,
Pedidos de armistício,
Ganhos imprevistos,
A realidade é só isso:
Um chute nos testículos!


segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

domingo, 7 de dezembro de 2008

Ilha das Flores

Este curta já é famoso por demais, mas nunca será demais revê-lo. Sabe quando tu estás meio esquecido do que significa ser humano, viver em sociedade, etc.
Este filme, em particular, aborda a situação que NÓS criamos aonde só tem direito a comida quem puder pagar por ela. Quem não tiver dinheiro, não come. Muito simples.
Aí, vem um desses representantes de produtores rurais e tentam te convencer que a atividade deles é a mais nobre do mundo, pois é voltada unicamente para alimentar a população brasileira. E que se sentem recompensados por saberem que seu trabalho é o motor do crescimento deste País, pois um povo bem alimentado, é um povo bem disposto.
Aí, tu ficas sabendo que grande parte do que é produzido é exportado. E não apenas o excedente. Ou seja, o alimento que aqui se produz vai alimentar outras pessoas, em outros lugares, e não é por nenhum outro motivo mais nobre senão o de ganhar dinheiro.
E então, tu descobres que o preço desse mesmo produto que é exportado, quando vendido em território nacional, chega, algumas vezes, a custar mais caro do que custa lá fora, tudo por conta do tal custeio da lavoura ou da criação, que é calculado em dólares, pois paga-se royalties para as empresas que vendem os insumos que são usados nos campos e lavouras, já que TODAS as empresas que fornecem adubos, inseticidas, pesticidas, sementes transgênicas, assistência técnica, compram a produção, são estrangeiras.
Até aqui, tu já estás com vontade de jogar uma bomba no prédio da FARSUL, que é uma das federações representativas de produtores rurais. Mas tu ainda vais ficar sabendo que, para diminuir custos, produtores escravizam pessoas, seja pagando quantias aviltantes pelo mão-de-obra, seja escravizando mesmo. E contrabandeiam (não pessoalmente, evidentemente, pagam a alguém para fazê-lo) produtos de países vizinhos, tais como adúbos e sementes. E tomam empréstimos que nunca mais vão pagar. E governos, como o do Rio Grande do Sul, ficam com aquela cara de "eu não sei de nada", enquanto toneladas de contrabando passam pelas estradas sem sofrerem qualquer fiscalização. Agora, tu já estás com vontade de incendiar a lavoura e dizimar os animais.
Pois é, meu amigo. E a todas essas, nós pagamos por meio de impostos.
Sabe quem alimenta, no fim, os mortos de fome que vagueiam por esse Brasil a fora? Tu, eu, o teu vizinho, o teu colega de trabalho ou estudo, ou seja, NÓS, que formamos a população urbana. Com o quê? Com o trocadinho na sinaleira, com o lanchinho no bar, com a comida dada ao portão, com o paninho de prato que tu compras da criança na calçada, com as participações nas campanhas de auxílio alimentar. E sabe quem não alimenta? Quem não tá nem aí? Eles, os produtores rurais, os latifundiários, os estancieiros, que estão muito mais preocupados em trocar de camionete todos os anos do que suprir a fome de alguém.
Daí se conclui que a gente paga - e muito - para que se produzam alimentos, paga - e muito - para consumir os alimentos produzidos, e depois paga - e muito - para que quem os produz não precise pagar nada! E tampouco se responsabilize socialmente por esse grave problema que nos assola que é a fome. E nós somos um dos maiores produtores de alimentos do mundo! Dá pra entender?

Vamos ao filme:

Título: Ilha das Flores
Gênero: Documentário, Experimental
Diretor: Jorge Furtado
Elenco: Ciça Reckziegel
Ano: 1989
Duração: 13 min
Cor: Colorido
Bitola: 35mm
País: Brasil


Clique no porquinho para assistir ao filme.

O bom e velho amigo Tédio

Tem momentos que as horas parecem que não passam. Não há o que se fazer! Fumar? Beber? Sair? Lavar a louça? Nãããh... Vontade de fazer alguma coisa e, ao mesmo tempo, de não fazer nada.
É ele, o bom e velho amigo "Tédio" chegando pra te dar aquele abraço apertado.
O "Tédio" é um cara quietão, sempre na dele, com aquela cara de aborrecido. Passa a maior parte do tempo calado. É um sujeito econômico nas palavras. Só abre a boca pra dizer "ã-rã" e "ãh-ãh". O "Tédio" é meio doentio. Sempre apático, aparentando ser catatônico, ou autista, sei lá. O "Tédio" é agropastoril, bucólico, lobotomizado. O "Tédio" é um saco!





