sábado, 26 de maio de 2007

A Estética do Frio

Tchê! Mas que frio! Fazer o quê? Por aqui é assim mesmo. Então vamos deitar e rolar (de preferência, bem acompanhados). Esse friozão todo me estimulou a postar alguém do nosso jeito: Vitor Ramil. Esse cara cunhou a expressão que melhor se encaixa com o nosso jeito de fazer cultura: a Estética do Frio. Vamos saber um pouco mais sobre esse vivente.
O texto abaixo foi tirado do blog Durango 95, onde tem muita coisa boa do que se produz aqui no sul, em especial em Porto Alegre.
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"Todos os seus discos têm sido gravados no Rio de Janeiro; lá, em Porto Alegre ou em Belém do Pará. Um público esperto acompanha muito de perto seu trabalho. Mas nada disso quer dizer que em algum momento ele tenha saído de Satolep.
Satolep é uma bela cidade, fria e úmida, situada no fim do fundo da América do Sul, às margens da Lagoa dos Patos. Suas ruas, que avançam para um norte ou para um oeste, aproximados, terminam no campo; as que vão para um leste ou um sul, num mesmo lento e silencioso rio. Os campos do oeste metamorfoseiam-se, aos poucos, num intrigante conjunto de morros que abriga pedras, cachoeiras e árvores frutíferas. Os campos do norte são grandes latifúndios que o asfalto das estradas federais costura. Atravessando o rio no sentido leste, chega-se ao areião de uma praia; no sentido sul, à uma planície radical...
Compositor, cantor e escritor, gaúcho de Pelotas, o caçula da familia Ramil, irmão de Kleiton e Kledir (lendária dupla da MPB e criadores dos Almôndegas), Vitor Ramil começou sua carreira artística ainda adolescente, no começo dos anos 80, com composições gravadas pelo grupo de seus irmãos.
Aos 18 anos de idade gravou seu primeiro disco Estrela, Estrela, com a presença de músicos e arranjadores que voltaria a encontrar em trabalhos futuros, como Egberto Gismonti, Wagner Tiso e Luis Avellar, além de participações das cantoras Zizi Possi e Tetê Espíndola. Neste período Zizi gravou algumas canções de Vitor, e Gal Costa deu sua versão para "Estrela, Estrela" no disco Fantasia.
A Paixão de V Segundo Ele Próprio. Com um elenco enorme de importantes músicos brasileiros, este disco experimental e polêmico, produzido por Kleiton e Kledir, proporcionou ao público uma espécie de antevisão dos muitos caminhos que a inquietude levaria Vitor Ramil a percorrer futuramente. Eram vinte e duas canções cuja sonoridade ia da música medieval ao carnaval de rua, de orquestras completas a instrumentos de brinquedo, da eletrônica ao violão milongueiro. As letras misturavam regionalismo, poesia provençal, surrealismo e piadas. Deste disco a grande intérprete argentina Mercedes Sosa gravou a milonga "Semeadura".
Em 1987, tendo trocado o sul do Brasil, Porto Alegre, pelo Rio de Janeiro, Vitor lançou Tango. Diferentemente do disco anterior, este era o resultado do trabalho de um grupo pequeno de músicos a partir de um repertório também reduzido. Em oito canções o furor experimental e lúdico de antes cedeu lugar a letras densas e elaboradas de canções que viraram sucessos. O letrista se afirmava e o compositor tornava-se mais sutil, proporcionando aos músicos e grandes improvisadores como Nico Assumpção, Hélio Delmiro, Márcio Montarroyos, Leo Gandelman ou Carlos Bala perfomances marcantes.
Na passagem dos anos 80 para os 90 Vitor afastou-se dos estúdios e passou a dedicar-se ao palco, pois quase não fizera shows até então. Foi quando nasceu o personagem Barão de Satolep, um nobre pelotense pálido e corcunda, alter-ego do artista. Dividindo alguns espetáculos com esta figura ao mesmo tempo divertida e mal-humorada, mesclando música, poesia, humor e teatro, Vitor começava a consolidar seu público e a aperfeiçoar sua interpretação.
Neste período não só definiu-se a música e postura do Vitor Ramil dos discos que viriam a ser gravados na segunda metade dos anos 90 como apresentou-se o Vitor Ramil escritor, através da novela Pequod, ficção criada a partir de passagens da infância do autor, de sua relação com o pai, de suas andanças pelo extremo sul do Brasil e pelo Uruguai.
A partir do lançamento deste primeiro livro, em 1995, de grande repercussão junto à crítica e recentemente lançado na França, o artista passou a ocupar-se duplamente: música e literatura.
Mas mais do que pela escritura de Pequod os anos 90 ficaram marcados para Vitor Ramil como os anos em que começou a refletir sobre sua identidade de sulista e sua própria criação através do que chamou de A estética do frio. A busca dessa “estética do frio” deu-lhe a convicção de que o Rio Grande do Sul não estava à margem do centro do Brasil, mas sim no centro de uma outra história. Neste momento, significativamente, ele deixava o Rio de Janeiro para voltar a viver no Sul.
