sábado, 7 de abril de 2007

Só as mães são felizes

Sim, eu também tive mãe. E sofri. Como deveriam sofrer nas masmorras os pobres camponeses que não tinham o suficiente para pagar os impostos e/ou taxas exigidos pelo rei, pelo duque, pelo barão, pelo arqui-duque, pelo conde, pelo padre, pelo bispo, pelo papa, pelo latifundiário, pelo dono da choupana.

Como muitos, também fui vítima de um comportamento psicótico e cruel: comia o que não queria, ou não gostava - e sempre na hora em que não estava com vontade de comer; fui proibido de comer na hora em que estava com fome - quem mandou não comer na hora certa? -; dormi quando não queria dormir; levantei quando não queria levantar; usei roupas que não queria usar, só porque eram um presente da tia Flatulécia que gostava "tanto" de mim; tomei banho de água fria, para ver o que é bom pra tosse; fui proibido de brincar nas horas em que queria brincar; fui obrigado a sair para brincar nas horas em queria ficar em casa; fui proibido de assistir TV, porque não era mais hora de criança ficar vendo TV; usei blusão de lã no verão, por causa de uma "aragem fria"; usei bonés ridículos, por causa do sol; tive que entrar, por causa da chuva, que não durou mais que dois minutos; acompanhei visitas a tios que detestava; fui obrigado a brincar com primos que só me cascudeavam e atiravam pedras em passarinhos - e depois botavam a culpa em mim; tive de levantar ao nascer do sol para ir à primeira missa do domingo - mesmo que estivesse um frio de "renguear cusco"; tive de escutar som com o volume bem baixinho, para não atrapalhar os outros; tive que parar de gritar, para não incomodar - todo mundo grita quando tem seis anos, mas as mães parecem que não se apercebem disso; tive que ficar quieto e esperar o programa terminar, para depois falar; porém, quando o programa terminava, não podia mais falar pois já era hora de dormir. E fiz tudo isso por um único motivo: para não apanhar.

Certa noite, já na adolescência, estava em meu quarto, deitado, com a luz apagada. Chovia, e a chuva intermitente melodicamente acompanhava a música que tocava em meu System Gradiente S-96: era Starway to Heaven, do Led Zeppelin. De repente, a porta se abriu, estripitante, e uma figura que eu não conseguia divisar bem - via dela apenas o vulto contornado por uma aura amarelada produzida pela lâmpada do corredor, às suas costas - entrou e me disse, com voz cavernosa e ameaçadora: "Desliga essa merda e vai dormir, senão eu quebro essa porcaria, com disco e tudo!". Fiquei estarrecido. Queria levantar e fazer o que o vulto me pedia, mas o horror, o medo, a surpresa, me paralisaram por completo. Então, a criatura voltou-se para a parede ao lado da porta, deslizou a pata como se procurasse pelo interruptor de luz e, finalmente, quando o encontrou, fez um movimento rápido com o dedo, sobre a chave liga/desliga, e acendeu a lâmpada. A luz tomou conta do quarto e era como se o sol, com toda a sua força, tivesse arrebentado as paredes e refulgisse em sua máxima magnitude e esplendor. Aquele jorro de luz me deixou cego por alguns instantes. O monstro, então, dirigiu-se a mim e começou a me bater: primeiro na cabeça, depois no rosto, em seguida nos braços, nas pernas, em qualquer lugar que alcançasse. Súbito, virou-se para o aparelho de som e avançou sobre ele... "Não! Não faça isso! Não! Por favor, pare! Pare!", eu gritava. Mas a coisa não me dava a mínima atenção. Babando de raiva, ia destruindo tudo o que encontrava em seu caminho.

Não sobrou nem uma válvula para iluminar o passado e contar a história. Depois que minha mãe saiu, levantei da cama e passei a recolher os cacos dos discos que ela quebrara, junto com o meu System Gradiente S-96. Passei a noite toda nessa tarefa. Quando amanheceu, tinha conseguido recuperar os discos do Led Zeppelin, mas ainda havia muitos espalhados pelos quatro cantos do quarto. Após dar uma olhada em volta, concluí que nunca conseguiria recuperar tudo o que se perdeu. Coloquei, então, os discos que conseguira salvar numa sacola e saí do quarto. Minha mãe passou por mim, em direção ao banheiro, e me lançou um olhar que rescendia a ódio e amor materno. Fechei a porta atrás de mim e saí para a rua. Era cedo, bem cedo. A chuva parara e sol dourado surgia tímido, entre nuvens. A calçada irregular estava coberta de poças d'água: diversão para a meninada que ia para a escola, desespero para as mães zelosas que as acompanhavam. Acenei bom dia, com a cabeça, para uma ou outra que conhecia e caminhei em direção ao ponto de ônibus. E nunca mais voltei.