TÉDIO


Silêncio, janela, vento.
Rio, barco, ilha.
Nuvem, pássaro, céu.
Sol.

Silêncio, janela, vento.
Rio, cais, ilha.
Céu, estrela, lua.
Só,

Um grilo a cantar...

Discípulos de Murphy



Madrugada.
Bebida liberada.
Todo mundo na balada.
Rola solta a batucada.
Tô aí e não dá nada.
Só azarando a mulherada...

Ôpa, pintou porrada!
Alguém entrou numa roubada.
Garrafa quebrada.
Sangue na calçada.
Cara arrebentada.
Barriga rasgada.
Bala perdida...

Sirenes na avenida.
A polícia chega distribuindo cacetada.
Corre, que a barra tá pesada!
Vixi! Tão pegando a molecada!
Apanha até quem não fez nada.
Vambora que a noite tá cagada...

Ver "Brasil na Madrugada".
Comer um xis salada.
Beber uma H2OH gelada.
E tomar um engov,
Pra não acordar de cabeça inchada.
Fui!

sábado, 6 de dezembro de 2008

Primavera na calçada



Porto Alegre tem muitos Ipês. O que deixa a cidade mais leve. A tontura das ruas mais breve. E o poeta cheio de porquês.

"Flores se desprendem
como gotas, dos Ipês:
Sapatos floridos."

sábado, 29 de novembro de 2008

O Dramaturgo e o Poeta




Escrever é ser. Ser a si mesmo, ser outro, ser o outro, ser outra coisa, outro elemento. Escrever é fazer parte do universo. Escrever é trazer o universo para dentro si e senti-lo, compreendê-lo, ver o que, de outra forma, não conseguiríamos ver.
Escrever é dramatizar, é compreender como parte de si tudo o que existe fora. Escrever é consumir o mundo.
Tenho a honra de apresentar a vocês Camilo de Lélis, cujos textos passarão a compor o acervo do Ente Maldito. O admirável diretor teatral e dramaturgo dispensa apresentações. O que se irá mostrar aqui, neste espaço, é o admirável poeta, o surpreendente escritor cuidadoso no trato da linguagem, prolixo e cultivador de belíssimas metáforas.
Leiam e deliciem-se. Mas, atenção! Sem pressa. Leiam com calma. E prestem muuuiiita atenção no que é dito, pois nada está ali por acaso. Os textos do Camilo sempre conduzem para além de si próprios. O que está escrito, pode não ser o que se lê. O que deve ser entendido, pode estar além do que está escrito.
Boa leitura.



Influenza

Maçanilha do campo, colhida num canto qualquer do planeta. Numa planície, imagino. Quantas corolas, pétalas? E o pólen, visitado por carochinhas pintalgadas e abelhas laboriosas, quanto? Quanta diversidade e quantidade reduzidas a um saquê...Derramo água quente e você é uma oferta em dourado perfume. Quanta vida houve em ti, agora é infusão... Transfusão.
Estou só, abatido. Algo invisível me derreou. O corpo, sempre tão quieto, reclama. Dores nas costas. Fluxos extravasam em lágrimas e coriza. Imagens dissociadas dão-se as mãos numa produção confusa.
E o hermeneuta se cala.

Camilo.


David na 7ª série

A beleza das flores é para os besouros, abelhas e outros.
Nós não contamos entre os outros.
Nós damos nomes a elas...
Nós dizemos:
"Flores são belas".

Camilo.

Mundo Louco

Manifesto Literário

Então chegou o momento. Como eu havia postado há alguns dias, torno público este Manifesto Literário. Nele proponho um estilo literário a que denominei Terceto. Conto com o comentário dos visitantes a fim de discutirmos o que aqui apresento. Vale tudo: discordar, concordar, sugerir, malhar, vaiar, elogiar, acrescentar... e por aí vai.
Não sei se estou propondo algo novo ou discorrendo a respeito de algo já existente que, no entanto, ainda não havia sido percebido e analisado.
Mas chega de conversa e mãos à obra.


“OS DIFERENTES MOTIVOS DE QUEM PROCURA
Corações e mentes voam seus vôos loucos:
Aqueles, em busca de amor,
Estas, por quem lhes ouça um pouco.”

O TERCETO
Terceto é um estilo poético que se apresenta na forma de um texto organizado em três versos. A rigor, o Terceto não se atém a regras de composição, no que diz respeito à temática ou ao emprego de figuras de linguagem, no entanto, quanto à estrutura, é corrente que o terceiro verso rime com o primeiro, ficando o segundo livre, podendo rimar com os outros, ou não. Também é imprescindível a presença de um título, tendo em vista o seu caráter eminentemente narrativo. É ele que informa ao leitor o tema, ou assunto, que será abordado pelo poeta nos versos que seguem. Aqui, o título não prejudica a liberdade do escritor, antes oferece a ele um fio condutor, uma linha mestra, que irá orientá-lo até o objetivo que pretende atingir.