Simultaneamente a Pequod aconteceu a gravação do cd À Beça. Tendo saído apenas como edição especial, em tiragem limitada, por uma revista de música de Porto Alegre, este disco representou seu primeiro esforço de realizar algo a partir das idéias da estética do frio. Com versos leves, cheios de coloquialidade, em melodias fluentes e inusitadas concepções rítmicas, o disco antecipava os dois próximos e mais importantes trabalhos: Ramilonga – A Estética do Frio e Tambong.
Em Ramilonga – A Estética do Frio, gravado em Porto Alegre em 1997, Vitor inaugura as sete cidades da milonga (ritmo comum ao Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina): Rigor, Profundidade, Clareza, Concisão, Pureza, Leveza e Melancolia. Através delas a poesia de onze “ramilongas” percorre o imaginário regional gaúcho mesclando o linguajar gauchesco do homem do campo à fala coloquial dos centros urbanos. A reflexão acerca da identidade de quem vive no extremo sul do Brasil começa pela recusa ao estereótipo do gauchismo.
O canto forte dá lugar a uma expressividade sofisticada e suave; instrumentos convencionais são substituídos por outros, como os indianos e africanos, nunca antes reunidos neste gênero de música. Pela contundência de suas idéias, pela originalidade de sua concepção, Ramilonga é uma espécie de marco zero na carreira de Vitor Ramil.
Tambong, seu trabalho seguinte, foi gravado em Buenos Aires, em 2000, sob a produção de Pedro Aznar. Seu resultado é a confirmação da idéia de estar “no centro de uma outra história”, com a musicalidade e poesia brasileiras combinadas com as dos países do Prata a fluir naturalmente em quatorze temas cujos arranjos fazem deste um dos trabalhos mais originais da moderna música brasileira.
Tambong saiu em duas versões, português e espanhol. Para realizá-lo Vitor trabalhou com músicos argentinos, como o percussionista Santiago Vazquez, que o acompanha nos shows, e contou com a participação dos artistas brasileiros Egberto Gismonti, Lenine, Chico César e João Barone.
Os shows de lançamento de Tambong levaram para o palco a vibração rítmica e as sutilezas harmônicas e melódicas do disco em meio a uma bela produção de luz e cenografia. Começaram com o espetáculo de abertura criado especialmente para o primeiro Fórum Social Mundial em Porto Alegre e, depois, foram readaptados para uma temporada de um mês no Rio de Janeiro e outra em São Paulo. Na Argentina o lançamento aconteceu em outubro de 2001, com dois espetáculos em Buenos Aires.
No ano de 2002, com sua banda brasileiro-argentina (Santiago Vazquez, percussão; André Gomes, píccolo bass e sitar; Roger Scarton, harmonium e guitarra), levou Tambong em turnê pelas principais capitais do Brasil.
Em 2003 Vitor apresentou seu primeiro show solo em Montevidéu, Uruguai, Sala Zitarrosa, mesmo local onde tocara, no final de 2002, com o compositor e intérprete uruguaio Jorge Drexler, hoje seu parceiro.
Ainda em 2003 apresentou-se com sua banda na Suíça, nas cidades de Genebra, Zurique e Schaffhouse. Em Genebra, no Teatro St. Gervais, Vitor deu uma conferência, tendo como tema “A estética do frio”. Em Paris, no mesmo período, participou do evento de lançamento da tradução para o francês de seu livro Pequod, pela editora L’Harmattan.
Além de seu livro Pequod, suas canções vem sendo distribuídas na Europa em coletâneas inglesas, espanholas e portuguesas. Sobre Vitor Ramil, escreveu o produtor londrino, John Armstrong: “Why hasn’t this genious dominated the world of music yet?”
Outubro de 2004 é a data de lançamento de Longes, seu sétimo álbum, também gravado em Buenos Aires e produzido por Pedro Aznar. Neste trabalho Vitor Ramil aprofunda e aperfeiçoa a linguagem que começou a elaborar nos trabalhos anteriores, Ramilonga e Tambong. Se em Ramilonga chamava a atenção a unidade em torno de temas e timbres e se a marca de Tambong era a diversidade sonora e poética, Longes pode ser definido como uma síntese dessas qualidades, por mais paradoxal que isso pareça, e um avanço a partir delas.
Os arranjos de Longes têm sua base no violão de aço arpejado de Vitor Ramil e nos baixos melódicos de Pedro Aznar. Participam também Santiago Vazquez e Marcos Suzano nas percussões, o baterista Christian Judurcha, o pianista clássico Gabriel Victora, o guitarrista Bernardo Bosísio, a cantora Adriana Maciel, um quarteto de sopros e uma orquestra de cordas.
A apresentação gráfica de Longes traz fotografias feitas por Vitor e sua mulher, Ana Ruth, em vários países, além de fragmentos de Satolep, romance que Vitor escreveu simultaneamente à criação das canções do disco."
Texto: adaptado por RR (durango-95.blogspot.com) do release original do músico.
Pesquisa: Gustavo Ôcalvo.
>>>> Site Oficial >>>> http://www.vitorramil.com.br