Abaixo, o que eu carregava na dita sacola:


1968 - Led Zeppelin I
01 - Good Times, Bad Times (02:46)
02 - Babe, I'm Gonna Leave You (06:41)
03 - You Shook Me (06:28)
04 - Dazed And Confused (06:26)
05 - Your Time is Gonna Come (04:34)
06 - Black Mountain Side (02:12)
07 - Communication Breakdown (02:30)
08 - I Can't Quit You Baby (04:42)
09 - How Many More Times (08:28)



1969 - Led Zeppelin II
01 - Whole Lotta Love (05:34)
02 - What Is And What Should Never Be (04:48)
03 - The Lemon Song (06:19)
04 - Thank You (04:47)
05 - Heartbreaker (04:14)
06 - Living Loving Maid (She's Just A Woman) (02:29)
07 - Ramble On (04:35)
08 - Moby Dick (04:20)
09 - Bring It On Home (04:20)



1970 - Led Zeppelin III
01 - Immigrant Song (02:24)
02 - Friends (03:53)
03 - Celebration Day (03:29)
04 - Since I've Been Loving You (07:24)
05 - Out Of The Tiles (04:06)
06 - Gallows Pole (04:56)
07 - Tangerine (03:09)
08 - That's The Way (05:37)
09 - Bron-Y-Aur Stomp (04:19)
10 - Hats Off To (Roy) Harper (03:39)

1971 - Led Zeppelin IV
01 - Black Dog (04:57)
02 - Rock And Roll (03:40)
03 - The Battle Of Evermore (05:52)
04 - Stairway To Heaven (08:03)
05 - Misty Mountain Hop (04:39)
06 - Four Sticks (04:45)
07 - Going To California (03:31)
08 - When The Levee Breaks (07:08)


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1973 - Houses Of The Holy
01 - The Songs Remains The Same (05:29)
02 - The Rain Song (07:39)
03 - Over The Hills And Far Away (04:46)
04 - The Crunge (03:15)




05 - Dancing Days (03:42)
06 - D'yer Mak'er (04:23)
07 - No Quarter (07:01)
08 - The Ocean (04:30)





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1975 - Physical Graffiti

Disc 1

01 - Custard Pie (04:13)
02 - The Rover (05:37)
03 - In My Time Of Dying (11:05)
04 - Houses Of The Holy (04:03)
05 - Trampled Under Foot (05:35)
06 - Kashmir (08:33)


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Disc 2
01 - In The Light (08:46)
02 - Bron-Yr-Aur (02:06)
03 - Down By The Seaside (05:14)
04 - Ten Years Gone (06:32)
05 - Night Flight (03:36)
06 - Wanton Song (04:06)
07 - Boogie With Stu (03:51)
08 - Black Country Woman (04:24)
09 - Sick Again (04:43)

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1976 - Presence
01 - Achilles Last Stand (10:23)
02 - For Your Life (06:21)
03 - Royal Orleans (02:58)
04 - Nobody's Fault But Mine (06:28)
05 - Candy Store Rock (04:07)
06 - Hots On For Nowhere (04:43)
07 - Tea For One (09:27)



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1976 - The Song Remains The Same
Disco 1

01 - Rock And Roll (04:04)
02 - Celebration Day (03:52)
03 - The Song Remains The Same (05:55)
04 - Rain Song (08:27)
05 - Dazed And Confused (26:55)



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Disco 2


01 - No Quarter (12:32)
02 - Stairway To Heaven (10:58)
03 - Moby Dick (12:47)
04 - Whole Lotta Love (12:16)




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1979 - In Through The Out Door
01 - In The Evening (06:51)
02 - South Bound Saurez (04:14)
03 - Fool In The Rain (06:13)
04 - Hot Dog (03:17)
05 - Carouselambra (10:34)
06 - All My Love (05:56)
07 - I'm Gonna Crawl (05:30)





1982 - CO/DA
01 - We're Gonna Groove (02:38)
02 - Poor Tom (03:02)
03 - I Can't Quit You Baby (04:16)
04 - Walter's Walk (04:32)
05 - Ozone Baby (03:36)
06 - Darlene (05:07)
07 - Bonzo's Montreux (04:18)
08 - Wearing And Tearing (05:29)


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