SABEDORIA AO CAMINHAR
O bom sábio sabe escolher o caminho:
Quando se sai a passear com balões,
Não se vai por onde há espinhos.”

Seguindo adiante, observamos que, afora a aparente ligação que mantém com o Haicai que é praticado modernamente no Brasil, o Terceto não tem com este qualquer outro ponto em comum, senão o fato de ser estruturado em três versos e trazer em seu bojo uma idéia completa. Esta questão da idéia completa diz respeito ao fato de que o Terceto não admite, em hipótese alguma, um quarto verso. O autor deve esgotar sua argumentação nos três versos que constituem o poema de forma que ao leitor não reste a impressão de que “faltou dizer alguma coisa”; por esse motivo, o Terceto traz consigo, também, uma certa similitude com o aforismo, ou com a parábola, já que pretende, com um discurso definitivo, remeter a uma realidade para além daquela presente em sua narrativa/descrição.
Apesar da relativa liberdade que goza quanto à forma, traz em suas características intrínsecas um rigor que deve ser observado, a fim de que se possa avaliá-lo como um estilo de manifestação artística com identidade própria que o distinguirá das outras, mesmo daquelas pertencentes ao universo do qual participa, ou seja, da poesia.

OUVIR-SE
Há ventos que apenas dão voltas.
Outros os há, violentos, que tudo derrubam.
Quando falas, que vento tu sopras?”

O Terceto, então, para assim ser reconhecido como tal, deve apresentar as seguintes condições intrínsecas:

1) Antropocentrismo: sua temática é o ser-humano: suas ações e reações, os objetos cuja origem pode ser determinada como devida à interferência humana ou, em outras palavras, que tragam marcados em si as mãos do Homem. Não são próprias do terceto as temáticas relacionadas à natureza (a evocação a elementos da natureza, por exemplo, tomados isoladamente, a não ser que se esteja falando da influência do ser-humano sobre o ambiente ou do aproveitamento dos recursos naturais), às questões espiritualistas, à religião, às crenças, à filosofia transcedental, à meta-física e outros temas ligados à elevação do espírito. Por isso, podemos dizer que o Terceto é mundano, no sentido de que trata apenas de acontecimentos do mundo racional, aquele que pode ser apreendido pelo raciocínio e por este explicado;

O SENHOR DA GUERRA VAI AO ORIENTE
De madrugada, rufam os canhões!
E explodem centenas de pessoas
Como se explodissem apenas balões.”

2) Reflexividade: ou seja, leva o leitor a pensar, a fazer uma auto-crítica ou uma crítica sobre a realidade da qual participa. As temáticas que podem servir ao Terceto são inumeráveis; assim, o poeta poderá refletir sobre os relacionamentos humanos, sobre a modernidade, sobre as cidades, sobre fobias, medos, loucura, amor, desamor, meios de transporte, poluição do ambiente, mentira, sinceridade et cetera, e levar tais reflexões ou impressões para o leitor, para que este construa as suas próprias. O Terceto tem como objetivo maior sensibilizar o ser-humano (leitor), fornecendo-lhe subsídios para que assuma posturas menos destrutivas para si mesmo, para com seus semelhantes e para com o planeta que habita. No entanto, atenção!: o Terceto não é um estilo poético que se preste como veiculador de idéias de auto-ajuda, pois nele não deve estar contida qualquer intenção de convencimento em torno de verdades inquestionáveis. O Terceto, ao contrário, precisa ser instigador, questionador, semeador de interrogações.

AS CRIANÇAS DE HOJE NÃO TÊM INFÂNCIA
No meio da rua, um menino, sentado,
Brincando com um balão.
E com o sorriso todo molhado.”

A fim de concluir esta breve introdução ao pré-conceito de Terceto, temos ainda a acrescentar que para se perceber se uma construção poética, estruturada em três versos, encabeçada por um título, é, segundo as bases propostas acima, realmente um Terceto, deve-se atentar para a presença de uma característica indispensável: o poema deve passar ao leitor a sensação de completude, isto é, o leitor tem que “sentir” que estão presentes, no texto, a introdução, o desenvolvimento e a conclusão. O Terceto é um tipo de poesia “fechada”; a argumentação ali desenvolvida deve esgotar-se no espaço do texto poético, sem, no entanto, privar o leitor de ampliar o horizonte do que ali está escrito, como acontece quando lemos uma notícia de jornal ou revista, por exemplo.