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DISCOGRAFIA:
(Clique na título do disco para fazer o download)
(1981) Estrela, Estrela

01 - Assim, Assim (04:00)
02 - Tribo (03:46)
03 - Engenho (03:44)
04 - Estrela, Estrela (05:44)
05 - Um e dois (04:15)
06 - Mina de Prata (02:31)
07 - Noite e Dia (04:33)
08 - Aldeia (02:48)
09 - Epilogo (04:35)

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(1984) A Paixão de V Segundo Ele Próprio

01 - Satolep (06:59)
02 - O Baile dos Galentes (00:29)
03 - Ibicuí da Armada (04:20)
04 - O Milho e a Inteligência (00:52)
05 - Talismã (04:36)
06 - A Luta (01:10)
07 - Armando Albuquerque no Laboratório (00:08)
08 - Milonga de Manuel Flores (02:03)
09 - Nossa Senhora Aparecida e o Milagre (00:50)
10 - Noigandres (01:04)
11 - Clarisser (04:13)
12 - De Um Deus Que Ri dos Outros (01:17)
13 - Semeadura (03:23)
14 - Poemita (01:04)
15 - Sangue Ruim (00:47)
16 - Século XX (03:03)
17 - Auto-retrato (00:22)
18 - Sim e Fim (03:29)
19 - Fragmento de Milonga (00:18)
20 - A Paixão de V Segundo Ele Próprio (04:01)
21 - As Moças (00:14)
22 - As Cores Viajam na Porta do Trem (01:26)

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(1986) Tango

01 - Sapatos em Copacabana (04:55)
02 - Mais um Dia (03:52)
03 - Virda (01:03)
04 - Joquim (08:27)
05 - Passageiro (05:28)
06 - Nada a Ver (03:32)
07 - Nino Rota no Sobrado (01:03)
08 - Loucos de Cara (06:35)

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(1996) À Beça

01 - Minha Virgem (03:15)
02 - Folhinha (03:37)
03 - Não é Céu (04:21)
04 - Grama Verde (primeira versão) (04:04)
05 - Deixa Eu Me Perder (03:12)
06 - Café da Manhã (04:28)
07 - Livro dos Porques (04:52)
08 - Foi no Mes Que Vem (primeira versão) (02:41)
09 - Sol (03:28)
10 - À Beça (primeira versão) (03:41)
11 - A Invenção do Olho (03:32)
12 - A Resposta (03:56)
13 - Namorada Nao é Noiva (03:28)
14 - Barroco (04:08)

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(1997) - Ramilonga - A Estética do Frio

01 - Ramilonga (06:16)
02 - Indo ao Pampa (04:31)
03 - Noite de São João (03:56)
04 - Causo Farrapo (03:29)
05 - Milonga de Sete Cidades (02:51)
06 - Gaudério (04:01)
07 - Milonga (03:47)
08 - Deixando o Pago (03:40)
09 - No Manantial (03:20)
10 - Memória dos Bardos das Ramadas (03:42)
11 - Último Pedido (07:19)

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(2000) Tambong

01 - Não é Céu (04:59)
02 - Espaço (03:47)
03 - Grama Verde (04:35)
04 - Um Dia Você Vai Servir Alguém (05:25)
05 - Foi no Mês Que Vem (04:02)
06 - O Velho Leon e Natália em Coyoacán (03:14)
07 - A Ilusão da Casa (04:08)
08 - Valérie (03:31)
09 - Só Você Manda em Você (04:07)
10 - Subte (03:34)
11 - Para Lindsay (01:36)
12 - Estrela, Estrela (02:48)
13 - À Beça (03:53)
14 - Quiet Music (03:25)

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(2000) Tambong (en español)

01 - Cielo No Es (05:00)
02 - Espacio (03:47)
03 - Prado Verde (04:38)
04 - Um Dia Você Vai Servir a Alguém (05:28)
05 - Fue El Mes Que Viene (04:02)
06 - El Viejo Le¢n Y Natalia En Coyoacán (03:17)
07 - La Ilusión De La Casa (04:09)
08 - Valérie (03:32)
09 - S¢ Você Manda Em Você (04:07)
10 - Subte (03:34)
11 - Para Lindsay (01:38)
12 - Estrella, Estrella (02:51)
13 - À Beça (03:55)
14 - Quiet Music (03:25)

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(2004) Longes

01 - O Primeiro Dia (04:43)
02 - Neve de Papel (03:25)
03 - Noturno (04:26)
04 - Longe de Você (04:26)
05 - Perdão (03:17)
06 - Noa Noa (03:24)
07 - Visita (01:07)
08 - De Banda (04:18)
09 - Querência (05:52)
10 - Livros no Quintal (03:11)
11 - Desenchufado (03:49)
12 - Sem Dizer (04:11)
13 - A Word Is Dead (00:47)
14 - Adiós, Goodbye (07:58)

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