Por fim, com estas bases propostas, apresento à crítica de todos este que se pretende venha a se tornar um novo estilo de escrita poética, com estrutura enxuta, objetividade temática e características próprias que lhe conferem uma existência única e diferenciada das outras técnicas de escrita atualmente disponíveis.

AS COISAS NO LUGAR DE PESSOAS
Sozinho, um balão pequenininho
Engoliu, num grande sorriso,
A tristeza de um menininho.”

João Antônio Pereira
Porto Alegre – Rio Grande do Sul – Brasil
13 de novembro de 2008.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Escrever para crianças

Escrever para crianças é um exercício fantástico! E terrível! Quando ficamos adultos, por algum motivo ainda não muito bem explicado, perdemos completamente nossas referências infantis, de tal maneira que temos grandes dificuldades, inclusive, para criarmos nossos filhos. É comum depararmo-nos com pessoas que tratam seus filhos como 'pequenos adultos', a exigir deles comportamentos e compreensões completamente incompatíveis com a fase de desenvolvimento em que se encontram.
Porque isso nos acontece? Porque nossa sensibilidade para com essa fase da vida nos sobra completamente embotada? Alguns dizem: "Ah, mas eu me lembro muito bem da minha infância. Inclusive de coisas que me aconteceram quando eu estava ainda no útero!" Fantástico! De repente se levantam, se encaminham solertes em direção ao filho pequeno, que acabou de quebrar um vaso que pertencia à família há uns 150 anos, e... BATEM NELE!...
Fomos crianças, nos lembramos de termos sido crianças, mas não sabemos mais o que é ser criança. É uma pena. E podemos solidificar nossos argumentos quando apontamos não apenas pais que maltratam seus filhos, tanto fazendo uso da violência física quanto da psicológica, mas também aqueles que os abandonam, que não querem saber deles! Será que não lembramos do que necessitávamos quando tínhamos 1, 2, 3, 4 anos?
Acho que, na real, mantemos a memória visual e perdemos completamente a memória emocional, ou sensível. O Alzheimer emocional é devastador, e quem sofre as conseqüências (repararam no uso do trema? - Eu sou brasileiro, e o brasileiro não desiste nunca!) não somos nós, pois nós somos a conseqüência (ó, de novo! Mas, baaaahhh...) dessa "doença" inevitável e incurável; então, há outros, outros menores do que nós, outros "crianças", e que são os que, efetivamente, sofrem com a nossa "desensibilização".

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Enquanto as horas passavam...

A ÚNICA E VERDADEIRA E FANTÁSTICA HISTÓRIA DE JONAS BROWN

(Rascunho para a introdução de um livro que pretendo - algum dia - escrever)

As horas passavam e, conforme a noite ia se estabelecendo e tomando assento, impondo seu reinado até que o sol viesse novamente requerer o trono, o bar ia enchendo cada vez mais. De repente, nem a música do som ambiente, que ainda há pouco se podia ouvir com clareza, conseguia se sobressair ao burburinho das vozes que se elevavam, numa busca quase desesperada para serem ouvidas.

Mesmo em meio de tamanha algazarra ele não conseguia deixar de sentir-se só, apartado do mundo, alheio ao que se passava ao redor. A cada gole, a solidão que sentia levava-o para mais longe, para um lugar qualquer, desabitado, esquecido ou desconhecido de todos e por todos. Um lugar como uma ilha – inóspita, virgem, inalcançável. Tão inalcançável que era como se ele nunca mais pudesse voltar de tal lugar, apesar de lá ter chegado facilmente. "A dor é um navio que nos leva a viagens só de ida", pensou. Ficaria naquele estado-lugar para sempre. Nem a morte viria até aí para lhe reclamar o corpo; nem Deus, ou o Diabo, para lhe cobrar a alma. Estava só. E no mar de gente a sua volta, ninguém havia que lhe pudesse tirar desse estado. Tampouco aliviá-lo.

Não era somente a vida que o tempo tomava e não devolvia, eram também os sonhos, as expectativas, o que poderia vir a ser. Os acontecimentos estão interligados por situações tão efêmeras e delicadas que, uma vez rompida uma ou mais destas ligações, não é possível reconstruir o presente como assim está. O tempo que passa e leva a vida, a vida que passa e não é vivida, não deixa sequer memória. Sem memória não há passado; sem passado, o presente é obscuro; obscurecido o presente, o futuro se torna uma ansiada busca pelo passado – para que o agora e o devir adquiram significado, façam sentido. Como se sente vazio aquele para quem a vida se parece com uma viagem que poderia ter feito e não fez. Para que viver, então? Melhor seria morrer. Mas que sentido teria morrer para alguém que sequer sente-se vivo?

Chamou o garçom e pediu mais uma cerveja. Ficou observando enquanto ele se afastava para providenciar seu pedido e pensou: "qual o sentido de ser garçom?"

* * *

Já estava quase amanhecendo quando girou a chave na fechadura da porta do apartamento – “Mais uma noite, menos um dia”, pensou. Entrou, bateu a porta atrás de si e atirou-se no sofá velho, único móvel existente na sala. A janela estava fechada, apenas uma claridade muito tênue conseguia iluminar o ambiente. Pegou uma almofada e colocou embaixo da cabeça, para fazer as vezes de travesseiro. Apoiou o ante-braço esquerdo na testa e tentou dormir. Antes de dormir, no entanto, lembrou-se de colocar o rádio-relógio para despertar. ‘Tem que ser às nove, tem que ser às nove! Senão não dá tempo nem de tomar um cafezinho, na corrida. Às 10 horas tem a entrevista com o Pai-de-Santo. Preciso estar inteiro. Essa conversa pode se revelar muito produtiva. Ele era uma pessoa muito próxima do Jonas Brown, sabe detalhes da sua vida desde a infância. Como posso ser assim, tão irresponsável? O que há, dentro de mim, que me leva sempre para onde não quero ir? O que é isso que me faz ficar pensando, pensando, pensando? Pensando em quê, cacete?! Eu nunca penso em nada! Nunca cheguei a uma conclusão sequer,! Nunca tive uma iluminação, qualquer coisa que me dissesse: vá por aqui, este é o caminho. Merda! Merda!” Logo já estava dormindo. Um sono pesado, sem sonhos. E sem pesadelos.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

A vida dos outros

Tem gente que encontra na própria vida um exemplo a ser oferecido para os outros. Há pessoas que encontram em si algo de bom para compartilhar com o mundo. São pessoas que entendem que todos estamos intimamente ligados pela nossa humanidade. Não somos nem estamos sós. Se não importássemos uns aos outros, não faria sentido vivermos em sociedade, não é mesmo?
Por isso, convido os navegantes que por aqui passarem a assistirem a este vídeo onde Steve Jobs (ele mesmo, o fundador/criador da Apple) aparece num discurso a formandos na universidade de Stanford. Vale realmente a pena dispensar algum tempinho para assistir e refletir.

Parte I



Parte II

Exercício de Haicai II

Não canso de me apaixonar por esta forma de poesia. É fantástico o que se pode dizer em apenas três versos. Trago para o conhecimento de vocês um haicai de um grande poeta brasileiro chamado Guilherme de Almeida:

Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chama-se "Agora".

Bah, mas eu não poderia deixar de citar o insuperável haicaísta Paulo Leminsky. Tem este que é lindo:

hoje à noite
até as estrelas
cheiram a flor de laranjeira

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

TERCETOS

Você sabe o que são Tercetos? E Tercetos Maledetos? Então, Tercetos são...

Bem, vamos ficar assim por enquanto. Na próxima postagem estarei divulgando um manifesto onde pretendo apresentar conceitualmente algo que classifiquei como um "estilo poético". Aguardem...

Enquanto isso...

"Na esquina reconheço o rosto que passa.
Meu coração dispara! Não adianta acenar.
Ela não me verá. Maldita fumaça!"

domingo, 9 de novembro de 2008

Exercício de Haicai

Bem, estamos estudando sobre haicais. É muuuuiiiito interessante. No entanto, quanto mais me aprofundo no assunto, mais difícil fica definir o que é um haicai: não basta a forma, não basta o tema, não basta a sintaxe, não basta a esquematização, não basta nada: a última que li é que o poema, para ser um haicai, tem que ter "sabor" de haicai - ai, ai, ai... complicou.
De qualquer forma, a gente se mete a tentar fazer de tudo um pouco e aventurar-se em terreno tão pantanoso até que é legal. Atualmente discute-se muito haicais e há correntes haicaistas, umas valorizando mais esta ou aquela característica, outras, aquelas outras. É perigoso tomar posição. Como sou ainda um amador, fico à vontade para deixar que aquilo que me parece haikai, que pulsa em mim apresentando-se como um haicai, saia.
Então, escrevi isto. Caso alguém que entenda do assunto leia esta postagem, por favor, deixe seu recado. Gostaria de saber se o que escrevi pelo menos "cheira" a haikai. Se tem "gosto" de, bem... vamos deixar a massa no forno por mais algum tempo.

Sob a ponte,
passa o Guaíba - imenso! -
arrastando ilhas.
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